A Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO) não conseguiu identificar a suposta rede de apoio formada por empresários, fazendeiros e políticos interessados na proteção e fuga de Lázaro Barbosa de Sousa, morto aos 32 anos após uma série de crimes cometidos em chácaras na região do Entorno do Distrito Federal e 20 dias escapando do cerco montado pelas forças policiais de Goiás e do DF.Dos 13 inquéritos abertos em Goiás após a chacina de uma família em Ceilândia (DF) no dia 9 de junho, crime pelo qual se início o cerco a Lázaro, 12 já foram concluídos, restando apenas o que apura a morte do fugitivo durante uma abordagem policial em um matagal na manhã de 28 de junho em Águas Lindas de Goiás.No dia 4 de julho, a delegada Rafaela Azzi, então adjunta da Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH), disse em entrevista ao Fantástico, programa dominical da Rede Globo, que havia uma rede de pessoas interessadas na proteção a Lázaro, a qual ela chamou de “organização criminosa” e que havia sido levantada a participação de “pessoas importantes”. “Nós temos empresários, fazendeiros, políticos...”, disse no programa.Nesta terça-feira (27), durante balanço de uma operação integrada entre as pastas de Segurança Pública de Goiás e do DF, a Polícia Civil goiana apresentou um resumo dos inquéritos finalizados a respeito de Lázaro confirmando que não houve indiciamento de nenhum novo nome além dos já divulgados anteriormente. O delegado regional de Águas Lindas, Cléber Martins, confirmou que no momento não há nenhum inquérito em andamento investigando a suposta organização criminosa por trás de Lázaro.Questionado pelo POPULAR se então não havia uma rede formada por empresários e fazendeiros, como dito pela polícia anteriormente, Cléber foi interrompido brevemente pelo titular da SSP-GO, Rodney Miranda, que lhe disse algo no pé de ouvido e sinalizou positivamente com a cabeça quando o delegado então respondeu que a identificação dos quatro indiciados comprova que havia, sim, uma rede de proteção e que, mesmo com os inquéritos encerrados, ainda estaria “sendo apurado” o envolvimento de outras pessoas.“Nada impede que novas provas surgindo seja instaurado inquérito policial para apurar fato neste sentido (sobre a organização criminosa). De fato foi comprovado que houve uma rede de apoio. Ele teve esta rede de proteção, o que de fato atrasou a captura dele. Ainda está sendo apurado outras pessoas, nada impede em investigações policiais que surgindo provas sejam instaurados inquéritos”, comentou o delegado.Sobre a hipótese comentada após a morte de Lázaro pelo secretário de Segurança Pública de que os crimes cometidos por Lázaro poderiam ter sido encomendados por pessoas interessadas na especulação imobiliária na região, Cléber desconversou: “Neste momento não podemos falar com exatidão, no entanto investigações seguem neste sentido.”O delegado foi colocado pelo titular da SSP-GO, que estava presente na entrevista coletiva, para falar especificamente do caso Lázaro. Rafaela Azzi, que cuidou dos principais inquéritos desta parte da operação, não estava presente, apesar de ter ido ao Entorno do DF na abertura da Operação Anhanguera, cujo encerramento da primeira etapa foi o tema oficial da entrevista coletiva.IndiciadosAo todo, quatro pessoas foram indiciadas pelo crime previsto no artigo 348 do Código Penal Brasileiro (CPB), que responsabiliza quem ajuda na fuga criminoso procurado pela polícia. O chacareiro Elmi Caetano Evangelista, de 73 anos, a mulher de Lázaro, Ellen Vieira da Silva, de 20, a ex dele, Luana Cristina Evangelista Barreto, de 30, e a mãe de Luana, Isabel Evangelista de Sousa, de 65.O crime é considerado de menor potencial ofensivo e, no caso das mulheres, já foi transferido da 3ª Vara Criminal de Águas Lindas para um juizado especial da cidade. Já o de Elmi segue na Vara Criminal de Cocalzinho de Goiás e o julgamento dele está marcado para novembro.Na coletiva, a polícia citou erroneamente o nome do caseiro Alain Reis de Santana, de 33 anos, como um quinto indiciado. Ele chegou a ser preso e teve o processo enviado à Justiça, mas o nome dele retirado e o mesmo passou a ser considerado uma vítima das ameaças de Lázaro que colaborou com a polícia.Os outros dez inquéritos abertos em Goiás foram remetidos ao Judiciário com o indiciamento de Lázaro, identificado como o único autor dos crimes, e com o pedido de arquivamento dos mesmos. Chacina segue em investigaçãoA investigação sobre a chacina de uma família em uma chácara na BR-070, em Ceilândia, fato que motivou o cerco a Lázaro Barbosa de Souza, segue em aberto e pode ser a única a apontar a ligação dele com crimes encomendados. Isso porque existe a suspeita, ainda não descartada, de que havia pessoas interessadas em fazer com que o dono da propriedade, Cláudio Vidal de Oliveira, de 48 anos, a vendesse.Como O POPULAR mostrou no dia 10 de julho, há vários indícios de que Lázaro não estava sozinho no crime. Primeiro, que vítimas de roubos ocorridos durante a fuga contam que o próprio confessava a morte da família, dizendo apenas que ele não havia matado a mulher de Cláudio, levada para um matagal a 5 quilômetros e estuprada, e sim outras pessoas. Antes de morrer, Cláudio comentou que pessoas, no plural, haviam levado a esposa. Além disso, antes da chacina, Lázaro esteve em três propriedades ligadas a familiares de Cláudio e numa delas teria dito que procurava uma chácara cujo dono era parente de militar. Cláudio tinha um primo militar.Presente na coletiva da Operação Anhanguera, o delegado Raphael Seixas, do 24º Distrito Policial, de Ceilândia, disse que ainda não poderia afirmar se Lázaro estava ou não sozinho e o que motivou o crime, mas nenhuma hipótese estava descartada. Ele afirmou, porém, que é muito provável que o próprio Lázaro tenha matado a esposa de Cláudio. A morte de Lázaro também dificultou a conclusão da investigação, que não tem prazo para terminar. “Não vai ser uma investigação precipitada, porque, às vezes, podem vir a incriminar pessoas que não são responsáveis.”SSP quer sequestro de chácaraO secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, afirmou que a pasta vai pedir o sequestro da chácara de Elmi Caetano Evangelista, em Cocalzinho de Goiás, para cobrir como indenização parte dos gastos com a operação de captura de Lázaro Barbosa de Souza, que durou 20 dias durante o mês de junho. “Estamos estudando uma forma de pedir o sequestro da fazenda de Elmi Caetano para que com a venda futura desta fazenda, aprovada judicialmente, lógico, possamos amortizar o gasto feito pela captura de Lázaro.”Elmi responde processo acusado de ajudar Lázaro na fuga. A polícia acredita que o fugitivo tenha se escondido na propriedade dele, em Cocalzinho de Goiás, entre os dias 18 e 24 de junho. Em entrevista coletiva, o secretário afirmou que este apoio atrasou a captura em uma semana.Os custos com a operação estão sob sigilo por 5 anos. Rodney não quis falar sobre isso na entrevista coletiva desta terça-feira (27) em Ceilândia (DF). Já o delegado regional de Águas Lindas, Cléber Martins, disse que o sigilo imposto pela SSP-GO “foi uma decisão da direção da instituição e diz respeito apenas a dados administrativos e de inteligência estratégica”. “Os dados de investigação não estão sob sigilo”, destacou.Elmi ficou detido por 23 dias e desde 16 de julho se encontra em liberdade, com tornozeleira eletrônica. Contra ele, a polícia tem o fato de o caseiro ter confirmado que Lázaro se escondeu na chácara. Elmi nega que tenha sido com sua conivência. O chacareiro também foi detido por porte de duas espingardas de chumbinho adulteradas para tiro de calibre 22, porém laudos periciais atestaram que as armas não tinham nenhuma condição de uso. “Matador de aluguel”Durante a entrevista coletiva, Rodney voltou a se referir a Lázaro como “matador de aluguel”, apesar de não haver divulgação de nenhum crime do tipo pelo qual ele esteja sendo investigado. Nenhuma das investigações finalizadas apontam para mortes encomendadas. Questionado, ele disse que há indícios, sim, de crimes encomendados e que são informações sigilosas de casos ainda sob investigação. Ao contrário do que foi dito pelo delegado regional de Águas Lindas, Rodney afirmou que há três inquéritos ainda abertos.