A Justiça transformou em réus cinco policiais militares acusados de tentativa de homicídio contra um homem em situação de rua na Praça do Sol, no Setor Oeste, em Goiânia. O crime se deu no dia 9 de dezembro de 2021 e na época causou repercussão porque, mesmo tendo sido atingido por disparos nas pernas, no peito e na barriga enquanto se defendia com dois garfos, o desempregado Divair Nunes da Cruz, de 29 anos, foi tratado inicialmente como criminoso, suspeito de tentar matar um dos policiais que o abordaram.Após intervenção da Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) e a divulgação do caso pela imprensa, as investigações apontaram uma situação diferente da contada pelos agora réus. Primeiro, por volta de 23h25, dois policiais militares em uma viatura atropelaram Divair. Cerca de 20 minutos depois, os mesmos voltaram com mais sete colegas de farda em quatro viaturas ao todo, cercaram o desempregado em um banco no qual ele descansava e após uma discussão três dos agentes efetuaram os disparos.Em janeiro, o juiz Eduardo Pio Mascarenhas da Silva, da 1ª Vara dos Crimes Dolosos contra a Vida e Tribunal de Júri, determinou que a Polícia Civil reabrisse o inquérito após o delegado responsável pelo caso ter indiciado Divair por tentativa de homicídio sem tê-lo ouvido, nem testemunhas, ou mesmo confrontado as contradições nos depoimentos dos policiais. Agentes também não localizaram imagens de câmeras de segurança que foram anexadas ao processo semanas depois pelo Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO).Leia também:- Pais de rapaz morto por policiais penais em Aparecida serão ouvidos pela polícia- Homem acusado de matar ex-namorada na frente da filha em Itaguari se torna réu- PMs acusados de chacina em Cavalcante vão a júri popularDos nove policiais militares envolvidos em toda a ação contra Divair, o promotor Geibson Cândido Martins Rezende denunciou os sargentos Aurélio Pinto Coimbra, de 40 anos, Vinícius Brasil Pereira Pouso Alto, de 38, e Josimar Pereira Tavares, de 36, o cabo Lucas Matheus Teles Cavalin, de 28, e o soldado Wanderson Pereira da Silva, de 38. Aurélio e Wanderson foram denunciados pelo atropelamento, enquanto os outros três, por terem atirado em Divair.PerseguiçãoA Praça do Sol era onde Divair costumava passar as noites mais frequentemente na época em que o crime ocorreu. Ele era conhecido pelos moradores dos prédios próximos como uma pessoa pacífica e tranquila. Na noite do fato, segundo a denúncia, o desempregado deixou o banco em que iria dormir para atravessar a rua 13 urinar em uma árvore e ao voltar para a praça foi atingido pela viatura propositadamente.Segundo a denúncia, Aurélio e Wanderson primeiro pararam a viatura na rua perto de Divair e depois passaram a persegui-lo enquanto ele tentava voltar para a praça. Após o atropelamento, o desempregado voltou para o banco, onde deitou, e os policiais deram ré no veículo, e foram embora, retornando com apoio após 20 minutos. No caminho, a vítima quase foi atingida por outro veículo.“Na tentativa de atravessar a via depressa quase foi atingida por um outro veículo que trafegava pela mesma faixa, e precisou parar no meio da avenida, ocasião em que os denunciados o alcançaram e, de forma proposital, avançaram com o veículo para cima da vítima, que foi atingida e caiu ao solo, tendo a viatura quase passado sobre o seu corpo”, contou o promotor na denúncia apresentada no dia 22.Ao ser atingido por quatro dos oito tiros disparados pelos policiais, Divair passou algumas semanas internado, inclusive na UTI, o que impossibilitou que fosse ouvido pela Justiça e pela Polícia Civil antes de ser considerado suspeito e de as investigações começarem tendo ele como suspeito. Ele chegou a ter a prisão preventiva decretada antes da atuação da DPE-GO.Em sua sentença, o magistrado destacou um trecho da perícia feita no local do crime sugerindo que Divair estaria agachado próximo ao banco quando os tiros foram disparados e não em luta corporal contra um dos policiais. Também é levantada a possibilidade de terem sido dados mais de oito tiros.Os policiais dão uma versão diferente para o caso. Afirmam que foi Divair quem avançou na viatura, quebrando um dos faróis e que, por isso, foi chamado reforço. Dizem também que o desempregado estava com duas facas e que reagiu agressivamente à abordagem, indo para cima de um dos policiais, ferindo-o e derrubando-o em seguida. Os tiros teriam, então, sido disparados em legítima defesa do policial atacado.