O valor da água inflacionou no mercado goianiense desde terça-feira, quando intensificaram os problemas relacionados ao abastecimento proveniente da rede da Saneamento de Goiás (Saneago). O preço da carga de um caminhão-pipa aumentou 50% em média no comércio local. Os pedidos pelo produto vêm de hospitais, asilos, creches, condomínios e de particulares. Em algumas empresas não há mais água em estoque.Na Água Viva Transportes e Locações as vendas triplicaram. Os três caminhões-pipa da empresa tiveram de começar a circular até à noite para atender a demanda. Cada veículo tem capacidade para armazenar 15 mil litros de água, vendidos por R$ 300,00. Antes da seca, o preço não ultrapassava R$ 200,00. "Não estamos conseguindo dar retorno a todos que nos procuram. Já vendemos para hospitais, asilos e creches", afirmou Silvia dos Santos Gil, proprietária da empresa, abastecida por poço artesiano próprio.O empresário Carlos Nunes, da Água Gyn, disse que compra o produto em uma fonte localizada na saída para Trindade, com controle de qualidade. "A água é potável e aumentamos o preço em 50% depois da crise", revela. Na Água Fernandes não tem mais produto em estoque, pois o reservatório particular é alimentado pela rede da Saneago. "Não tivemos como atender dois hospitais e um laboratório", contou a empresária Claudete Alvez Fernandes. "Estou com cinco caminhões- pipa parados e o telefone não para de tocar com clientes procurando água."No Jardim Maria Inês, em Aparecida de Goiânia, a saída encontrada pela população foi buscar água que jorra de uma mina. Em frente à propriedade particular onde está a bica formou fila para pegar água. Dezenas de vizinhos recorreram ao local durante todo o dia de ontem e houve quem encheu caixas d"água de 500 litros para abastecer a própria casa.AulasAlunos da Rede Municipal de Educação (RME) continuam a ser prejudicados devido à falta de água na Região Metropolitana de Goiânia. Na manhã de ontem, cerca de 900 alunos de seis unidades de ensino, incluindo dois Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) e uma escola em tempo integral, ainda não puderam assistir às aulas. A orientação da Secretaria Municipal de Educação (SME) é para que as aulas sejam ministradas apenas se houver água para a higienização dos estudantes, funcionários e limpeza dos estabelecimentos.Márcia Rejane Silva, coordenadora pedagógica da SME, observa que a situação está mais controlada, pois na quarta-feira eram 18 escolas com a falta de água. Ela lembra que nas unidades de ensino que têm pelo menos água para limpeza, a secretaria tem enviado garrafões de água mineral para beber e para ser usada na área de alimentação. "Mas, quando não temos nem para a limpeza, não é possível receber os alunos, pois trata-se de uma questão de saúde", diz.A coordenadora pedagógica salienta que a expectativa é de que o abastecimento de água seja normalizado hoje, conforme compromisso feito pela Saneamento de Goiás (Saneago). Quanto à reposição dos dias em que os alunos ficaram sem aula, ela explica que o assunto será discutido com as escolas e como o Departamento de Administração Escolar.Nas escolas onde o abastecimento não foi normalizado, diretores têm buscado alternativas para não deixar os alunos sem aula. No Colégio Estadual Dom Abel, no Setor Pedro Ludovico, por exemplo, a diretora Rosana de Oliveira Fernandes compra diariamente três garrafões de água mineral para disponibilizar aos 590 alunos da instituição.Celg e Saneago podem ser multadas por falhasAlfredo MergulhãoA partir de segunda-feira, a Superintendência de Proteção aos Direitos do Consumidor (Procon-GO) e o Sistema Municipal de Defesa do Consumidor (Procon-Goiânia) abrirão procedimentos para receber reclamações de usuários da Companhia Energética de Goiás (Celg) e da Saneamento de Goiás (Saneago). As empresas públicas poderão ser multadas em caso de falhas no atendimento ao público.A medida foi estabelecida em reunião realizada ontem no Ministério Público estadual (MP) que tratou da falta de água na Região Metropolitana da capital e de interrupções no serviço de energia elétrica. De acordo com a gerente em Atendimento ao Consumidor do Procon-GO, Sara Ximenes, foi constatado problemas nos serviços de call center. "Os atendentes não estavam elaborando protocolo de atendimento ao consumidor, que não pode ficar sem resposta", disse. Quem teve aparelhos eletrônicos queimados ou perdeu alimentos pode procurar os Procons.O MP solicitou elaboração por parte das empresas públicas de planos emergenciais de atuação a curto e médio prazos. "Segunda-feira receberemos um relatório sobre o que foi feito para normalizar a situação", disse o promotor Murilo de Morais e Miranda.Na tarde de ontem os bairros da Região Sul da capital e outros de Aparecida de Goiânia abastecidos pelo sistema João Leite ainda estavam sem água, proveniente dos reservatórios da Serrinha e da Vila Pedroso. Os reservatórios do Setor Maísa e da Vila Mutirão, que integram o sistema Meia Ponte, também estavam vazios devido à falta de energia na quarta-feira. "O fornecimento deve ser normalizado hoje", disse o superintendente metropolitano da Saneago, Rivadávia Matos Azevedo.O MP pediu um mapeamento das estações elevatórias mais críticas para analisar a viabilidade da aquisição de geradores de energia elétrica, que impediriam a paralisação no bombeamento. Mas o superintendente da Saneago explicou que a compra de equipamento próprio seria inviável, pois os custos teriam de ser repassados à tarifa cobrada da população.Até ontem, quando havia quedas de energia, a Saneago solicitava os reparos pelas vias normais. "Até no 0800 eles ligavam. Pedimos para os diretores das empresas públicas trocarem telefones e acelerar a solução dos problemas", disse o promotor.Por conta da interrupção no serviço da Celg, o fornecimento de água ficou prejudicado três vezes na última semana. O assessor da Diretoria Técnica da Celg, Augusto Francisco da Silva, explicou que as quedas de energia são esperadas com as primeiras chuvas, sobretudo após um longo período de seca e de temperaturas altas. "Na segunda-feira tivemos ventos com velocidade acima de 80 quilômetros por hora", justificou. A estatal registrou cerca de 5 mil ocorrências deste terça-feira. Até a tarde de ontem, a Celg tinha resolvido 3,3 mil.