Em pleno período eleitoral, o Brasil assiste a partir dessa semana o julgamento da ação penal 470, processo que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), resultado daquele que ficou conhecido como o maior esquema de corrupção já flagrado na história da República brasileira: o mensalão. Esperados há cinco anos (tramita no STF desde 2007 apesar de a denúncia ser de 2006), os procedimentos na Corte terão início na quinta-feira, dia 2, e devem durar entre 30 e 45 dias para gerar sentenças que condenem à prisão ou absolvam os 38 réus do processo. Como denunciado pela Procuradoria Geral da República (PGR), o mensalão seria o esquema clandestino de compra de votos na Câmara dos Deputados, que funcionou entre 2003 e 2005, financiado pelo PT para aprovar matérias de interesse do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A executiva nacional do partido teve, segundo a procuradoria, o controle sobre um mecanismo que desviou pelo menos R$ 101,6 milhões para abastecer parlamentares do PP e do PL (hoje PR), PTB, PMDB e para servir de caixa dois às campanhas do próprio PT. Para circular esse dinheiro teria havido envolvimento de dirigentes e presidentes dos bancos Rural e BMG, o Fundo Visanet (alimentado com recursos do Banco do Brasil), além de empresários ligados a empresas de publicidade e escritórios de advocacia, secretárias, até ex-ministros. Revelado em 2005, o esquema gerou 40 denunciados originalmente – um morreu, o ex-deputado José Janene, e o ex-secretário geral do PT, Silvio Pereira, fez acordo na Justiça para cumprir pena comunitária – e será, como o maior esquema de corrupção do País, também o maior julgamento da história do STF. Do PT são denunciados o ex-presidente da sigla José Genoíno, o ex-deputado e ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o deputado João Paulo Cunha (que era presidente da Câmara quando estourou o escândalo), os ex-deputados João Magno (MG), Paulo Rocha (PA) e Luiz Carlos Rodrigues (SP), o ex-ministro Luiz Gushiken – que conta com pedido de absolvição da procuradoria por falta de provas, que beneficiaria também o irmão do ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas, Antônio Lamas – e o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato. Entre os denunciados petistas figura também o ex-tesoureiro nacional do partido, o goiano Delúbio Soares. Expulso da legenda mas readmitido em 2011, Delúbio é conhecido da luta sindical em Goiânia. É um dos fundadores do PT, da CUT e do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego), e foi responsável pelas finanças do partido na campanha presidencial de 2002. A procuradoria afirma que ele coordenou a distribuição de dinheiro sujo a aliados. Delúbio admite que usou dinheiro para pagar dívidas de campanha do PT, mas que nunca “comprou votos” (veja perfil na página 5). Entre os empresários, estão, além do próprio Marcos Valério, dono de três agências de publicidade que tinham contratos com o governo federal, seus ex-sócios. Valério seria o elo entre governo, PT e dirigentes de bancos. A cúpula do Banco Rural, incluindo presidente e ex-diretores, é toda ré na ação. Ao todo, os réus respondem a sete acusações: formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato, evasão de divisas e gestão fraudulenta. Crimes com penas menores, como formação de quadrilha, prescreveram em 2011 com a demora do processo. Dos escândalos políticos julgados no STF, o do mensalão é mais aguardado até que o do ex-presidente Fernando Collor de Mello, inocentado em 1994 por corrupção passiva no que ficou conhecido como “esquema PC”. O julgamento do ex-presidente levou manhãs, tardes e sessões extraordinárias no Supremo. O julgamento dos nove réus começou na manhã do dia 7 de setembro daquele ano e só terminou na noite do dia 13 de dezembro. Defesa Réus do PT têm admitido esses anos o uso de dinheiro de para pagamentos de dívidas de campanha via caixa dois. Mas negam a compra de votos. Em vídeo divulgado semana passada, o presidente nacional do partido, Rui Falcão, disse que o mensalão nunca existiu: o que houve foi contração de empréstimos junto a bancos, para pagar dívidas de campanha do partido. Falcão diz ainda que correligionários tem sido vítimas de linchamento moral.