É num carrinho de bebê, já bastante desgastado, que a moradora de rua e usuária de crack Lorena, de 22 anos, amontoa algumas peças de roupa e as poucas fraldas de Ana, de 2, a caçula de seus quatro filhos (os nomes são fictícios). As duas passam o dia nas redondezas da Catedral Metropolitana de Goiânia, no Centro, e não conseguem chamar a atenção nem dos fieis que entram e saem do templo religioso. Ali, no caminho de tanta gente que circula na região, a menina brinca, enquanto a mãe se rende à droga. E não há apenas este caso. Só nas ruas da capital, existem pelo menos 25 gestantes, entre elas adolescentes, com dependência química, de acordo com estimativas da Pastoral dos Povos de Rua do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia. Com corpo bastante magro, estatura mediana e tom de voz agressivo, Lorena é o retrato de um ciclo de vulnerabilidade. A jovem ainda tinha 9 anos quando sua mãe passou a morar na rua, depois de problemas em casa. Sua irmã, dois anos mais nova, também cresceu nas calçadas e praças da cidade. “Minha história é muito triste, minha vida sempre foi muito difícil. É um sofrimento que parece não ter fim”, desabafa. Nos últimos anos, viu a mãe e a irmã serem assassinadas. Ganhou os filhos, mas perdeu três deles para a Justiça, após recolhidos pelo conselho tutelar. Para segurar pelo menos a mais nova por perto, ela tenta ficar bem atenta, desde quando saiu da maternidade. Mas há casos em que só resta o abrigo para filhos de dependentes químicas. Índice crescente Para se ter uma ideia do problema crescente na capital, só a Maternidade Nascer Cidadão, unidade da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) na Região Noroeste de Goiânia, realiza pelo menos quatro partos mensais de gestantes usuárias de crack ou viciadas em bebida alcoólica, de acordo com o diretor técnico Jony Rodrigues Barbosa. Representa, em média, 2,2% do total de 180 partos feitos, no período, no hospital. Apesar de relativamente baixo, esse índice tem aumentado, consideravelmente, nos últimos anos, devido à proliferação da droga até entre grávidas, alerta o ginecologista. “Há cerca de 15 dias, estava num plantão e chegou uma usuária de crack já em trabalho de parto. O bebê nasceu e a mãe foi embora, sem ele. Virou mais um caso de abandono”, relata ele. O número de crianças abandonadas, na capital, tem crescido, segundo a coordenadora do Condomínio Sol Nascente, Maria Eunice Dias. A unidade, vinculada ao Estado, pode receber até 48 meninos e meninas de até 12 anos incompletos. É o único abrigo para essa faixa etária na capital e está sempre com sua capacidade quase ou totalmente preenchida. No ano passado, atuou no limite, acolhendo, no total, 574 crianças, e, conforme relata a especialista, 98% delas eram filhas de usuárias de crack. Este ano, tem atendido, em média, 45 crianças, por mês. Coordenador do Consultório na Rua, programa da SMS ligado à rede de atenção básica, Elandias Bezerra Sousa ressalta que o consumo de drogas durante a gravidez aumenta as chances de a criança nascer com algum problema. Numa tentativa de diminuir o risco, observa ele, muitas moradoras de rua e usuárias de crack se esforçam para diminuir a frequência do vício pelo menos durante a gestação, mas nem todas conseguem. Além disso, frisa, há outros fatores que acarretam até a morte da criança: “Temos notícias dos próprios moradores de que algumas perderam o bebê por causa da violência ou pela forma de vida que têm na rua, muito vulnerável”. Abandono e angústia O problema não existe, contudo, apenas entre moradores de rua. Também há mães que seguem a rotina com a família dentro de casa, mas quebram o laço com os filhos por causa do vício. O POPULAR visitou, nesta semana, o Condomínio Sol Nascente, com autorização da juíza Mônica Neves Soares Gioia, titular do Juizado da Infância e da Juventude de Goiânia. Lá estão, há três anos, os irmãos Vitor, de 10, e Vinícius, de 7, abandonados pela mãe, usuária de crack. Eles nem sabem o paradeiro da família. Esperam um novo lar (veja quadro sobre como proceder para adoção de crianças). Apesar da pouca idade, Vitor lembra cada detalhe de uma cena que insiste em sua memória. “Acordei, vi minha mãe sair e fui atrás dela, escondido. Peguei ela comprando umas pedras”, lembra o garoto. “Depois, eu e meu irmão pegamos esse trem estranho escondido debaixo do colchão. Era droga. Pegamos tudo, era um monte, e queimamos bem longe de casa. No início, não sabia direito o que era, mas sabia que deixava minha mãe diferente”, emenda ele. Sentado em um banco nos fundos do abrigo, todo desinibido e também com boas lembranças bem vivas na memória, Vitor conta como era bom acordar cedo, subir de bicicleta uma ladeira que tinha próximo à sua casa e descer sem pedalar. “Também amava soltar pipa, mas sem cerol. Era uma aventura”, ressalta, para cair na gargalhada, mas, em seguida, sua feição muda de repente. “Sabe... tenho muita saudade da minha família, muita saudade mesmo. Ver todo mundo junto!”, frisa o menino, que já ganhou campeonatos de xadrez nos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Ao término da entrevista, pede que a fotógrafa Cristina Cabral tire uma foto dele. Vida diferente Embora tenha crescido na rua, muitas vezes sofrendo até agressões físicas, Lorena também sente muita falta da família. “Meu sonho era dar para meus filhos uma vida bem diferente da minha”, acentua a jovem, enquanto observa Ana brincar na calçada da catedral. “Mas parece que já até aprendi a sofrer. Já não tenho nem mãe nem irmã comigo e, se pegarem minha última criança, não sei o que vou fazer”, diz, para acrescentar: “A droga pode até fazer mal para minha filha, mas quero pelo menos ela sempre comigo.”-Imagem (Image_1.329393)