*Atualizada em 11/10 às 17h55Goiânia experimenta neste ano a quinta crise com o serviço de coleta de resíduos. Desde fevereiro há episódios de irregularidades na retirada do lixo e dos materiais recicláveis. O último problema, ainda vigente, teve início na quarta-feira (5) e impossibilita o trabalho de cooperativas que tratam do que é possível reaproveitar na capital.A questão atual tem origem no atraso no pagamento da empresa que fornece caminhões para a Companhia Municipal de Urbanização de Goiânia (Comurg).Além da retirada dos recicláveis, os ecopontos foram afetados. Eles são unidades que possuem caçambas distintas para cada um dos tipos de resíduos que podem ser recebidos, tais como entulho, pneus, óleo de cozinha usado e poda de árvore.Existem quatro ecopontos na capital. Elas estão nos bairros, setor Faiçalville, Jardim São José, Residencial Campos Dourados e Jardim Guanabara.Ao menos o ecoponto situado no Jardim Guanabara está fechado. A reportagem ligou para o telefone geral da Comurg e foi informada que, por haver excesso de material lá, não havia condições de receber mais resíduos. O POPULAR esteve na unidade do setor Faiçalville e verificou que todas as caçambas estavam lotadas. O recolhimento no local também é feito pela ITA.Desta vez, os 16 caminhões dedicados à coleta seletiva estão parados. Eles são fornecidos pela ITA Empresa de Transportes LTDA e deixaram de circular, conforme a organização privada, desde quinta-feira (6), embora as cooperativas afirmem que foi na quarta.O motivo para a interrupção no serviço é a falta de pagamento por parte da empresa pública municipal. O débito apontado em um conjunto de serviços ultrapassa os R$ 27 milhões. Do total, R$ 9,67 milhões correspondem às faturas relativas aos meses de maio, junho, julho e agosto deste ano já incluídos R$ 368 mil de juros já previstos no contrato.A Comurg foi comunicada oficialmente pela ITA da suspensão no serviço dos caminhões na quinta-feira (6), por meio de um ofício. No documento enviado pela ITA à Comurg é apontado que o débito de R$ 27,54 milhões é composto, além dos R$ 9,67 milhões, por R$ 5,27 milhões de uma repactuação de mão de obra e R$ 12,60 milhões de serviço de mão de obra extra.HistóricoNeste ano houve outros quatro episódios de problemas com os serviços de coleta. Em fevereiro, a retirada de resíduos domiciliares foi interrompida. Na época o motivo do problema era o fornecimento de combustíveis. A empresa responsável pelo produto afirmou haver débitos em aberto e suspendeu os créditos nos cartões de abastecimento.O transtorno durou ao menos uma semana. Moradores de bairros das regiões Sudoeste, Oeste, Leste e Sul apontaram que os caminhões não faziam o serviço com regularidade.Em meados de agosto, a falha ocorreu na coleta dos materiais recicláveis. Moradores dos setores Bueno e Jaó reclamavam que havia duas semanas que os caminhões não passavam para levar o que foi separado para reaproveitamento. A Comurg não deu explicações, mas disse que o serviço seria regularizado.Ainda no oitavo mês do ano, houve outra crise. Ela foi semelhante à de fevereiro, pois envolvia os resíduos domiciliares. Àquela altura, a ITA suspendeu a circulação dos caminhões que fornece à gestão municipal. O motivo foi atraso no pagamento de faturas.Leia também:- Coleta seletiva fica prejudicada em Goiânia após Comurg atrasar pagamento milionário- Serviço de coleta de lixo continua irregular em Goiânia- Falta de pagamento e de diesel causaram crise na coleta de lixo, em GoiâniaA situação foi prolongada porque, mesmo com os veículos voltando às ruas, houve um desarranjo no fornecimento de combustíveis.No mês passado, as queixas voltaram a se repetir. Moradores de bairros da região Oeste, Centro e Norte de Goiânia apontaram atraso no recolhimento de resíduos orgânicos, recicláveis e verde. A Comurg admitiu haver problemas e afirmou que eles estavam relacionados à “aquisição de peças para reposição para a manutenção dos equipamentos destinados à coleta”.Embora o acúmulo de lixo tenha diminuído, há bairros na capital onde o serviço era realizado até três vezes na semana, mas que só têm recebido a passagem do caminhão da Comurg a cada sete dias.RespostaÀ reportagem, a Comurg reconheceu apenas os débitos de R$ 9,54 milhões do serviço de coleta seletiva. Sobre o total de R$ 27 milhões, a companhia disse não estar correto e argumentou que “existem diferenças de horas extras discutidas judicialmente e administrativamente”.O POPULAR também questionou a companhia sobre o motivo dos atrasos no pagamento, mas não houve resposta para este ponto. “A Comurg trabalha para solução definitiva do problema para ainda esta semana”, encerra a nota.Paralisação afeta renda de cooperativasAs cooperativas que recebem o material do serviço de coleta seletiva em Goiânia estão fechadas. Integrantes das organizações fizeram, na manhã desta segunda-feira (10), uma manifestação na porta da Comurg. Eles pedem a regularização do serviço para que possam continuar trabalhando.Com custos fixos de aluguel, vigilância, maquinário parado, água e energia, os quase sete dias sem receber recicláveis preocupa os trabalhadores. Os materiais que estavam entregues foram todos processados nas organizações ouvidas pelo POPULAR e, os cooperados, dispensados temporariamente.Membro da Cooprec, no Jardim Conquista, Lídia Gomes Rosa afirma que atrasos na entrega de material são recorrentes, mas que desta vez o prejuízo foi maior. “O prejuízo não é pequeno. É muito grande, porque interfere na nossa renda e atrasa as contas da cooperativa”, reclama. Além de Lídia, há outras 26 pessoas que dependem dos materiais para conseguir renda no local.A queixa de Lídia se assemelha à de Decio José dos Santos, da cooperativa Carrinho de Ouro, no setor Jardim Fortaleza. “Nosso material acabou e paralisamos na sexta-feira os trabalhos. O prejuízo é grande, uns R$ 5 mil a R$ 6 mil”, relata o presidente da organização, que é integrada por 15 pessoas.O POPULAR apurou que a renda média de um trabalhador da cooperativa fica em torno de R$ 1.212, o equivalente a um salário mínimo. O prejuízo de uma semana parada pode representar aproximadamente 25% do ordenado.Considerando que em 2021 foram recolhidas 36.050 toneladas dentro do programa Coleta Seletiva na capital, em seis dias, teriam ficado sem a retirada mais de 500 toneladas de material reciclável.As cooperativas sofreram com a escassez de material e a paralisação durante as pandemia da Covid-19. O site do programa de coleta seletiva lista 13 cooperativas em Goiânia, no entanto, uma delas foi desativada, conforme informou o ex-presidente da organização.Atualmente, apenas 5,5% dos resíduos da capital são separados para reciclagem. *Diferente do que foi publicado inicialmente, os R$ 9,67 milhões incluem um grupo de serviços prestados pela ITA e não apenas a coleta seletiva.