Jovem que filmou a própria morte era agredida havia um ano e tinha fotos cheia de hematomas
Ielly foi atingida por disparo feito pelo namorado, concluiu Polícia Civil. Delegado apresentou inquérito e afirmou que crime é exemplo do ciclo da violência
Malu Longo

Ielly Gabriele Alves com vários hematomas causados pelo namorado (Divulgação / Polícia Civil)
A jovem Ielly Gabriele Alves, de 23 anos, morta por um disparo feito pelo namorado, em Jataí, era agredida havia pelo menos um ano. Imagens fornecidas pelas amigas da vítima comprovam a violência. São fotos que mostram hematomas no corpo da moça.
Ielly nunca o denunciou formalmente, mas as investigações mostraram que ficou registrada na polícia uma denúncia anônima que partiu de um vizinho, dando conta das agressões.
Na entrevista coletiva que concedeu à imprensa na manhã desta sexta-feira (10) para falar da conclusão do inquérito do caso, o titular do Grupo Especial de Investigações Criminais (Geic), de Jataí, no Sudoeste de Goiás, Thiago Saad enfatizou: "Esse crime é o retrato do ciclo da violência doméstica. Em 99% dos casos, o último ato é o feminicídio." O autor, Diego Fonseca Borges, de 27 anos, já cumpria medidas protetivas a favor da ex-companheira de quem tinha se separado havia dois anos.
O crime chocou o País porque a própria vítima filmou o disparo que a matou. Ielly morreu na noite do sábado (4) após voltar de um rancho do tio do ex-namorado, na zona rural de Jataí. Ele a convidou para fazer alguns disparos com a arma que tinha adquirido recentemente. Na propriedade rural, ambos exercitaram a mira. No retorno, porém, já à noite, ele parou o veículo com a desculpa de que precisava urinar e aproveitou para fazer mais três disparos, foi nesse momento que Ielly, sentada no banco do motorista, fez o vídeo que invadiu as redes sociais. Depois de atirar para o alto, Diego mirou na ex-namorada e disparou.
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"Para mim ficou claro que ele é hábil na manipulação das vítimas", comentou o delegado Thiago Saad ao POPULAR . Ele confessou que ficou muito impressionado ao ouvir o depoimento da ex-companheira de Diego que tentou defendê-lo, dizendo que ele era uma pessoa tranquila, mesmo tendo uma medida protetiva concedida judicialmente. "Há pouco tempo ligaram para ela perguntando se a medida deveria ser revogada, mas ela pediu para mantê-la", revelou o delegado.
O inquérito foi concluído em cinco dias após o fato e Diego indiciado por feminicídio, podendo ser condenado de 12 a 30 anos de prisão. Para o delegado Thiago Saad, após ouvir vários depoimentos, de familiares, amigas e vizinhos e analisar laudos periciais, ficou claro que Ielly foi assassinada após uma série de agressões que começaram em outubro do ano passado.
Dono de uma borracharia, Diego mantinha Ielly ao seu lado na empresa. Durante o relacionamento, que durou 1 ano e 7 meses, eles moraram juntos. Com as discussões frequentes, chegaram a se separar durante um ou dois dias. Por mensagens, Ielly contou a uma amiga que o companheiro tinha comprado uma arma, dois carregadores e um silenciador. E comunicou: "Isso aqui é pra você." A amiga previu o que estava por vir e pediu que ela tomasse cuidado, antes de exclamar: "Misericórdia!". Ielly ainda permaneceu ao lado de Diego até que veio o último rompimento que durou dez dias.
No sábado (4), inconformado, Diego foi à casa da ex-namorada, mas apenas a tia estava na residência. Ele aguardou o retorno de Ielly e almoçou com ela e a tia. "Ielly chegou a comentar à mesa que ele tinha comprado uma arma e ele respondeu: 'você está sabendo demais'", disse o delegado. Após a refeição, o borracheiro convenceu a ex-companheira a seguir com ele para o rancho do tio. Para o titular do Geic, houve premeditação. Após o disparo em Ielly, que atingiu o braço esquerdo e o tórax, Diego a levou para o hospital e contou uma história fantasiosa.
Até o final de setembro, 49 mulheres foram vítimas de feminicídio em Goiás
O que mais chamou a atenção no episódio, cujo disparo foi filmado pela vítima, foi o tratamento carinhoso com que ela se referiu a ele antes de morrer. "Vai amor, faz". O delegado Thiago Saad lembrou que Ielly, como a maioria das vítimas de violência doméstica, viveu o ciclo que quase sempre culmina em assassinato. "Primeiro ela viveu a tensão, depois a agressão e, por fim, a lua de mel. Ela estava num momento tranquilo, achando que estava tudo bem, mas para ele não estava."
Este é exatamente o ciclo divulgado pelo Instituto Maria da Penha, criado em 2009 e está diretamente vinculado à história da cearense que se tornou um símbolo na luta contra a violência doméstica. "Há um período relativamente calmo, em que a mulher se sente feliz por constatar os esforços e as mudanças de atitude, lembrando também os momentos bons que tiveram juntos. Como há a demonstração de remorso, ela se sente responsável por ele, o que estreita a relação de dependência entre vítima e agressor. Um misto de medo, confusão, culpa e ilusão fazem parte dos sentimentos da mulher", alerta o instituto sobre a fase da "lua de mel".
O Laboratório de Estudos de Feminicídio (Lesfem) aponta que, em 2023, até 30 de setembro, 1.592 mulheres foram vítimas fatais de violência doméstica, 49 delas em Goiás. Para o Lesfem, muitas das tentativas não são notificadas. Segundo Thiago Saad, este foi o primeiro feminicídio em Jataí este ano. Para denunciar casos de mulheres em situação de violência, o número é 180, da Central de Atendimento à Mulher.
Autor contou uma história fantasiosa
Chamada pela equipe da unidade de saúde que tinha acabado de receber uma vítima de arma de fogo, uma equipe da Polícia Militar ouviu de Diego Fonseca Borges que dois homens, em uma motocicleta, tinham emparelhado o veículo com o carro e um deles disparado, atingindo Ielly. Ao analisar a dinâmica do fato, ficou claro que a história não era convincente. E ainda no hospital, a tia da jovem entregou o telefone celular de Ielly à polícia. Com o aparelho desbloqueado, ficou fácil descobrir a mentira. "Quando viu as cenas, ele confessou", contou o delegado Thiago Saad.
Mesmo assim, Diego sustentou a versão que seu advogado Paulo Henrique Matos de Freitas tem mantido. "Ele não tinha noção de que havia munição na arma. Foi um disparo acidental", afirmou a jornalistas. Para os investigadores, o borracheiro, antes de mirar na ex-namorada, "não tomou nenhum cuidado, nenhum golpe de segurança na arma", reforçou o delegado. Thiago Saad explicou ainda que a arma que matou Ielly não foi localizada pela polícia. "Ele disse apenas que a dispensou", afirmou o titular da GEIC de Jataí.
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