O presidente da companhia aérea Voepass, José Luiz Felício Filho, afirmou ter dito em depoimento à Polícia Federal que nunca teve conhecimento que questões relacionadas à comunicação de problemas técnicos persistiam na empresa. Em nota assinada por seus advogados, o executivo se manifestou pela primeira vez desde seu indiciamento pela PF, na quinta-feira (6), sobre a queda do avião da empresa em agosto de 2024. O acidente, em Vinhedo (SP), matou 62 pessoas – 58 passageiros e 4 tripulantes.Além de Felício, outras 15 pessoas, entre funcionários e ex-funcionários da empresa, foram indiciadas e podem ser condenadas a até 24 anos de prisão, caso o Ministério Público Federal (MPF) oficialize a denúncia à Justiça. Na nota, a defesa diz que, à época do acidente do voo 2283, ele era do conselho da Voepass e desde 2017 não atuava na gestão direta e cotidiana da operação.A defesa afirma que, após o acidente, ele retomou a gestão direta da companhia. Desde então, promoveu mudanças na estrutura e nos procedimentos operacionais, além de ampliar a interlocução com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). “Em depoimento à Polícia Federal, Felício deixou claro que, diante de questões relacionadas à comunicação de problemas técnicos, determinou a adoção de medidas para assegurar o cumprimento dos protocolos de segurança. O executivo nunca teve conhecimento de que condutas contrárias a essas determinações persistissem, nem de fatos específicos que antecederam o acidente”, afirma a nota.O texto é assinado pelos advogados Roberto Podval, Luis Fernando Beraldo e Mariana Graça. Segundo relatório apresentado pela Polícia Federal na quinta-feira passada, Felício Filho tinha pleno conhecimento dos problemas técnicos graves da frota. O documento cita que, em depoimento dado no último dia 4, o executivo confirmou ter ciência sobre a cultura de omissão da empresa de evitar o registro de falhas no livro de bordo, “relatando ter sido pessoalmente alertado, ao longo dos anos, por diretores da própria Anac, sobre esse padrão de conduta dos pilotos”. “O que afasta qualquer alegação de desconhecimento superveniente do risco”, diz a PF no relatório sobre a investigação.Felício, afirma o texto, também admitiu que a implantação de um sistema automatizado de monitoramento de dados de voo capaz de identificar a recorrência da falha no sistema antigelo – apontado por ele mesmo como estando “nos planos” da companhia – não havia sido, de fato, implantada até a data do acidente. “Declarou, ainda, ter sido piloto da própria empresa, com experiência pessoal na operação de aeronaves regionais e conhecimento direto da suscetibilidade desse tipo de aeronave a condições de gelo, o que afasta a tese de mero investidor alheio aos aspectos técnicos da operação”, afirma o relatório.A PF diz, conforme depoimento, que o presidente demonstrou ciência de que a estrutura formal de segurança operacional da empresa funcionava apartada do núcleo apontado por testemunhas como responsável pela pressão contra o reporte de falhas. “Também não passou despercebido que o próprio Felício, ao ser instado a individualizar a conduta de cada envolvido, reconheceu expressamente que ‘a aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota’.”Como mostrou a Folha, conforme informações do relatório, a diretora da Voepass orientou que panes nos aviões da empresa fossem omitidas e só reportadas quando a aeronave retornasse à base principal, em Ribeirão Preto (SP). A orientação era passada em um grupo de WhatsApp que, entre outros, contava com Felício, com o gerente do Centro de Controle Operacional (CCO), Willian Agatz, com o diretor-técnico, Eric Consoli, e com o chefe do CCO, Raphael Figueiredo. A existência desse grupo consta em depoimento do despachante John Major Viana. Conforme a investigação da Polícia Federal, a tragédia foi resultado de uma sucessão de falhas operacionais e de manutenção, e não de um evento isolado.A investigação conclui que a aeronave foi despachada para uma rota com previsão de condições de formação de gelo. O modelo ATR 72-500 não é certificado para operar nessas condições e apresentava falhas conhecidas no sistema de degelo, o que deveria impedir seu despacho.Peritos apontam ainda que a empresa mantinha uma cultura organizacional de omissão de registros de panes e de priorização da disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional. Segundo eles, isso permitiu que problemas recorrentes persistissem até culminarem na perda de controle da aeronave após o acúmulo de gelo nas superfícies aerodinâmicas.