Mais de cinco meses após o nascimento, finalmente a bebê Elisa, que veio ao mundo com meio coração, vai para casa. A menina ficou conhecida ainda na barriga da mãe, Gabriella Castro, por uma luta judicial contra o Instituto de Assistência Médica de Senador Canedo (Iamesc). O objetivo era conseguir para mãe e filha, parto e tratamento adequados no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, considerado referência no País para cardiopatias. Agora, depois de duas das três cirurgias mais importantes, ela recebeu alta médica e a próxima intervenção cirúrgica deve ocorrer após o segundo ano de vida. Nesta terça-feira (20), desembarcou no Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia.Pouco antes de embarcar, em São Paulo, Gabriella conversou com O POPULAR. Um choro entalado se misturava ao som dos chamados de embarque e à felicidade que parecia transbordar pela fala da mãe. “A sensação é de alívio, felicidade, gratidão. Foi o dia em que mais sonhei. Antes mesmo dela nascer, meu sonho era levá-la para casa bem. Nem todos os dias são fáceis em ambiente hospitalar. Em alguns dias está tudo certo e em outros muda tudo. Viver em uma UTI é uma montanha russa”, completa.Ao longo dos meses, o marido e a mãe de Gabriella estiveram algumas vezes em São Paulo. Embora na UTI tenha sempre profissionais, ela conta que pelo menos um familiar estava sempre com Elisa. “Na primeira cirurgia ela ficou 37 dias na UTI e na segunda, 24 dias. Ela sempre foi uma bebê estável, sempre ficou bem. Na segunda cirurgia, teve uma complicação no pulmão, mas tudo dentro do esperado para o tamanho da cirurgia. Eu tinha muito medo porque as chances de ela sobreviver em Goiânia eram mínimas porque não tem tratamento”O caso Gabriella é moradora de Senador Canedo, na Região Metropolitana de Goiânia e foi para São Paulo no dia 20 de janeiro de 2021 após uma decisão judicial deferida pelo juiz Thulio Marco Miranda, de Senador Canedo, que obrigou o Iamesc a custear todo o tratamento, estimado em R$ 2 milhões. Depois que ela já estava na capital paulista, entretanto, outras três da desembargadora Elizabeth Maria da Silva, do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO), foram desfavoráveis à gestante, a última delas no dia 2 de fevereiro.Muito perto da data do parto, a mãe não tinha como voltar. Uma nova decisão judicial só saiu na noite do dia 5 de fevereiro, quando o desembargador do TJ-GO, Itamar de Lima suspendeu as três últimas determinações de negativa do custeio das cirurgias. Elisa nasceu no dia 8 de fevereiro e mesmo depois de dar entrada na unidade de saúde, houve atraso no pagamento total do plano de saúde da prefeitura de Senador Canedo ao Hospital da Beneficência Portuguesa. O parto ocorreu no último prazo, no dia em que completava 39 semanas e o medo da mãe era de que ela entrasse em sofrimento fetal.A primeira cirurgia da Elisa aconteceu com apenas três dias de vida, em 11 de fevereiro. O procedimento, chamado Norwood é o primeiro em casos de Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo (SHCE), conhecida como meio coração. Na ocasião, ela chegou a utilizar o aparelho ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea), que cumpre a função do principal órgão do sistema circulatório, mas foi para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) sem precisar da máquina. A menina também passou por outra intervenção cirúrgica, que geralmente ocorre até cinco meses de vida, denominada Glenn. A terceira intervenção deve ser realizada após dois anos da criança.Inicialmente o Iamesc pediu ao Poder Judiciário que as cirurgias fossem realizadas no Hospital da Criança, em Goiânia. Um relatório médico apresentado pelo plano dizia que a unidade de saúde teria três componentes necessários para o procedimento: uma equipe médica especializada, UTI Pediátrica e maternidade e por fim, um aparelho ECMO. Acontece que a unidade de saúde não possui o equipamento. O advogado do plano disse que o mesmo seria alugado. Após cirurgia inédita em Goiás, criança não sobrevive Poucos dias após o nascimento da Elisa, em São Paulo, outro bebê também de Senador Canedo com a mesma cardiopatia, Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo (SHCE), passou por uma cirurgia inédita em Goiânia. Heythor Lucas Sousa foi operado no Hospital da Criança, na capital, em um procedimento gratuito chamado Híbrido, uma espécie de preparação para as demais cirurgias. Sem plano de saúde, o bebê era atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que não oferece as cirurgias de casos mais complexos no Estado. Diferentemente da Elisa, o bebê só foi diagnosticado após o nascimento e tinha baixo peso, o que contraindicava a cirurgia de Norwood. Ele foi operado no dia 17 de fevereiro, em uma parceria entre a unidade de saúde, médicos e hemodinamicistas. Infelizmente, morreu um mês e 11 dias após a primeira cirurgia. Avó de Heythor, Maria Alice da Costa conta que ela e a filha, Thayssa da Costa, de 20 anos, dormiam quando foram comunicadas que o quadro de saúde do bebê havia piorado. “Ligaram por volta de 6h e disseram que ele havia passado mal na madrugada e nos pediram para ir correndo. Antes disso, comunicaram que ele passaria uns dias em observação e voltaria para casa até que fosse agendada a próxima cirurgia”, recorda a avó do menino. Maria Alice conta ainda que a filha Thayssa ainda não consegue dormir direito, chora e sofre bastante. Nesta terça-feira (20), a jovem foi internada em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade em razão de um sangramento que persistiu após o parto. Wilson Silveira, cirurgião cardíaco responsável pelo procedimento do Heythor diz que o menino morreu em decorrência de pneumonia e embolia pulmonar. “No primeiro mês é possível ter complicações. No caso dele, a fonte da embolia provavelmente foi um cateter central. Foi uma pena porque ele estava recuperando muito bem e a morte foi súbita”, completa o médico. Thayssa da Costa foi diagnosticada com depressão e segundo a mãe, aguarda atendimento no Centro de Especialidades de Senador Canedo há pouco mais de dois meses. Ela foi atendida no começo de maio no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do Jardim das Oliveiras, onde pegou o encaminhamento. Procurada, a Secretaria de Saúde da cidade afirmou que uma nova consulta havia sido agendada para 19 de maio, mas que a jovem não teria aparecido. A mãe, Maria Alice, desmente a informação e diz que não foram comunicadas. “Ainda assim a SMS informa que o acompanhamento de Thayssa já está liberado, novamente, no Centro de Especialidades Médicas. A equipe da unidade vai entrar em contato com a paciente para confirmar a consulta”, finaliza, em nota, a pasta. “Estou tão feliz que parece que é comigo”, diz ativistaMartha Camargo é coordenadora da Associação Amigos do Coração, que acolhe famílias de crianças com cardiopatias em Goiás. Há 11 anos ela passou pela mesma situação, de voltar para casa com o filho Yhan, que também possui a síndrome do meio coração. Hoje, com o retorno de Elisa e Gabriella - que se tornou amiga, ela se emociona e comemora. “Acompanhar a volta para casa é uma alegria imensa. Criamos vínculos, viramos uma grande família! São angústias, anseios compartilhados a cada recaída e a cada etapa vencida. Quando se trata de filhos, vivemos sonhos e, no caminho a cardiopatia é um luto desse sonho. O que fazemos é resgatar essa mãe e fazê-la acreditar que existe vida além do diagnóstico. Há 11 anos vivi essa volta pra casa e é indescritível: um Misto de medo e de alegria! Tão feliz que parece que é comigo”, completa Martha. Durante quase seis meses, a coordenadora da Amigos do Coração teve como casa o Hospital da Beneficência Portuguesa e, assim como Gabriella, passou a maior parte do tempo sem suporte presencial da família. Emocionada, fala dos domingos que ficava sozinha no quarto e ouvia as visitas pelo corredor do hospital. “São 6 meses em que tudo para. Não há tempo cronológico, não existe agenda, o único sonho é a volta pra casa! Você imagina a roupa que vai usar e as pessoas que vai reencontrar. Só quem vive dentro de um hospital pode entender. A angústia de ficar longe de casa e conviver diariamente com mães indo para casa com os filhos nos braços e outras que não conseguiram vencer! Por isso a gente tenta tanto trazer tratamento para cá. Não é justo enfrentar isso tudo longe de casa, da família, das pessoas queridas”, finaliza.