Novos trechos de escutas telefônicas realizadas com autorização da Justiça e anexadas ao inquérito da Operação Monte Carlo – que desarticulou a máfia dos caça-níqueis, que seria liderada por Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira – mostram que o empresário articulou com o senador Demóstenes Torres (sem partido) um encontro entre vereadores de Goiânia e seu irmão, o procurador-geral de Justiça, Benedito Torres Neto. Esta é a segunda vez, desde o início das investigações, em que o nome do procurador é citado em conversas entre o senador e Cachoeira. Na primeira vez, Demóstenes apareceu prometendo ingerência no órgão ministerial comandado por seu irmão com o objetivo de atender interesses do empresário. Depois de divulgado o diálogo, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) iniciou procedimento para apurar os fatos. O caso gerou uma das maiores crises do Ministério Público estadual em Goiás, com membros defendendo a exclusão de Demóstenes dos quadros do MP – ele é procurador de Justiça licenciado – e o afastamento temporário de Benedito Torres Neto do comando da instituição. O diálogo entre Demóstenes e Carlinhos Cachoeira acertando o encontro com os vereadores foi gravado pela Polícia Federal em 5 de junho do ano passado (veja quadro). Na conversa, o senador consulta o empresário sobre possível data e hora para agendar um café da manhã com vereadores e seu irmão. Os vereadores seriam, segundo conversas que se seguem entre Carlinhos e Santana Gomes (PSD), Elias Vaz (PSOL), Geovani Antônio (PSDB), além do próprio Santana. O empresário confirma que no dia seguinte, às 8 horas, estaria com eles. “Tá marcado então. Oito horas eu tô aí”, afirma Carlinhos Cachoeira a Demóstenes. Procurador foi Ouvido pelo POPULAR, o vereador Santana se contradisse afirmando, primeiro, que a única vez que teria se encontrado com o procurador Benedito Torres foi na sede do MP. Depois, disse não ter certeza se “em um ou dois cafés” em que esteve na casa do senador Demóstenes o procurador de Justiça também estava. “Não me lembro de dizer ‘bom dia, procurador’”, disse o vereador à reportagem. Mas o próprio procurador-geral de Justiça, Benedito Torres Neto, confirmou ao POPULAR ter atendido convite do irmão senador para café da manhã em seu apartamento. Em nota, o procurador afirmou, entretanto, que “não sabia que haveria vereadores participando do mesmo café da manhã e, se soubesse, provavelmente não teria comparecido ao saber disso ou por não saber o assunto que seria tratado.” E acrescenta: “De lembrança, acredito que estivessem presentes os vereadores Elias Vaz, Santana e outro que não me recordo”. Conforme Benedito Torres, o referido evento “foi rápido, e me recordo que informalmente foi discutido um assunto que vinha sendo noticiado pela mídia, referente às suspeitas de irregularidades em uma área envolvendo uma concessionária de veículos de Goiânia e o município. Me restringi a dizer que este assunto deveria ser tratado no Ministério Público, afinal, era assunto institucional.” Segundo Benedito Torres, o caso foi passado por ele à promotoria de Execução da área de patrimônio para análise. “Naquele dia, ao final do café, chamei a atenção do senador para que não mais aproveitasse um café da manhã para tratar de questões de possível interesse do MP, o que de fato não mais ocorreu. Por fim, quero destacar que, como todo o resto do País, eu também desconhecia possíveis outras intenções ou interesses por parte do senador, mesmo sendo meu irmão. E qualquer outro esclarecimento deve ser feito por ele próprio”, afirmou o procurador em nota enviada à redação do POPULAR. O assunto a que se refere o procurador de Justiça diz respeito a supostas irregularidades envolvendo a venda de uma área aproveitada pelo Grupo Belcar para construção de uma de suas lojas, nas proximidades do Paço Municipal, no Jardim Goiás. Após denúncia feita pelos vereadores Elias Vaz e Geovani Antônio, a Justiça chegou a embargar a construção, medida que foi revertida pela defesa do grupo posteriormente. O objetivo dos parlamentares era conseguir a anulação do contrato de venda da área. O terreno era fruto de uma permuta realizada entre a Prefeitura e uma entidade filantrópica, que posteriormente a vendeu para o grupo empresarial. O vereador Elias Vaz confirmou, também, o encontro, e disse que seu objetivo era solicitar do procurador de Justiça empenho seu em denúncias realizadas por ele no MP. E negou que Carlinhos Cachoeira estivesse presente. O vereador Geovani Antônio disse que “não se recorda” do encontro. A assessoria de imprensa do CNMP informou que o procurador de Justiça Benedito Torres tem até o dia 7 de maio para apresentar sua defesa na reclamação instaurada pela Corregedoria do órgão.-Imagem (Image_1.146393)