“Que País é esse? É a p... do Brasil!” O grito de indignação serviu de coro para os estudantes da rede privada de ensino, em Goiânia, pressionarem a presidente Dilma Rousseff a vetar o projeto de lei que reserva metade das vagas das instituições federais de ensino a alunos oriundos de escolas públicos. Vestidos com camisetas verdes e com faixas e cartazes em punho, os manifestantes tomaram o percurso entre a Assembleia Legislativa, no Setor Oeste, e a Praça Cívica, no Centro, ontem de manhã, 12 dias depois de o Senado Federal aprovar a medida. Se a presidente sancionar a lei, as universidades terão quatro anos para destinar 50% de suas vagas a estudantes de escola pública. Para o filho de desembargador e de uma médica, o estudante Heitor Crispim, um dos que buscaram a rede social Facebook para impulsionar o movimento, a aprovação do projeto de lei não garante melhorias na educação básica. “O governo precisa investir da educação como um todo, em vez de segregar”, afirmou. Estudante de uma renomada escola particular na capital, Heitor ressaltou que, apesar de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter decidido, em abril, pela constitucionalidade das cotas raciais, a reserva de vagas “fere o princípio de justiça” dos alunos da rede privada de ensino. Em cima do único carro de som da manifestação, ele empostava a voz para puxar outro grito de guerra. “Cotas, não! Sim, educação!”. Devido à força do coro, muitos motoristas diminuíam a velocidade de seus carros numa tentativa de entender o motivo da manifestação. Nas calçadas, algumas pessoas demonstravam apoio ao movimento, com aplausos. Outras o repudiaram. A repercussão da passeata, batizada de Marcha do Toddynho na internet, também levantou polêmica no Twitter e Facebook. O movimento durou mais de duas horas e, segundo estimativa da Polícia Militar (PM), repassada pelo aspirante César Otávio Valente Júnior, contou com a participação de 1 mil a 1,5 mil estudantes. Muitos aproveitaram o trajeto como uma oportunidade para fazer a sua primeira manifestação. “A classe média também tem direito de protestar”, comentou um deles, no meio da multidão. Alguns se divertiam. Outros preocupavam-se em arrumar o cabelo e checar o visual, antes de pegar o iPhone para tirar uma foto, enquanto Heitor gritava, em cima do carro de som: “Temos os políticos mais caros do mundo e a pior educação.” Às 11h35, os estudantes pararam em frente ao Palácio Pedro Ludovico Teixeira e cantaram o Hino Nacional brasileiro. Entre eles estavam Vittor Hugo Alves Ferreira, de 18 anos, que pretende cursar Medicina. “Não sou contra a política de cotas, mas, abusivamente, sendo 50% para estudantes de escolas públicas, achei muito”, afirmou. “O ideal seria 20%, para manter certo equilíbrio”, acrescentou. Repúdio Durante a manifestação, a vista se perdia em meio à grande quantidade de faixas e cartazes. “Dilma, finja que sou a copa e invista em mim!”, dizia um deles. “Parabéns MEC (Ministério da Educação) conseguiram”, ironizava outro, com erro de concordância. “Valorização e salário digno aos professores”, defendia uma faixa. O consenso entre os manifestantes ouvidos pelo POPULAR é de que “alunos de escola pública não têm capacidade para acompanhar o desempenho daqueles oriundos da rede privada.” No entanto, reportagem sobre o sistema de cotas, publicada na edição de ontem do jornal, mostra que as médias entre cotistas e não-cotistas são semelhantes, na Universidade Federal de Goiás (UFG). Em alguns casos, o desempenho de alunos de escolas públicas é melhor. Mesmo assim, o tom de repúdio à política de cotas foi defendido até pelos responsáveis de alunos presentes no movimento. Para a professora aposentada Rozi Mendes, de 56 anos, tia de uma estudante que pretende cursar Medicina, o projeto de lei tem gerado uma briga entre alunos de escolas públicas e particulares. “Eu me aposentei muito revoltada na escola pública, onde o professor tem de aprovar analfabetos. O Estado está buscando um confronto entre as redes pública e particular de ensino. Quer criar esse caos para, depois, se colocar como salvador”, criticou. Para o agropecuarista Walder Vieira Leão, de 67, cuja neta estuda para fazer Medicina, “os alunos de escolas públicas deveriam exigir melhorias na educação, em vez de aceitar esmolas do governo.”-Imagem (Image_1.192953)-Imagem (1.193088)-Imagem (1.193085)-Imagem (1.193076)-Imagem (1.193074)-Imagem (1.193073)-Imagem (1.193072)-Imagem (1.193070)-Imagem (1.193067)-Imagem (1.193065)-Imagem (1.193062)-Imagem (1.193058)-Imagem (1.193056)-Imagem (1.193053)-Imagem (1.193049)-Imagem (1.193046)-Imagem (1.193045)-Imagem (1.193044)-Imagem (1.193043)-Imagem (1.193042)-Imagem (1.193036)-Imagem (1.193028)