Sem dinheiro para pagar o aluguel há vários meses, Sebastiana Pereira de Jesus Charles, de 61 anos, está cansada de receber mensagens do dono da casa em que morou até abril deste ano. Por áudio, o proprietário pede para a antiga inquilina pagar “qualquer valor” da dívida acumulada. O problema, segundo Sebastiana, é que ela não tem nada. Desempregada e vivendo com cerca de R$ 150 por mês, a idosa é uma das cerca de 2,1 mil pessoas que passaram a morar em áreas de ocupações irregulares na Grande Goiânia nos últimos dois anos.Em levantamento feito pelo POPULAR junto à prefeituras e líderes de comunidades, foi possível mapear 17 áreas de invasões espalhadas pela região metropolitana de Goiânia. Do total, 11 estão em Goiânia, cinco em Aparecida de Goiânia e uma em Terezópolis de Goiás. São quase 10 mil moradores, sendo que pelo menos 2,1 mil chegaram aos locais durante os meses da pandemia de Covid-19. Na capital, das seis ocupações com mais de 20 famílias, quatro nasceram nos últimos 24 meses (confira o quadro).No Setor Estrela Dalva, em Goiânia, dezenas de famílias começaram, em maio deste ano, a montar uma ocupação que hoje contabiliza cerca de 800 moradores. As ruas com traçados tortos, definidos pelos primeiros que chegaram, já estão nomeadas. A casa de Sebastiana fica na Rua Aroeira, que faz esquina com a Avenida Dom Tomás Balduíno. O endereço não é reconhecido pela Prefeitura ou por sistema de GPS. Mesmo assim, tem sido ali, em uma casa improvisada, feita com madeira, lona e restos de demolição, que a idosa busca conquistar o direito à moradia.AluguelMãe de seis filhos, um já falecido, Sebastiana conta que a única vez em que morou sem pagar aluguel foi na casa da ex-sogra. Depois que o marido morreu ela passou a cuidar de si e de um filho diagnosticado com esquizofrenia apenas com os próprios ganhos. “Meu marido falava que não ia deixar nada e realmente não deixou”, conta. Sua última experiência profissional de carteira assinada foi há seis anos, em um supermercado, trabalhando como auxiliar de serviços gerais.De lá pra cá, sobrevive de diárias como faxineira, que se tornaram escassas após o início da pandemia. “Não estava dando mais. Quando eu soube que tinha essa área eu cheguei e falei que precisava de um lugar para ficar”, relata. “Aqui a comida chega por doação. Meu filho mesmo disse que, se não fossem as cestas, ele teria passado fome”, diz Sebastiana.As prefeituras de Goiânia e de Aparecida confirmam o crescimento do número de áreas ocupadas de forma irregular nos últimos meses. Para Daniel Antônio da Silva, diretor de Habitação da Prefeitura de Goiânia, o fenômeno se deve, principalmente, ao aumento da migração de moradores de outros estados para a capital goiana. Porém, entre os entrevistados pela reportagem, a maioria disse ter nascido em Goiás. O gestor diz que a Prefeitura tem buscado acompanhar as famílias que vivem nas áreas de ocupações, mas admite que não há solução imediata para a questão.O Secretário Municipal de Habitação de Aparecida, Willian Panda, define a situação como “preocupante” e diz que a gestão tem articulado medidas pensando em ações de curto, médio e longo prazo. “Estamos sofrendo o efeito da crise. Quando a família não consegue uma moradia e recorre a locais precários é um sinal preocupante. É algo que temos observado de forma nacional”, diz Panda.Dia a diaO dia a dia nas áreas ocupadas é tomado de improvisos. Água e energia são conseguidas a partir dos chamados “gatos”, as ligações irregulares nas redes de abastecimento. Antes de conseguir fazer as instalações, os moradores da Ocupação Beira da Mata, nascida há sete meses no bairro Independências Mansões, em Aparecida de Goiânia, tomavam água de um poço desativado próximo da comunidade, que tem quase 300 membros. Com o passar das semanas, crianças e adultos começaram a apresentar casos de vômito e disenteria.“Vimos que era o poço. Fomos juntando um tanto de cada morador e conseguimos pagar para fazer a instalação”, conta Diones Ferreira, de 25 anos, o líder da ocupação.Uma das moradoras da Beira da Mata é Débora Rodrigues, de 22 anos, natural de Aparecida de Goiânia. Casada e mãe de dois filhos, de um e quatro anos, a família era sustentada pelo pai, que trabalhava como vendedor até o início da pandemia. “A gente morava de aluguel, mas, no começo do ano, depois que meu marido perdeu o emprego, as coisas foram apertando. O aluguel é caro e aí você vai colocando remédio, leite, água e energia. Foi aí que a gente descobriu a ocupação e estamos aqui”, resume Débora. A única renda da família vem de bicos que o marido faz como servente de pedreiro. O Auxílio Emergencial que recebeu durante a pandemia acabou em outubro e as solicitações pelo Auxílio Brasil, que substituiu o Bolsa Família, ainda não foram atendidas.No dia a dia vivendo na casa feita de lona esticada com madeiras, Débora diz que as dificuldades incluem calor extremo durante o dia, frio durante a noite, falta de banheiro e os constantes destelhamentos causados por chuvas fortes.“No dia 14 de novembro, veio uma chuva forte, ventando, trovejando, e a vizinha estava de fora da casa dela com a filha segurando a lona, porque disse que se não segurasse a barraca ia cair”, lembra Débora, sobre um dos últimos ocorridos durante tempestades.Medo de despejo é constanteTambém morador da Ocupação Beira da Mata, José Maria, de 62 anos, nasceu em Monte Azul, em Minas Gerais, e foi criado em Goianésia, no interior de Goiás. As experiências profissionais são na roça, trabalhando com plantações. A primeira vinda para Goiânia foi há cerca de 20 anos. Na primeira vez, trouxe a mãe e dois irmãos. Sem sucesso na tentativa de construir uma nova vida, há cerca de 15 anos foi para o interior da Bahia, em uma comunidade chamada Agrovila 13. Diagnosticado com diversos problemas cardíacos, um deles resultando na instalação de uma válvula no coração, foi empurrado de volta a Goiás.“Se eu chegar a passar mal na Agrovila, até chegar uma ambulância, já morri. Lá não tenho hospital para fazer os exames; se quiser continuar vivo, tenho que ficar aqui. Cheguei no começo do ano. Uma parte das minhas coisas estão no fundo de uma igreja que frequento em Goiânia, mas não posso ficar lá”, conta José Maria, que detalha não receber ajudas do local religioso. “É difícil. Não ajudam, não vou mentir”, relata.“Quando eu cheguei na ocupação procurando um lugar para ficar, fiquei no barraco com outra mulher que cedeu o espaço, porque a ocupação já estava cheia. Mas para mim já estava ótimo”, diz o idoso. No dia a dia, ele diz que as crises cardíacas o fazem ficar dentro do barraco de lona por mais de um dia sem que ninguém o veja. “Se eu não precisasse, é claro que não estaria aqui. Eu tenho fé em Deus que vou conseguir. É com dificuldade, mas vai dar certo”, afirma sobre as esperanças.DespejosOs despejos também estão entre os fantasmas dos moradores das áreas de ocupação. A questão, porém, não está entre os principais medos no momento. Por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), os municípios não podem, desde o início deste ano, executar ações de despejos. A decisão que impede desocupações irá vigorar até 28 de fevereiro do próximo ano.Para Adriana Ferreira da Silva, de 35 anos, uma das líderes da ocupação Alto da Boa Vista, em Aparecida de Goiânia, a determinação do STF chegou como uma trégua momentânea. A comunidade em que Adriana vive está ocupada desde 2018 e atualmente conta com 600 famílias, uma das maiores da região metropolitana. “Hoje o dia a dia está normal como em qualquer outro bairro. Claro que ainda vivemos com medo. Existe uma ordem de despejo de janeiro de 2020, mas ela não foi cumprida por conta da pandemia”, relata Adriana.Em comunidades mais recentes como a do Estrela Dalva e a Beira da Mata, mesmo com a determinação do STF, houve tentativas de despejo. Em ambos os casos, agentes de segurança alegaram que os locais não tinham moradores. Na ação mais recente que tentou retirar os moradores do Beira da Mata, em setembro, Débora Rodrigues estava dentro da barraca com os dois filhos.“Chegaram as patrolas. O pessoal estava dormindo. Foram tirando tudo. Foi uma correria para tirar as coisas da barraca. Enquanto eles estavam passando na barraca do lado e avisavam que a sua era a próxima. Eles chegavam e falavam: ‘Se der tempo de tirar as suas coisas da barraca, a gente não vai passar por cima’. Meu sofá foi queimado, fizeram um monte para cada lado e queimaram as coisas da gente”, detalha.Na Ocupação Estrela Dalva, Liliane Costa de Paula, de 35 anos, que é natural de Rumari, no Pará, e vive em Goiânia desde os 5 anos, diz que o temor do despejo a acompanha 24 horas por dia. Mãe de três filhos, a mais velha com deficiência cognitiva, ela mora com o esposo, que trabalha com assistência eletrônica, mas sem carteira assinada. Somando os ganhos da casa, que incluem alguns benefícios do governo, a família vive com um salário mínimo. Antes de ir para a ocupação, pagavam R$ 450 de aluguel, fora as despesas com água e energia.“Todo dia com medo. Um e outro falam que a gente não vai ganhar, que vão tirar a gente daqui. É o medo de voltar para o zero. Medo da frustração, da tristeza”, descreve Laliane. O local em que vive passou por tentativa de despejo em maio, na mesma semana em que as primeiras famílias chegaram. Em reportagem publicada na época, o POPULAR mostrou que, após a repercussão da tentativa de desocupação, o local recebeu o dobro de moradores.Liliane é uma das mais de 40 mil pessoas de Goiânia que estão na lista de espera por moradias populares, sendo que a primeira vez que fez o cadastro foi em 2008. “Já fui até mal recebida por recepcionistas de órgão público, porque de tanto eu ir lá elas falam: ‘Não senhora, não tem necessidade de você estar vindo aqui mais não’ e eu falo: ‘Mas eu preciso de moradia’. Eu vejo tantos lugares falando que ganhou, mas eu nunca ganho, entra ano e sai ano”, reclama.Prefeituras prometem programas de moradiaA resposta de Goiânia às ocupações será, segundo a Diretoria de Habitação, um programa de financiamento de imóveis, que deve custar entre R$ 400 e R$ 450 por mês para quem se interessar por uma moradia. Quem explica a ação é o titular da diretoria, Daniel Antônio da Silva. Segundo o gestor, a Prefeitura não conta com receita para arcar com a entrega de moradias 100% gratuitas e reconhece que o programa de financiamento não deve alcançar a maioria das comunidades que hoje residem em áreas invadidas.O projeto de moradias populares deve começar a ser executado no próximo ano, com previsão de entrega de 5 mil casas por ano. Para famílias com renda de R$ 1,5 a 3 mil por mês, o município, em parceria com o Governo Federal, irá arcar com a entrada do financiamento, com valores de R$ 30 a R$ 35 mil, restando as parcelas mensais para os moradores. “Segundo nosso cadastro social, nós temos pessoas nessas ocupações que têm condições de serem contempladas nesse programa”, diz o diretor.Sobre outros programas, como a possibilidade do pagamento de aluguel social, Silva diz que são questões em discussão. “O ideal é a doação integral da casa. Vamos discutir, isso é uma coisa que precisamos fazer juntos, com vários parceiros”, afirma o diretor.O gestor diz que ações de despejo são “a última opção” da Prefeitura. Silva cita, porém, que, no caso da ocupação do Estrela Dalva, “a questão está judicializada e os líderes estão avisados” de que não podem construir na área. “É uma área da Prefeitura de interesse dessa gestão para a construção de moradias populares. Nós não podemos abrir mão de construir um local para 400 famílias e em troca lotear apenas para 100, 200”, defende, ao afirmar que, por conta da judicialização, ainda não se pode falar em despejo.O vereador por Goiânia Mauro Rubem (PT) diz que acompanha de perto as comunidades das ocupações. Para o político, o crescimento das moradias desse perfil é, de fato, um dos efeitos da crise causada pela pandemia, mas que , “sobretudo, evidencia a falta de políticas habitacionais” da capital e das demais cidades goianas. “Nós estamos tentando convencer a regularização dessas famílias. É a Prefeitura que precisa apontar a saída. Onde eles vão colocar essas pessoas? A Prefeitura tem de responder”, cobra o vereador.AparecidaAparecida de Goiânia diz que tratará da questão em duas vias. Para as áreas ocupadas há mais de três anos, como a Alto da Boa Vista e a Comunidade Norberto Teixeira, a busca será pela regularização. Já para locais ocupados recentemente, como a Beira da Mata, a resposta será com programa de aluguel integral.“Discutimos duas leis sobre moradia, uma delas para criar o programa municipal de moradia. No início do ano, faremos o chamamento para proprietários de imóveis que têm interesse em alugar suas casas para a Prefeitura. Faremos a vistoria e iremos entregar para as famílias que cumprirem requisitos para serem atendidas”, detalha o secretário de Habitação Willian Panda. A expectativa, segundo o representante, é pagar cerca de R$ 1 milhão por ano pelo programa. Não há, segundo Panda, planejamento de ações de desocupação sem que as famílias sejam atendidas.Governo EstadualNa semana passada, o Governo Estadual divulgou a abertura de inscrições para o programa “Pra Ter Onde Morar - Aluguel Social”. A ação, direcionada a famílias em situação de vulnerabilidade social, é gerida pela Agência Goiana de Habitação (Agehab).Pelo programa, será concedido auxílio mensal de R$ 350 para contemplar famílias sem casa própria que se enquadrem em requisitos como “situação de moradia improvisada”. O benefício é oferecido com o limite de 18 meses prorrogáveis pelo mesmo período.Segundo o governo do Estado, a linha de atendimento à população de baixa renda, o Pra Ter Onde Morar é uma iniciativa que visa combater, de maneira imediata, a falta de moradias, por meio de subsídio para locação de imóveis.-Imagem (1.2370456)-Imagem (1.2370452)