Quase um mês após o início da vigência do decreto estadual que determinou o fechamento dos comércios e estabelecimentos que possam aglomerar pessoas, cidades turísticas de Goiás ainda buscam alternativas para reduzir a circulação de pessoas e frear o avanço do novo coronavírus. Enquanto cidades endurecem regras, como é o caso de Pirenópolis, Niquelândia decide retirar a barreira da entrada da cidade por falta de apoio dos moradores. Em Caldas Novas não há restrição para a entrada, mas quem chega à cidade das águas quentes tem a temperatura medida e os clubes estão fechados.Os técnicos da Secretaria Municipal de Saúde de Caldas Novas estão nas entradas aferindo a temperatura de todos que se dirigem ao município. Secretário de turismo, Ivan Garcia Pires explica que há pessoas que mantêm na cidade uma segunda residência. “Estamos orientando a permanecerem em casa, sem sair.” Ele reforça que os empreendimentos de lazer, como clubes e parques, estão todos fechados. Também há fiscalização da abertura dos comércios.O secretário diz que os servidores que estão nas entradas da cidade fazem questionário com quem chega, para saber se moram ali, o que buscam. Se forem turistas, são orientados sobre os fechamentos das pousadas e hotéis. “A circulação está restrita e temos seguido o decreto para tentar minimizar os impactos de uma contaminação em massa aqui”, diz. Caldas Novas tem um caso confirmado da infecção.Conforme o POPULAR mostrou na edição desta quarta-feira (15), Pirenópolis (128 km de Goiânia), que até agora não tem nenhum registro de infecção pelo SARS-Cov-2, está com diversas ações para impedir a chegada de turistas durante a pandemia. Até mesmo familiares de quem mora ali é considerado turista. A reformulação do decreto municipal, publicado na quarta-feira (15) e que já está valendo, deixa claro que só entra na cidade quem mora ali. Os fiscais do local podem até, por exemplo, solicitar cópias de documentos pessoais e de comprovantes de residência, de registro de imóveis, entre outros.O procurador do município, Décio de Carvalho, disse que a reformulação do texto foi necessária para evitar questionamentos, já que parentes estavam sendo levados para a cidade para passarem a quarentena. Com a mudança, o novo decreto deixou claro que só deve ficar quem realmente mora na cidade. “A medida foi tomada para evitar que tenhamos registros da Covid-19. Queremos estar prontos para voltar a receber turistas quando tudo isso passar. Para isso é preciso que o município tome medidas agora.”AruanãO prefeito de Aruanã (314 km de Goiânia), Hermano de Carvalho (PSDB), não editou decreto próprio para a cidade e diz que está seguindo à risca as recomendações estaduais. Ele afirma que tem se preocupado com o município que tem quase nove mil habitantes. “Somos um município pobre, vivemos basicamente do turismo e nossas restrições não são contra o turista, mas a favor de uma população que não pode ficar doente porque não temos recursos. Espero que o visitante entenda nossas medidas”, diz.Hermano diz que os portos estão fechados e isso impede a chegada de pessoas de fora. “As pessoas vêm para usar o rio e, por isso, tivemos que tomar essa medida. Não suspendemos o acesso, até porque nossa cidade não é caminho para outro lugar, se a pessoa vem, é para ficar aqui. Se ela tem casa, não posso proibir ninguém de entrar, mas estamos impedindo qualquer situação que permita aglomerações.”A procura pelo Salto do Corumbá, em Corumbá de Goiás (113 km de Goiânia) segue grande, apesar do local estar fechado desde março. “Estamos cumprindo o decreto do governador, mas as pessoas ligam, mandam mensagens no WhatsApp e e-mails querendo saber se estamos abertos e quando vamos abrir. Tem gente que chega a vir aqui ou para na estrada quando está de passagem”, relata Cleber Nerys, funcionário do local.Chapada teve maior movimento durante feriadoCavalcante (a 512 km de Goiânia), cidade turística situada na Chapada dos Veadeiros e muito procurada por turistas de todo o Brasil, medidas preventivas visando barrar o novo coronavírus também foram adotadas. “Não podemos impedir a entrada de ninguém, mas montamos uma equipe no início do surto na entrada da cidade que fazia um trabalho de conscientização e também aferiu a temperatura dos visitantes. Alguns nós conseguimos até convencer de voltarem para as suas cidades de origem”, explica o secretário de controle interno da prefeitura de Cavalcante, Agostinho Machado Júnior.De acordo com ele, essa iniciativa fez com que o fluxo de visitantes diminuísse muito na cidade, que ainda não teve nenhum caso confirmado da doença. “Porém, no feriado da Semana Santa vimos esse número aumentar de novo. Acreditamos que muitas pessoas que vem de fora sejam parentes de pessoas que são daqui e vieram passar a quarentena com as famílias”, enfatiza Júnior.Júnior conta que a prefeitura segue fiscalizando. “As pousadas estão praticamente todas fechadas. Uma ou outra que insiste em abrir. Os pontos turísticos como a Cachoeira Santa Bárbara, que ficam dentro do território Kalunga, também estão fechados. Porém, temos muitas cachoeiras em propriedades particulares e não conseguimos controlar tudo”, esclarece o secretário. O POPULAR tentou contato com os prefeitos e secretários (as) de saúde de Alto Paraíso e Alexânia, que são consideradas cidades turísticas, mas as chamadas não foram atendidas.Circulação preocupa moradores de MinaçuEm Minaçu (a 503 km de Goiânia), na Região Norte do Estado, a população não tem seguido à risca as determinações da quarentena. “Tem muita gente que tem familiares que vêm de outras cidades para ficar aqui e acabam causando aglomerações e aumentando o movimento de pessoas”, diz o secretário municipal de Saúde, Walclair Guerra.Segundo ele, apesar da Praia do Sol, um dos principais pontos turísticos, estar fechada, as pessoas têm se juntado nas chácaras e ranchos próximos do Lago Serra da Mesa. “No feriado, mesmo nós vimos que a cidade estava bem cheia de pessoas de fora”, enfatiza.O engenheiro mecânico Vinícius Eudes, de 25 anos, conta que o número de visitantes na cidade realmente aumentou. “Aqui tudo está fechado. Porém, o pessoal que tem parente que mora fora acaba recebendo estas pessoas e elas ficam aqui. Você passa na beirada do lago aqui e está cheio de gente.” Guerra diz que a prefeitura já realizou diversas paradas na entrada da cidade. “Explicamos o que estava acontecendo e como a quarentena deveria ser feita. Entretanto, as pessoas seguem desrespeitando”, ressalta. Segundo ele, apesar de a cidade não ter caso confirmado, este tipo de comportamento abre margem para que o vírus chegue até a população do município. “Se há pessoas vindo de fora, não dá para controlar quem está doente e quem não está.”NiquelândiaEm Niquelândia (306 km de Goiânia), a prefeitura chegou a entrar na Justiça para barrar a entrada de pessoas que não sejam moradoras. Mas depois de uma semana, a gestão municipal decidiu retirar as barreiras na entrada. O motivo foi o desrespeito por parte dos moradores. Secretária de saúde do município, Cida Gomes diz que chegou a deixar equipes o dia todo nas rodovias de acesso para orientar e medir a temperatura de quem chega. Mas ela reclama das estratégias para burlar as regras. A secretária disse que os fiscais chegaram a ver um carro sair da cidade com cinco ocupantes e depois as mesmas pessoas que saíram voltaram cada um em um carro, todos acompanhados de diversas outras pessoas. “Não podemos impedir quem mora aqui de entrar e estas atitudes colocam todo nosso esforço por água abaixo, infelizmente.” Ela lamenta essa postura. “Ainda não temos nenhum caso confirmado, mas várias cidades vizinhas já têm. Então, a partir de agora, nossa medida será realizar apenas o primeiro atendimento no hospital e encaminhar os pacientes para as cidades de origem.” A secretária diz que a cada dez atendidos na unidade, nove são de outros municípios.