Conquistar uma vaga em cursos de Medicina, uma das carreiras mais disputadas e mais difíceis de ingressar, exige do aluno estudo, disciplina, dedicação e não raramente uma situação financeira confortável. Por isso, quando os dois filhos da coletora de materiais recicláveis, Maria Aparecida Rosa de Souza, de 41 anos, tiveram a chance de frequentar universidades federais para se tornarem médicos, o feito chamou a atenção. A história da mulher veio à tona e foi alvo de reportagens em razão de a família ter quebrado a lógica do acesso ao ensino superior. Mas a realidade tem se apresentado muito cruel.Maria Aparecida, uma baiana que migrou para Goiânia aos 18 anos fugindo da pobreza e de um padrasto agressivo comemorou muito em 2016 quando Moisés, então com 18, o segundo da sua prole de quatro filhos, conseguiu pontos suficientes no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para frequentar o curso de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ela só tinha estudado até a quinta série e desde que aportou em Goiás com o primogênito de 1,5 ano e aqui teve outros três filhos, seu único ganha pão foi a reciclagem.Os herdeiros da recicladora, que foram criados por ela sem a ajuda do ex-marido, sempre frequentaram escolas públicas e retiravam do lixo os livros que os colocaram em condições de igualdade para brigar por uma vaga tão disputada. Em 2014, Maria Aparecida viu o filho mais velho, Mateus, tombar diante dela por um tiro que seria destinado a um amigo. O crime ocorreu na porta do depósito de reciclagem da família, no bairro Jardim Europa, região Oeste da capital. Mateus era o braço direito da mãe na atividade. A sua morte trouxe uma tristeza imensa e uma lacuna que nenhum dos familiares conseguiu preencher.Sem condições de permanecer no local onde Mateus tinha sido morto, a família decidiu se mudar para Goianira, a 25 quilômetros de Goiânia. Foi lá que Maria Aparecida comprou uma casinha com o dinheiro da venda de material reaproveitável. Foi lá também que soube que Moisés tinha sido aprovado para Medicina na UFG.“Quando meu irmão morreu pensei em desistir de estudar. Não sei como consegui ser aprovado. Desde então não tenho cabeça para nada”, conta Moisés, que também sempre ajudou a mãe no negócio da reciclagem.Para ficar mais perto da Faculdade de Medicina, o jovem passou a morar com uma prima da mãe no Setor Universitário. O arranjo durou cerca de um ano, período em que a alegria pela conquista foi substituída pela apreensão. Maria Aparecida foi diagnosticada com um câncer na região pélvica que exigiu um tratamento rigoroso no Hospital Araújo Jorge iniciado no dia do aniversário dela em junho de 2017. “Eu pedi a Deus uma oportunidade de viver porque meus filhos estavam estudando.” Foram 60 sessões de radioterapia que detonaram com sua saúde. Ela teve de se afastar da reciclagem e a vida financeira familiar foi drasticamente atingida.Moisés voltou a morar na casa da mãe, em Goianira, e passou a enfrentar viagens de ônibus que duram 1 hora e meia até a faculdade. Nos períodos de recesso universitário ajuda a tia, num depósito de reciclagem no setor Vila Boa, em Goiânia, em troca de alimentação. Cabisbaixo, demonstrando muita tristeza, o jovem explica que vive um grande dilema. “O que mais me preocupa é não conseguir terminar o curso a tempo de ajudar a minha família. Eu sinto que sou um peso por ainda não ter uma profissão”, diz.A angústia vivida por Moisés tem afetado seu desempenho na universidade. “Eu fui reprovado em algumas matérias e meu curso está atrasado.”AssaltoA amargura expressa no olhar e no comportamento de Moisés se explica não somente pelo câncer enfrentado pela mãe e pelas dificuldades financeiras da família. No início de uma manhã de 2018, saindo de casa para mais uma vez monitorar o tumor que a tinha acometido, Maria Aparecida foi cercada por dois homens numa motocicleta que pediram seu celular. Ela mal teve tempo de procurá-lo na bolsa quando foi arrastada pelo carona no asfalto. A mulher ouviu gritos de “atira, atira” e perdeu a noção do que tinha acontecido. Um disparo atingiu o lado direito de sua cabeça de raspão e tudo o que estava na bolsa foi levado, celular, documentos e um pouco de dinheiro.“Desde então eu sofri convulsão, tenho muita tonteira, puxo um pouco da perna e não tenho forças no braço por causa das sessões de radioterapia. Estou lutando para sobreviver. Tentei voltar à reciclagem, mas não consegui”, detalha Maria Aparecida. Hoje, a única renda da família vem da bolsa Auxílio Permanência no valor de 400 reais que Moisés conseguiu na UFG após três anos de curso.“Eu sempre lutei para que eles estudem porque no futuro estarão garantidos. A minha vida inteira trabalhei para eles”, diz a recicladora. “A mãe espera muito da gente”, responde o filho sem saber como fazer para ajudá-la neste momento, já que estuda o dia todo.A conquista mais recenteEm 2019, Milene, a caçula de Maria Aparecida, também conseguiu ser aprovada para o curso de Medicina, conquistando uma vaga na Universidade Federal do Tocantins. A repercussão na mídia sobre a vitória dos filhos da recicladora que, com muito esforço, atingiu um patamar almejado por tantas famílias, disseminaram a situação de dificuldades vivida por mãe e filhos. “Um empresário falou que ajudaria ela com 500 reais durante os seis anos de curso, mas em dezembro enviou um comunicado encerrando a contribuição”, conta Maria Aparecida.Milene, que estuda em Araguaína, ficou os últimos três meses na casa da mãe para economizar. Ela retornou ao Tocantins na segunda-feira de carnaval na esperança de continuar estudando. “Algumas pessoas ajudam, mas não é nada fixo. Ela vai tentar morar com duas colegas para ficar mais barato”, explica a mãe. “Eles gostam de estudar. Eu queria muito poder trabalhar para ver eles terminarem o curso de Medicina”, lamenta Maria Aparecida. Ela aguarda os resultados de novos exames (tomografias e eletroencefalograma) na esperança de voltar à ativa.“Ela é muito forte, tenta passar para os filhos que está tudo bem, mas sofre muito. Eu não suportaria nem um terço do que ela aguenta”, comenta a assistente social Ivone Sipaúba, a pessoa que tenta ajudar Maria Aparecida a enfrentar os obstáculos cotidianos. A recicladora, que sempre contribuiu com a Previdência Social, chegou a ter o benefício do Auxílio Doença, mas perdeu. Agora, a pedido de Ivone, um advogado busca recuperar o benefício. “Com todo o sofrimento, aprendi a não olhar para os problemas. Tento focar na solução”, diz Maria Aparecida.Livros do lixo viram aliadosNa casa da família chama a atenção a quantidade de livros. Maria Aparecida fica incomodada de vê-los espalhados de qualquer jeito pela sala e avisa que pretende organizá-los num estante assim que tiver condições. As obras, grande parte delas didáticas, foram retiradas dos lixos vasculhados pela família e ajudaram todos os filhos da recicladora na formação escolar. Moisés, de 22, e Milene, de 19, estão na Faculdade de Medicina. Mikael, de 20, fez o Enem e conseguiu vaga para Educação Física, mas pretende continuar estudando para atingir o objetivo de estudar Engenharia. Casado, Mikael trabalha como soldador. Moisés gosta muito de ler o que cai em suas mãos, sobre qualquer tema. Para estudar, solicita empréstimos de livros na UFG e lê obras médicas pela internet. Muito preocupado com a condição física da mãe e com os problemas financeiros de casa, o jovem tem tendência a se afastar do convívio social. O comportamento afeta diretamente seu desempenho em disciplinas voltadas para a relação médico-paciente. Uma situação que a mãe espera reverter. Quem quiser ajudar a família, Maria Aparecida possui conta na Caixa Econômica Federal, Agência 0013, Conta Poupança 00131833-3, CPF: 905432461-91.