A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) divulgou nesta segunda-feira (23) uma nota em que reforça a inexistência de publicações científicas que comprovem a segurança e a efetividade da polilaminina em lesão medular em seres humanos. Segundo a entidade, que representa mais de 5 mil neurologistas no País, todos os novos tratamentos devem seguir um protocolo rigoroso de estudos que progride de fase 1 a 3 antes de ser aprovado para prescrição médica. “A ABN recomenda que o uso de novas terapias deva ser realizado apenas em contexto de protocolos de ensaio clínico com rigor científico e aprovados por comitês de ética, conforme legislação brasileira”, diz a nota. Também nesta segunda, a Sociedade Brasileira de Neurologia publicou comunicado lembrando que as lesões medulares representam uma condição de saúde complexa, cujo manejo exige abordagem multidisciplinar baseadas em protocolos bem estabelecidos e evidências científicas. “Embora a pesquisa nessa área seja intensa e promissora, a aplicação de novos protocolos requer comprovação de evidência científica robusta, especialmente quanto à segurança, eficácia e indicação”, diz um trecho da nota.As manifestações das entidades de neurologia se somam a um editorial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC) que alerta para o risco de se confundir pesquisa experimental com aplicação clínica e defende que os questionamentos sobre evidências da substância ocorram com revisão por pares e transparência, evitando judicialização ou exposição midiática prematura.A substância está em fase de testes de segurança na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas, nos últimos meses, ganhou destaque na imprensa e nas redes sociais. Relatos isolados passaram a ser tratados como evidência de eficácia e dezenas de pessoas estão recorrendo à Justiça para receber a aplicação da substância. Foi o caso do paciente goiano que recebeu a polilaminina em janeiro deste ano, em um procedimento realizado no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) – relato publicado na edição deste fim de semana (21 e 22) do POPULAR.Aplicações como essa não fazem parte do ensaio clínico formal. Os pacientes recebem a substância, mas não são acompanhados dentro de um protocolo estruturado de pesquisa. Os casos ganharam escala após a divulgação, no ano passado, de um estudo preliminar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderado pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, com oito pacientes.De acordo com o estudo, dos oito pacientes que receberam, seis evoluíram – ou seja, apresentaram alguma recuperação dos movimentos. Ocorre que os resultados ainda não passaram por um processo chamado de revisão por pares, em que especialistas independentes analisam a metodologia, os dados e as conclusões, o que é fundamental para validar achados na ciência.Segundo especialistas, há evidências de que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem o uso da polilaminina, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual. Caso seja demonstrado que o uso da substância é seguro (fase 1 do estudo), vai ser preciso ampliar os testes nas fases 2 e 3, em que são avaliadas eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores. Se todas essas fases tiverem sucesso, será possível pedir o registro sanitário e, após a aprovação, o medicamento ser comercializado.