As prefeituras de parte dos municípios de Goiás têm contratos com intermediários para furar a fila por atendimentos médicos na rede pública. A denúncia vem à tona um dia após operação da Polícia Civil (PC) revelar que pessoas pagavam até R$ 5 mil para passar à frente em procedimentos. A reportagem do POPULAR apurou que esse tipo de serviço também é negociado por secretarias de saúde, sendo que pelo menos duas tinham contratos formais com um dos presos na operação desta semana.Entre os identificados pela fraude está Ismaclei Junior Tavares, proprietário da empresa Mais Saúde. Segundo a PC, Ismaclei teria sido responsável por 1,9 mil inserções fraudulentas apenas nos últimos seis meses. Inicialmente a divulgação dava conta de que as contratações eram feitas por pessoas de forma direta. No entanto, a própria defesa do homem informou que o mesmo tinha contratos com prefeituras para ser representante da regulação, o que é ilegal e agora está sendo investigado.O esquema com as prefeituras seria a ponte utilizada pelos fraudadores para acessar o sistema de regulação, um mecanismo unificado entre municípios e estado, responsável pelo agendamento e prioridade dos procedimentos. A promessa dessas empresas é a de resolver o problema da fila de espera para os municípios. Para isso, as senhas pertencentes às gestões são compartilhadas e os fraudadores ficam responsáveis pelos cadastros de pacientes no sistema.A PC diz que Ismaclei teria acesso a 15 senhas. O POPULAR levantou que ao menos duas prefeituras de fato têm contratos com a empresa Mais Saúde. Um é de Avelinópolis, firmado em 2021. O outro é de Buriti de Goiás, celebrado neste ano. O contrato de Avelinópolis traz, no objeto de contratação, a previsão de prestação de itens como “apoio administrativo no município, quando em tratamento de saúde junto aos hospitais e clínicas da cidade de Goiânia”.Com o acesso ao sistema, é possível manipular as informações dos pacientes, apontando urgências em casos simples, por exemplo. A operação deflagrada pela PC na quinta-feira (9) investigou uma maioria de procedimentos fraudulentos para realização de cirurgias estéticas, o que inclui modificação em nariz e barriga. No entanto, as fraudes para furar a fila inclui todo tipo de atendimento, desde consultas, passando por exames e outros tipos de cirurgias.Ainda que a empresa contratada pela prefeitura não fraude as informações prestadas no cadastro da regulação, apenas a intermediação do procedimento é irregular, conforme explica o Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás (TCM-GO). “A regulação deve ser feita diretamente pelos entes administrativos, municípios com municípios ou municípios com o estado, não havendo que se falar em intermediação por empresa interposta de modo particular”, diz o Tribunal.A proibição desse tipo de contratação é de conhecimento das gestões. A presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Estado de Goiás (Cosems), Verônica Savatin, diz que a contratação na administração pública só é permitida para “atividades meio” e não como atividade fim. “Tudo aquilo que é de obrigação da gestão, não pode ser delegado a outra pessoa ou empresa. Não se pode ter intermediação em questões de regulação”, diz.O delegado responsável pelas investigações, Danilo Victor, diz que a situação deveria ser atípica diante das proibições já conhecidas. “Esses contratos serão investigados. Mesmo com contratos, o acesso ao sistema da regulação não pode ser fornecido. Isso precisa ser investigado de forma séria e profunda”, afirma.DenúnciaUm secretário municipal de saúde que mantém contato com outras gestões diz, em condição de anonimato, que as contratações desse tipo são comuns há alguns anos. Segundo o gestor, as chamadas “assessorias” oferecem para as prefeituras a solução de “todos os problemas” com a espera por procedimentos na rede pública. Formalmente a maioria dos contratos promete capacitação a servidores municipais. Na prática, o serviço prometido é de acelerar o andamento de consultas, exames e cirurgias.O gestor afirma que após a pandemia de Covid-19, que fez a espera por atendimentos médicos demorar mais que o normal, as empresas estariam fazendo “abordagens agressivas” para vender seus serviços aos municípios. “Prometem a solução de todos os problemas. Os gestores, sob pressão por resultados, acabam optando pelos serviços que são conhecidamente irregulares”, diz ao destacar não haver dúvidas de que é proibido contratar uma empresa para realizar o serviço de regulação.Para o secretário ouvido pela reportagem, a operação Hipócrates foi vista de forma positiva pelos gestores que não fazem a adesão a esse tipo de empresa. “O que nós queremos é que as demais situações venham à tona. A maioria dos casos dessa semana foi de cirurgias estéticas. Se conseguem furar fila para cirurgia estética, como é que estão os procedimentos mais simples?”, questiona ao apontar prejuízos para as comunidades de cidades que obedecem a fila.Outra modalidade revelada pelo gestor é a contratação direta do serviço de fura fila por moradores ou por políticos. “De forma rotineira eu escuto secretários reclamando que do nada um sujeito chega na secretaria atrás de transporte dizendo que conseguiu uma vaga na capital. Como conseguiu? Não tinha feito nenhum pedido. É aí que surgem as denúncias de que políticos estão fazendo essas intermediações”, afirma. Fichas mostram reincidências O POPULAR já havia mostrado que Ismaclei Junior Tavares foi indiciado pela mesma prática em 2014, com um caso comprovado de fraude. Na época, a defesa usou a mesma justificativa apresentada nesta quinta, de que o homem seria um representante da regulação de municípios e que trabalharia para prefeituras. No momento da prisão, o suspeito estava em sua casa com o sistema da regulação aberto e com fichas físicas de pacientes. Além do falso representante da regulação, estão entre os presos o vereador Joubert Tolentino Meira (Cidadania), de São Miguel do Araguaia, e o ex-prefeito de Teresina de Goiás, Odete Teixeira Magalhães. Não foi possível levantar a identidade de outros dois presos, citados no inquérito apenas pelas iniciais WQSN e ALA. Ainda não está detalhado qual a função de cada um no esquema. De acordo com a Polícia Civil, um dos presos já tinha sido demitido dos quadros do estado por corrupção em 2015. De acordo com as investigações, o suspeito, que foi demitido em 2015, teria conseguido assumir um cargo em comissão pela Prefeitura de Goiânia. A informação, porém, não está confirmada. Além do caso envolvendo Ismaclei em 2014, pelo menos outras três fraudes na regulação foram noticiadas desde 2019. Em 2019, Eder Alves da Rocha foi preso em operação da Polícia Civil após investigação concluir que ele comercializava vagas da rede pública havia 15 anos. Em janeiro do ano passado, outro homem, dessa vez um servidor, foi preso em Goiânia suspeito de cobrar R$ 2 mil por vaga no Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG).O HGG aparece na operação desta semana. A Polícia Civil detalhou que a maioria dos procedimentos apurados foram cirurgias estéticas realizadas no local. O hospital diz que está colaborando com a investigação e que encaminhou atendimentos considerados suspeitos para a Polícia Civil.A reportagem tentou, sem sucesso, resposta das prefeituras de Avelinópolis e Buriti de Goiás.