Relatórios de administração, fichas de batismo e até pedidos de cirurgia foram apreendidos em operação da Polícia Civil que investiga uma célula do Primeiro Comando da Capital (PCC) na região Sul do Estado. Dezoito pessoas foram presas nesta quinta-feira (08) e outras 32 que já estavam encarceradas e passaram a responder por organização criminosa. Entre os investigados, 14 mulheres que também são suspeitas de comandar roubos e o tráfico de drogas de dentro da cadeia. É a primeira vez que são identificadas lideranças faccionadas femininas em Goiás. A maior parte dos mandados de prisão foi em Goiatuba, a cerca de 200 km da capital, onde a unidade prisional centraliza o poder regional da facção. Um relatório feito a mão em uma folha de caderno pelos próprios presos de dentro do presídio da cidade, que a reportagem teve acesso, detalha o destino de uma espingarda calibre 32 especificando quem quer vender para quem e como foi a negociação da compra. “O companheiro vendeu a arma pro (sic) irmão Killer com medo de não ter o dinheiro pra (sic) pagar o dia certo”, diz trecho do documento, que demonstra, segundo o delegado responsável pela investigação, Patrick Carniel, a semelhança do nível organizacional do grupo criminoso ao de empresas. No cabeçalho do relatório é apontada algumas funções dentro da facção. É identificado quem é o Geral do Sistema de Goiatuba, apelidado de “Sinistro”, que é o faccionado responsável pela disciplina dos integrantes. Ele faz parte de um “conselho” formado por mais quatro “gerais”. Uma outra função identificada é a do “Disciplina”, que no caso desse município é um faccionado conhecido como Branco. De acordo com as investigações, ele tem a missão de disseminar a ideologia da facção nos bairros e comunidades. CaridadeOutro documento que a reportagem teve acesso é um “pedido de ajuda”. No texto, também escrito à mão, alguém pede formalmente dinheiro para a realização de procedimentos médicos para uma pessoa identificada como “senhora do irmão Cigano”, que está com cisto no ovário. São detalhados os valores dos exames e da cirurgia, que totalizam R$ 2,1 mil. Esse pedido deve ser avaliado por chefes da organização criminosa para que o valor possa ser liberado. “Esses faccionados contribuem, pagam taxas e se ajudam mutuamente, não só no cometimento de crimes, mas no auxílio, na saúde. Tudo que o faccionado precisa a facção contribui”, explica o delegado Patrick Carniel. Em contrapartida, o faccionado tem que aderir ao estatuto do grupo e quando está em liberdade precisa praticar ações criminosas para o levantamento de dinheiro para que outras pessoas possam usufruir desse sistema, conta Carniel. Um terceiro documento que a reportagem teve acesso é uma ficha de batismo de um preso, que é uma espécie de “cadastro” do integrante da facção. O modelo é semelhante ao divulgado em reportagem especial do POPULAR do dia 21 de janeiro, com dados pessoais, cargo e histórico do faccionado, mas ao invés de digitado no aplicativo WhatsApp, esse foi feito a mão. Entre os itens listados na ficha há a informação sobre a existência ou não de dívida com a família do detento e qual a “quebrada” atual e de origem, se referindo à cidade do faccionado. Dois presos foram julgados por incêndioDois dos 50 alvos de mandados de prisão da Polícia Civil por suspeita de envolvimento com o PCC na Região Sul de Goiás já foram personagens de notícias policiais. A dupla fazia parte do grupo que ateou fogo no Fórum de Goiatuba em 2016. No entanto, as investigações ainda não apontam se eles já eram faccionados na época do incêndio.No último dia 7 os dois foram condenados por incêndio doloso, organização criminosa, supressão de documentos públicos e roubo. Segundo as investigações, eles queriam destruir a sentença pelo crime de homicídio de um deles. O grupo rendeu um segurança do local com um revólver e utilizou um líquido inflamável para atear fogo em alguns locais, mas as chamas acabaram se espalhando. Durante a tramitação do processo, eles confessaram o crime. Praticamente todo o prédio foi destruído, além de mais de 10 mil processo judiciais, objetos, móveis e computadores. Ambos estão presos na unidade prisional de Goiatuba e fazem parte de um grupo de 12 detentos que devem ser transferidos para cadeias de Anápolis ou Formosa por serem considerados lideranças que colocam a segurança do presídio em risco. A reportagem apurou que no ano passado houve dificuldade no remanejamento de presos da unidade de Goiatuba suspeitos de ligação com o crime organizado. -Imagem (Image_1.1456868)