Estudo da UFG indica ganho ambiental e econômico em recuperar pastagens no Cerrado
Revigorar pasto degradado resulta em aumento do estoque de carbono no solo e incremento da produção agropecuária. Áreas estão mapeadas
Deivid Souza

Experimento: pesquisadora Nathália Teles faz análise laboratorial de material coletado em campo (Fábio Lima)
Um estudo desenvolvido por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) estima ser possível, no período de 2025 a 2030, aumentar o estoque de carbono (C) no solo do Cerrado em 70 milhões de toneladas. A medida a ser viabilizada por meio da recuperação de pastagens degradadas tem o potencial de proporcionar ganhos ambientais e econômicos. Os resultados das pesquisas também permitem otimizar o uso das áreas já abertas no bioma, segundo os especialistas.
O trabalho é realizado no Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) e mapeou todas as áreas de pastagens do Cerrado. Além de identificar estes espaços, os mesmos foram separados em três classificações: ausência de degradação, degradação intermediária e degradação severa.
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Conforme a pesquisa da UFG, o Cerrado tem 49,4 milhões de hectares (Mha) de pastagens. Deste total, 32,8 Mha têm algum grau de degradação. A maior parcela (21,47 Mha) é classificada como intermediária e os 11,1 Mha restantes como severa ( veja quadro ).
"A gente tem condição de identificar qual o estado atual da pastagem, o volume atual de estoque de carbono e conseguimos também apurar qual o potencial de ganho em termo de carbono e de capacidade produtiva destas áreas", explica o doutor em Ciências Ambientais pela UFG e pesquisador do Lapig, Claudinei Santos. Além de outros pesquisadores, no trabalho está envolvido o pró-reitor de Pós-Graduação da UFG, Laerte Guimarães Ferreira Júnior.
Para chegar aos estoques de carbono estimados e aos possíveis incrementos com a recuperação de pastagens, os pesquisadores analisaram as condições atuais. Foram empregadas ferramentas tecnológicas, amostras físicas de solo e de matéria orgânica, além da observação em campo.
As pastagens degradadas representam redução no estoque de carbono, perda de fertilidade no solo, baixa produtividade na pecuária e, consequentemente, menos retorno econômico. Uma área com pasto produtivo pode receber até dois animais bovinos por hectare, enquanto que para uma com condição inversa é menos da metade disto.
Além da oportunidade de ganho perdida, a situação adversa significa que o animal pode levar mais tempo para chegar ao ponto de abate. Enquanto isto, ele continua emitindo outros gases de efeito estufa (GEE), como o metano, por exemplo, por um período maior.
Coordenador da Área Ambiental da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Nelson Ananias afirma que a agricultura brasileira já experimenta um ganho de eficiência. Ele enfatiza as vantagens para a natureza. "Quando se reduz o tempo de abate, e a pecuária é o grande emissor de metano, você está liberando menos deste gás para produzir a mesma quantidade de carne."
Preço
A recuperação de pastagem tem custos. O processo pode envolver adubação, roçagem e calagem (correção da acidez do solo). Além disto, em alguns casos, há a necessidade de substituição da espécie de capim. Isto pode ser feito diretamente ou por meio de um cultivar intermediário, utilizado antes do tipo final a ser plantado.
A recuperação de cada hectare no modo usual, segundo a pesquisa, fica em R$ 1.890,06 no Cerrado, mas se aplicada alta tecnologia, o valor pode chegar a R$ 2.982,18. Há a expectativa, por parte de entidades representativas do setor produtivo que, no futuro, a fixação do carbono no solo retorne financeiramente.
"O desafio é criar metodologias reconhecidas, baseadas na ciência, entendendo se tratar de uma pecuária bem manejada, e que no balanço, se sequestra carbono. Depois, que isto seja reportado em um monitoramento", explica Ananias sobre alguns passos para a monetização dos benefícios ambientais apurados.
Semad
Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) afirmou que realizou tratativas com o então Ministério do Meio Ambiente em 2022 com o intuito de reduzir emissões por desmatamento e degradação florestal. A secretaria acrescentou que além disto, está em elaboração a estruturação de um programa de neutralização de emissões e "criação do mercado de carbono no Estado, que terá como objetivo fomentar a preservação ambiental como estratégia rentável".
Trabalho feito no Lapig iniciou em 2015
Os resultados agora alcançados são fruto de um trabalho iniciado em 2015. Os pesquisadores avaliam as imagens de satélite e outros dados disponíveis no período de 1985 a 2022.
A identificação das áreas de pastagem no Cerrado utiliza um algoritmo preparado pelos pesquisadores para conseguir separar o que é vegetação nativa das áreas destinadas à alimentação do gado. O Lapig detém expertise neste campo do conhecimento e um parceiro da organização MapBiomas. A instituição que monitora o uso da terra no País. O laboratório também é responsável por atestar a qualidade dos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de monitoramento do desmatamento no bioma.
Ao longo dos anos foram desenvolvidas técnicas para saber a condição das áreas de pastagem do Cerrado. "Basicamente, o trabalho envolve computação em nuvem, big data e algoritmos de aprendizagem de máquina. Então, a gente usa esta tecnologia de ponta para realizar as atividades", detalha o mestre em Ciências Ambientais pela UFG e coordenador técnico de pastagens do Lapig, Vinicius Vieira Mesquita.
Com a identificação do que é área de pastoreio e a qualidade delas, os pesquisadores partiram para a realização da estimativa de carbono no Cerrado. Nesta fase do trabalho são agregadas informações de análises de amostras físicas do solo e de pasto. As primeiras delas foram obtidas por meio de parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Para a análise do solo é considerada a camada superficial de 20 centímetros. O padrão é o mesmo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A profundidade interfere diretamente nos cálculos do acúmulo de carbono, pois há o elemento químico ao longo das raízes da vegetação.
Devido ao número inicial mais restrito de amostras, as informações obtidas foram utilizadas dentro de um contexto estatístico de modo a representar com a maior precisão possível a totalidade da área pesquisada. Os resultados primários encontrados foram submetidos a uma validação para que fosse possível atestar a qualidade das informações encontradas.
Atualmente, o banco de dados utilizado tem recebido amostras de campo da vegetação forrageira e do solo. "As análises de forragem são todas feitas dentro do Laboratório de Nutrição Animal (Lana), onde a gente tem alguns alunos que são capacitados para realizar esta atividade. Nós fazemos a avaliação de matéria seca, proteína bruta e fibra na pastagem. Esses dados de campo vão servir também para alimentar nossos modelos", explica a pesquisadora e mestra em Zootecnia pela UFG, Nathalia Teles.
Futuro
Os dados de estoques de carbono foram submetidos, de acordo com a classificação da respectiva área de pastoreio, a dois cenários. Foi utilizado o Century, que é o modelo baseado em processos. No primeiro deles, é considerado que será mantido o manejo convencional no intervalo de 2025 a 2030. O resultado é a emissão de carbono para a atmosfera e piora na produtividade.
Caso sejam implementadas técnicas de recuperação de pastagens, os resultados estimados são de aumento da captura de carbono para o solo e incremento da produtividade (veja quadro). O doutor em Ciências Ambientais Claudinei Santos afirma que o conhecimento produzido pelo trabalho pode não implicar necessariamente na recuperação de toda a pastagem, sendo parte dela destinada para a agricultura. Isto, diz ele, valoriza estes espaços e ajuda a evitar o desmatamento por meio da abertura de novas áreas. "O que a gente busca com estas análises é pensar o uso destas áreas de uma forma mais eficiente", resume.
Goiás emitiu 92,9 milhões de toneladas de CO2 em 2021
Em 2021, Goiás emitiu 92,9 milhões de toneladas equivalentes de CO2 (Mt CO2eq). Deste total, 60,87 milhões de toneladas de CO2eq (66%) partiram da agropecuária, conforme dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg).
Desde 1996 o estado não atingia um número tão alto nas emissões de GEE. Nos dois anos anteriores foram 85 milhões de toneladas de CO2eq.
Ao longo da série histórica do Seeg, a agropecuária aparece como o setor de maior volume. Em 2021, em segundo lugar ficou mudança de uso da terra e florestas. Na vêm energia, resíduos e processos industriais.
Em dezembro de 2020, o Brasil apresentou um novo compromisso para o Acordo de Paris, ou seja, uma nova NDC, mas que manteve o mesmo porcentual de redução de emissões de GEE de 43% até 2030. Agora essa meta não seria mais meramente "indicativa", como havia sido para a anterior.
Nos últimos anos, o desmatamento, principal fonte de emissão de GEE no País, aumentou. Há compromissos públicos da nova gestão federal em reverter este cenário. Ao mesmo tempo, o Brasil busca diplomaticamente recursos para fazer da intenção uma realidade. O País também carece de debater e regulamentar regras para o mercado de carbono, uma das iniciativas que podem se converter em recurso financeiro para quem reduz a liberação de GEE.
O Cerrado é o segundo maior bioma na América do Sul, ocupando aproximadamente 2 milhões de km², uma área equivalente a mais de duas vezes o tamanho do estado do Mato Grosso. Aproximadamente 35% das áreas de pastagem no Brasil estão no bioma. No País, cerca de três quartos das áreas cultivadas são pastos.
Parte dos resultados das pesquisas foi publicada em um artigo científico em dezembro do ano passado. Agora, um paper científico - espécie documento técnico com resultados reunidos - foi encaminhado para uma revista. A expectativa dos pesquisadores é que o mesmo seja revisado e validado por especialistas e, em seguida, publicado dentro de até três meses.

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Integração de lavoura com cultivo pode potencializar resultados
O trabalho realizado pelo grupo de pesquisadores do laboratório da UFG prevê que além dos ganhos estimados de carbono para o solo com a recuperação de pastagens, o resultado possa ser incrementado com a aplicação de técnicas de integração lavoura pecuária (ILP). Neste caso, a cultura sugerida seria a soja.
Isto ocorre porque parte da área de pastagem degrada possui alta aptidão para este cultivo. O aproveitamento vem sendo defendido pelo professor Laerte Guimarães como uma oportunidade de negócio para o estado.
Ainda que a recuperação de pastagens seja realizada sem uso das técnicas de ILP, a intervenção tem dois caminhos indicados: a recuperação propriamente dita e a renovação.
No caso da recuperação, ela pode ser feita de maneira direta. Isto significa que a espécie forrageira é mantida. No outro caso, pode haver um cultivo intermediário, ou seja, uma espécie que ficará no solo por um tempo até que a definitiva seja implementada. A recuperação inclui adubação, roçagem e calagem do solo.
Já a renovação substitui a espécie forrageira. O trabalho científico exemplifica as espécies: panicum, andropogon e a brachiaria.
O Lapig tem sido procurado por instituições públicas e privadas interessados em conhecer os resultados desta e de outras pesquisas. "A cada ano a gente vem aprimorando mais estas técnicas de detecção de pastagens", explica o mestre em Ciências Ambientais pela UFG, Vinicius Vieira Mesquita.

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