O desmatamento do Cerrado em Goiás aumentou 47% no comparativo dos dados de 2019 e 2022. A área perdida que ficou em 668,24 quilômetros quadrados (km²) no primeiro ano verificado passou para 984,79 no último ano. É mais que o tamanho de Goiânia: 728 km². Desde 2015 o País não chegava a este patamar. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). No intervalo verificado, estudos da Universidade Federal de Goiás (UFG) evidenciam que o perfil da derrubada mudou e está mais fragmentado.As análises de pesquisadores da UFG, de maneira subjetiva, apontam como motivo principal para o incremento verificado o afrouxamento na fiscalização e na fragilização das políticas ambientais promovidas pelo governo federal desde 2019. As análises, por outro lado, também indicam que, se de agora em diante, as ações implementadas pelo governo federal com a natureza forem inteligentes, Goiás tem um potencial para ser referência no novo cenário econômico prometido pela nova gestão do País.A série histórica dos dados do Inpe iniciou em 2001. Naquele ano, o desmatamento do Cerrado goiano somou 6.701,81 km². De lá para cá o número foi caindo, sobretudo a partir de 2005, quando chegou a 2.497 km². Nos anos seguintes houve variações a menor e maior, no entanto, em 2011 o valor regrediu ao menor número até aquele ano: 993,32 km². O menor valor no estado na série histórica pertence a 2019 (668,74 km²). Os dados produzidos pelo Inpe têm uma importante participação da UFG por meio do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), que valida os resultados. O ano calculado é de agosto de um ano até julho do outro.A análise dos dados dos últimos quatro anos revela uma tendência de alta. Mas ainda assim, o período 2019-2022 teve média de desmatamento menor que os quatro anos anteriores: 826,7 km²/ano. O ano de 2019 apresentou desmatamento especialmente baixo: 668,74 km², enquanto que o primeiro período experimentou parte dos dados mais elevados da série histórica. De 2015 a 2018 foram 879,9 km²/ano.O professor doutor Laerte Guimarães Ferreira Júnior, pró-reitor de Pós-Graduação da UFG, avalia que entre os principais motivos para o desande nas taxas de desmatamento nos últimos anos está o desmonte das políticas ambientais promovido durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).Leia também:- Invasões no Morro do Mendanha, em Goiânia, atendem a chamado, dizem fiéis- Fazendeiro recebe multa de mais de R$ 300 mil após deixar búfalos soltos em área quilombola- Prefeituras de Goiás recorrem à terceirização do despejo de lixo para resolver fim dos lixõesO reflexo ainda poderá ser percebido no próximo resultado, que vai levar em conta o período de agosto de 2022 a dezembro de 2022. Apesar disto, Ferreira Júnior tem esperança de um número menos prejudicial ao bioma. “Me questiono se o desmatamento de 2022 teve uma motivação política. Será que as pessoas, pensando em uma mudança de governo, não desmataram mais por isto? O fato é que aumentou 25% a perda de vegetação de 2021 para 2022 (veja quadro)”, supõe.O especialista também considera o aspecto econômico-financeiro como muito relevante para a tomada de decisão por quem detém a terra. “A dinâmica deste processo (de desmatamento) tem a ver com o custo de oportunidade do Cerrado em pé. Porque nós não tivemos políticas públicas para a valorização do bioma preservado. A vegetação em pé tem de custar caro, o produtor que a mantém tem de ser remunerado. Enquanto for mais barato desmatar, o cenário será prejudicial ao meio ambiente”, avalia o professor.As pesquisas da UFG indicam que o perfil da derrubada mudou. “A gente viu desmatamento com padrão distinto daquele monitorado historicamente, são áreas menores. Isto, inclusive, isto torna mais difícil você fiscalizar e coibir”, afirma Ferreira Júnior.Futuro passa por descarbonizaçãoUma das maneiras de o campo ser rentável e sustentável é substituir pastagens degradadas por cultivos, conforme Ferreira Júnior. “Goiás tem 14 milhões de hectares de pastagens. Desta área, 4 milhões de hectares têm alta aptidão agrícola, e desta parcela, cerca da metade tem algum indício de degradação.”O professor alimenta também a esperança de que Goiás aproveite a ciência produzida aqui para melhorar a qualidade das pastagens, o que pode aumentar a fixação de CO2 no solo, um dos gases de efeito estufa.A reportagem cruzou dados do Inpe em períodos distintos (veja quadro) e verificou que a comparação entre duas décadas mostra mudança nas regiões mais desmatadas. A porção norte do estado tem os municípios mais afetados. O professor elogia o trabalho feito pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente. A pasta foi procurada para comentar as ações de combate ao desmatamento, assim como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, mas não houve respostas.-Imagem (1.2597665)