Mais de oito anos após a primeira fase da Operação Sexto Mandamento, que investigou um suposto grupo de extermínio dentro da Polícia Militar de Goiás, quase todos os processos julgados terminaram com a absolvição dos acusados. Dos 15 principais processos contra os PMs envolvendo crimes contra a vida, oito terminaram com absolvição, arquivamento ou prescrição, seis ainda estão tramitando e um teve condenação.O último processo que tramitava na capital foi finalizado no última dia 11 com um júri popular que inocentou quatro policiais denunciados pelo homicídio de Murilo Alves de Macedo, de 26 anos, no dia 27 de agosto de 2010. A acusação era de execução e a defesa falava em confronto. Durante o julgamento, as testemunhas foram dispensadas pelos promotores e apenas os réus foram ouvidos. Os próprios promotores pediram a absolvição.No geral, nas absolvições foi alegado falta de prova ou de definição da autoria. Entre elas estão um caso de grande repercussão, que é o assassinato da comerciante Martha Cozac, de 44 anos, e seu sobrinho Henrique Talone, de 10 anos, que ficou inconclusivo (veja quadro).Todos os seis processos que ainda estão tramitando são de comarcas do interior. Dentre eles, cinco fizeram parte de uma determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2014, para que fossem priorizados.Estão entre esses cinco, dois casos em que há um número alto de vítimas em uma mesma ocorrência. No dia 10 de outubro de 2003, cinco presos foragidos da cadeia pública de Rio Verde foram mortos durante ação de policiais militares. A ação foi comandada pelo então capitão, e atual coronel da PM Ricardo Rocha.A ocorrência aconteceu dentro de uma reserva natural e os cinco baleados foram levados para o hospital pelos próprios PMs, mas todos chegaram lá já sem vida. Esse tipo de ação impediu a realização da perícia no local de crime. Na época não eram comuns ocorrências com essa quantidade de mortos. Para se ter uma noção, 36 pessoas morreram em ações policiais durante todo aquele ano em Goiânia.Os 17 réus desse processo de Rio Verde chegaram a ser absolvidos em 2012, mas o Ministério Público recorreu e a ação continua. O outro processo com cinco mortos foi em Cachoeira Alta, em 2006.Um outro processo não concluído que chama atenção é um triplo homicídio em Aragoiânia, na região metropolitana de Goiânia, em 2009, que está no fórum de Guapó. Dos três réus do processo, dois já morreram. O pistoleiro José Rodrigues da Silva, conhecido como Zézinho Matador, foi assassinado em 2012. Já o sargento Geson Marques Ferreira, foi vítima de um latrocínio em 2016.A reportagem entrou em contato com o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO) e questionou o andamento desses cinco processos que deveriam ser priorizados, segundo determinação do STJ.Por nota, o TJ-GO informou que dentre esses cinco processo há casos aguardando júri, em segundo grau e que foram devolvidos para o juiz de origem, mas garantiu que estão com o andamento normal. “Cada processo tem seu rito e alguns com variantes como ausência de testemunhas ou sua intimação por carta precatória”, diz trecho da nota.A reportagem usou como referência dos principais processos da Operação uma nota de rodapé de um ofício do Ministério Público de Goiás (MP-GO) de 2013, que apontava as ações penais apresentadas para o Poder Judiciário de policiais que integravam o grupo atingido pela investigação da Sexto Mandamento. Esse ofício foi uma resposta ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) no contexto do Incidente de Deslocamento de Competência (IDC-3), que federalizou três inquéritos de crimes em que os suspeitos são policiais, em 2014.Juízes assinam coletivamente para se protegerUm mesmo despacho do Tribunal de Justiça de Goiás de um processo da Sexto Mandamento, de abril deste ano, é assinado por três juízes diferentes. A ação é uma medida prevista em lei desde 2012 para a investigação de organizações criminosas em que o magistrado está com a integridade física em risco.No caso, o processo é do homicídio de Higino Carlos Pereira de Jesus, que aconteceu em Alvorada do Norte no dia 24 de fevereiro de 2010. Todos os sete réus são policiais militares. No despacho, os juízes falam da demora para os advogados dos PMs em apresentar as alegações finais.A morte de Higino é relacionada pelos investigadores com o desaparecimento de dois parentes da vítima, dois dias depois do seu assassinato. Enquanto o homicídio está na Justiça de Goiás, os desaparecimentos estão em âmbito federal e foram o foco da segunda fase da Operação Sexto Mandamento. Único condenado foi morto por irmão de PMO sargento Geson Marques Ferreira, único policial militar condenado que era investigado na Operação Sexto Mandamento, foi assassinado no dia 28 de setembro de 2016 por Roger José de Miranda, irmão de um soldado da Polícia Militar de Goiás. Em setembro de 2009, Geson foi preso em flagrante por tentativa de homicídio contra Ricardo Pereira de Sousa. Ele atirou contra a vítima. Na época, conseguiu responder ao processo em liberdade e em sua defesa usou uma declaração de comportamento excepcional do chefe da assessoria militar da Assembleia Legislativa de Goiás.O julgamento desse crime aconteceu em 2011. O policial foi condenado a 4 anos por lesão corporal gravíssima, com início de cumprimento de pena em regime aberto.No entanto, a pena mais alta contra Geson foi dada por outro tribunal de Justiça. Em julho de 2016, Geson foi condenado a 48 anos de prisão pelo judiciário do Mato Grosso por um triplo homicídio no interior daquele Estado, em Torixoréu. Entre as vítimas estava Jander Figueira da Mota, um ex-policial militar de Goiás que teria ameaçado delatar a ação de um grupo de extermínio dentro da PM. Em julho, Geson conseguiu uma nova decisão judicial do Tribunal do Mato Grosso para sair de sua prisão preventiva. Poucos meses depois, na manhã do dia 28 de setembro de 2016, ele foi assassinado em uma rua comercial do Setor Sudoeste porque teria reagido a um assalto. Segundo as investigações, o sargento estava em um ponto de ônibus conversando com um motorista que havia acabado de colidir com sua moto, quando um casal chegou de moto para tentar roubá-lo: Roger José de Miranda e Izabella Christina Coelho da Silva. O policial reagiu e chegou a atingir o assaltante no braço, mas levou um tiro no tórax e morreu. O casal fugiu do local e foi parar na casa do irmão de Roger, que é um soldado da PM de Goiás. O policial então levou o irmão ferido até o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) e acionou outros policiais, que realizaram a prisão em flagrante. Roger já possuía antecedentes criminais e foi condenado a 20 anos de prisão em agosto de 2017. O assassinato de Geson acabou não tendo tanta repercussão na imprensa. No mesmo dia de sua morte, o então vice-governador do Estado e secretário de Segurança Pública foi baleado em um atentado em Itumbiara, sul de Goiás. Apesar das investigações da Polícia Civil confirmarem que o sargento foi vítima de latrocínio, a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra policiais que estariam envolvidos no desaparecimento de Célio Roberto, após tortura em uma borracharia em Goiânia em 2008, sugere que Geson foi “executado possivelmente como ‘queima de arquivo’”. Policiais também foram absolvidos de ameaça a jornalistasO juiz Gustavo Assis Garcia absolveu os policiais que faziam parte do comboio de carros da Rondas Ostensivas Táticas Metropolitana (Rotam) dos crimes de ameaça e de prevaricação. A sentença é de março de 2016.O caso não é alvo da Operação Sexto Mandamento, mas deriva dela indiretamente. No dia 3 de março de 2011, o POPULAR revelou trechos de conversas interceptadas entre policiais investigados. No mesmo dia, um comboio de viaturas da Rotam passou em frente o Grupo Jaime Câmara com as sirenes ligadas. Na época, a atitude dos policiais foi interpretada como uma tentativa de intimidar jornalistas e teve grande repercussão negativa, com o posicionamento de entidades da comunicação. Até o governador do Estado na época, Marconi Perillo (PSDB), se posicionou contra a atitude dos PMs e retirou a Rotam das ruas. Em entrevista ao POPULAR no dia seguinte, defendeu que “a polícia, em hipótese alguma, pode ser usada para afrontar direitos”. No entanto, em sua sentença, Assis Garcia argumenta que o crime de ameaça previsto no Código Penal Militar havia prescrito na época do julgamento. Ele prescreve com dois anos desde a denúncia do Ministério Público, que havia sido feita em agosto de 2012. Já no caso do crime de prevaricação, o juiz entendeu que não é possível comprovar se o comandante do comboio decidiu passar em frente à empresa para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. Em seus depoimentos, os policiais garantem que passaram em frente ao jornal por uma coincidência e não por causa de reportagem sobre a Sexto Mandamento. -Imagem (1.1826688)