Quem vivencia grandes tragédias, como a chacina em uma fazenda em Doverlândia, com sete mortos, ou a queda do helicóptero com sete policiais civis e o assassino confesso das vítimas, corre o risco de ser afetado pelo estresse pós-traumático, distúrbio que pode ter consequências graves. É cada vez maior o número de pessoas que passam por essa experiência dolorosa, que impede que o trauma seja esquecido e superado, especialmente vivendo em cidades cada vez mais violentas, como Goiânia, onde o primeiro quadrimestre deste ano, com 180 assassinatos, foi o mais violento da história e onde o ano de 2011 bateu os recordes de homicídios. A boa notícia é que o estresse pós-traumático tem cura, desde que o paciente passe por tratamento especializado. Mas ele não pode ser simplesmente menosprezado como um evento que fatalmente será superado com o tempo, porque pode se agravar ao ponto de levar a pessoa ao suicídio ou ainda se tornar crônico, causando um sofrimento permanente e acabar associado a mecanismos de fuga, como a dependência química. Por isso é tão importante o diagnóstico e o acompanhamento bem feitos. “O não especialista pode confundir com ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão”, diz o psiquiatra Lucio Malagoni. Para ele, todas as pessoas que passam por situações traumáticas consideradas intensamente estressantes devem ser avaliadas. “Mas deve-se diferenciar, por exemplo, das situações negativas, mas não extremas: posso ter sintomas depressivos quando perco uma pessoa querida, com o fim de um relacionamento, ou ansiosos quando a pressão no trabalho aumenta muito”, pondera Malagoni. Esses casos citados por ele são diagnosticados como transtornos de ajustamento. Já a situação de trauma intenso pode levar a dois tipos de transtorno abordados na psiquiatria. A situação não precisa necessariamente vitimar a pessoa para desencadear o estresse pós-traumático. Ela também pode vivenciar em outra pessoa significativa. “Ver alguém despedaçado num acidente de trânsito ou sofrer um assalto à mão armada podem levar a isso”, exemplifica Malagoni. Os sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), como é chamado na psiquiatria, são duradouros, ao contrário da reação aguada ao estresse, quando a pessoa fica em estado de choque, que costuma passar em até 30 dias. Malagoni explica que os sintomas do TEPT se agrupam em três conjuntos: revivescência/evitação, ansiedade e perda de expecatativas. “A revivescência pode ser tão intensa que o indivíduo começa a vivenciar a situação de novo, como se estivesse nela”, explica o psiquiatra. Esse é o “flashback”, amplamente explorado em filmes. Já a perda de perspectivas/embotamento é um dos sintomas mais tristes, porque inclui a perda de confiança em relação ao futuro, perda de perspectivas. “Ocorre uma diminuição de reação normal aos eventos agradáveis e corriqueiros e pode ser confundida com depressão”, exemplifica Malagoni. A dona de casa Seni Aparecida de Sousa, de 50 anos, vive há seis meses essa situação. Ela emagreceu 12 quilos – não consegue se alimentar, como se a garganta ficasse travada –, não dorme, apesar de tomar medicamentos, e, quando consegue algumas horas de sono, tem pesadelos com o marido, Antenor Torres Ribeiro Filho, morto aos 28 anos no dia 10 de outubro de 2011 dentro de uma cela na Casa de Prisão Provisória (CPP), em Aparecida de Goiânia, com requintes de crueldade. Antenor foi esquartejado pelos oito colegas de cela. Era uma sexta-feira. No dia anterior, ligou para ela e disse que estava sendo ameaçado. Só no domingo o corpo foi liberado pelo IML. “Quando fecho os olhos, eu o vejo todo cortado. É uma situação terrível, que parece que não vai ter fim jamais”, relata. Seni parou de trabalhar – “no máximo, consigo limpar casa, lavar roupas” –, mudou de casa. “Não tenho perspectiva de nada, nenhuma vontade. Acho que não vou superar”. Ela não procurou acompanhamento médico nem jurídico, mas sabe que precisa de um advogado para conseguir resolver pendências. Até hoje não conseguiu retirar sequer o atestado de óbito do companheiro, com quem viveu por cinco anos. Toda semana, Seni cumpre um ritual: lava as roupas de Antenor. “Sei que ele não vai voltar, mas é como se fosse”. Tratamento Casos como o de Seni e os de tantas pessoas que passam pelo estresse pós-traumático e conseguem superá-lo têm tratamento, que envolve psicoterapia, antidepressivos, eventualmente antipsicóticos e até mesmo anti-hipertensivo. Este último medicamento tem sido usado, relata Lucio Malagoni, para controlar os pesadelos relacionados ao trauma. É claro que eles só podem ser prescritos pelo médico psiquiatra, que vai avaliar a necessidade de uso e de conjugação com outros tratamentos, como a psicoterapia ou a psicanálise. Não há estudos para quantificar os distúrbios em Goiás, mas a realidade dos consultórios mostra que os casos têm aumentado com a escalada da violência, com a qual eles têm estreita ligação. Para Malagoni, os casos são subdiagnosticados e subnotificados. Essa realidade faz com que a doença alcance uma face ainda mais perversa: a cronificação, quando ocorrem suicídios e há milhares de relatos de busca de álcool e drogas como alívio, perda de empregos, incapacitação para o trabalho, dissolução familiar. “Pode se estender para a vida toda”, alerta Malagoni. Drogas e álcool são buscados como alívio, o que faz com que essas pessoas continuem revivendo o trauma, tendo esse sofrimento, acrescido de uma dependência química. -Imagem (1.151765)