A quantidade de visitas em imóveis de Goiás com o intuito de eliminar focos do aedes aegypti, mosquito que transmite a dengue, chicungunha e zika vírus, diminuiu. Entre 2016 e 2019, o número sempre ultrapassou a marca das 10 milhões de visitas anuais. Entretanto, desde 2020, quando teve início a pandemia da Covid-19, ele não chega sequer aos 9 milhões anuais. Em 2016, foram 10,5 milhões de visitas nos oito primeiros meses do ano, enquanto em 2022, no mesmo período, foram 8,3 milhões, uma redução de 20%.Ao mesmo tempo, o número de casos e mortes pela doença cresceu. Em 2022, até agora, já foram 242,2 mil notificações da doença. Esta é a maior quantidade para o período desde 2016. A quantidade de óbitos também bateu recorde: já são 114 mortes confirmadas até início de setembro deste ano, maior número dos últimos seis anos.Especialistas apontam que a diminuição das visitas tem impacto direto sobre o avanço da doença no estado.O infectologista Marcelo Daher explica que naturalmente a dengue é uma doença que acontece em ondas, mas que é possível mitigar o crescimento de casos. “Em 2020 tivemos uma baixa de notificações. É natural que depois disso ocorra um aumento, ainda mais com as mudanças de tipos predominantes. Entretanto, já sabendo disso e que sempre somos um estado recordista no número de casos, essas visitas deveriam se manter e talvez até aumentarem. Elas, associadas com outras ações como a melhora da coleta de lixo e diminuição da água parada, são essenciais no combate ao vetor da doença”, afirma.A infectologista Marianna Tassara esclarece ainda que a diminuição das visitas a imóveis também contribui para o aumento de casos de dengue fora do período endêmico da doença. “Um número alto de casos nesta época se explica pela manutenção dos criadouros”, aponta. Em Goiás, pelo menos nas últimas cinco semanas epidemiológicas, o número de casos registrados foi quase o dobro do que no mesmo período do ano passado. Foram 3,7 mil entre os dias 25 de julho e 28 de agosto de 2021. Em 2022, no mesmo período, foram 6,4 mil.Marianna diz que o aumento da dengue funciona num esquema de cascata. “Se os criadouros não forem reduzidos na seca, vai existir uma maior quantidade de ovos para eclodir no período chuvoso. Isso vai aumentar a quantidade de mosquitos se reproduzindo, o que faz com o vetor da doença cresça e, consequentemente, os casos e óbitos também.”Leia também:- Goiás tem maior número de mortes por dengue dos últimos 12 anos - Goiânia tem maior número de mortes por dengue dos últimos seis anosUma das pessoas que perderam a vida por conta da dengue grave neste ano foi o pai do vigilante João Miguel Júnior, de 50 anos. O senhor, que tinha o mesmo nome, foi infectado em abril. Ele já estava hospitalizado havia uma semana, quando teve complicações e foi encaminhado para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde ficou internado por mais cinco dias antes de morrer. “Não dá para explicar a dor. Ele tinha 84 anos. Nesses últimos dois anos, tomamos tanto cuidado com a Covid-19. Ele já estava vacinado e aí acontece isso”, emociona-se o vigilante.Antes do pai de João Miguel se infectar, ele e a irmã, de 52 anos, também foram contaminados pela doença. “Eu tive em janeiro e ela em março”, conta. Agora, ele se preocupa que a mãe, de 74 anos, também fique doente. Todos moram na mesma casa, na Vila Morais, em Goiânia. “Uma criança que era minha vizinha morreu há alguns anos. Minha mãe já é idosa. Agora, ficamos sempre receosos.”Na casa da autônoma Ana Carla da Silva, de 37 anos, todos os moradores foram infectados com a dengue em maio deste ano. Ela mora junto com os quatro filhos. “Apesar de ninguém ter sido hospitalizado, foi difícil. Ficamos uns dez dias ruins”, relata a moradora do bairro Virgínia Parque, em Aparecida de Goiânia.Atualmente, ela lida com as sequelas da chicungunha, doença que também é transmitida pelo aedes aegypti. Ela e um dos filhos, de 14 anos, foram contaminados com a doença logo após se recuperarem da dengue. “Trabalhava de babá pela manhã e tive de parar porque sinto muitas dores nas articulações. Fui parar no hospital várias vezes para tomar remédios e me hidratar. Até hoje estou fazendo uso de medicamento.”Apesar de terem tido as residências visitadas por fiscais neste ano, tanto Ana Carla, quanto João Miguel, acreditam que o poder público poderia desenvolver mais ações de prevenção nos bairros onde moram. “Aqui tem muita mata em volta. Uma visita só não é suficiente. O fumacê também ajudaria muito. Aqui nunca passou”, diz Ana Carla. “A gente só pede que as autoridades olhem com um pouquinho mais de carinho para este assunto. São vidas em risco”, finaliza João Miguel.Secretaria argumenta que Covid influenciou na reduçãoA necessidade de deslocar os agentes de combate a endemias para atividades relacionadas à Covid-19 é a justificativa da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) para a diminuição das visitas domiciliares com o intuito de eliminar focos do aedes aegypti a partir de 2020. De acordo com a pasta, este deslocamento foi feito “considerando a recomendação do Ministério da Saúde para a suspensão das visitas domiciliares para ações de combate à dengue, por se tratar de atividade de risco para contaminação pelo coronavírus.”A secretaria informou que em outubro de 2021 as visitas foram retomadas, sendo que neste período houve um grande aumento do número de casos de dengue. “Estamos vivendo uma retomada gradual das visitas domiciliares, que não atingiram o mesmo volume daquelas realizadas em períodos anteriores à pandemia”, explica trecho da nota. Levando em conta o próximo período chuvoso, a SES-GO comunicou que ainda em 2022 “tem realizado capacitações das equipes de endemias dos municípios, promovido ações de apoio, fornecendo insumos e equipamentos solicitados, considerando que a realização de visitas e trabalho de campo é da competência das secretarias municipais de saúde.” A pasta ressaltou que realiza ações de apoio aos municípios “por meio de visitas técnicas, bem como apoio operacional para as atividades de campo: manejo ambiental e controle químico, com a utilização de inseticidas para o controle do mosquito. Ações que serão ainda mais intensificadas nos próximos meses junto aos municípios e com alertas à população sobre o manejo ambiental doméstico.”MunicípiosA Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia disse que entre janeiro e julho de 2022, foram feitas 1,5 milhão de visitas em residências, comércios e demais imóveis da capital e destacou que entre as ações de combate à dengue estão a retomada das salas de hidratação em todas as unidades de urgência e qualificação de mais de 200 profissionais de nível superior em manejo da arbovirose, sendo que o município já fez mais de 134,5 mil atendimentos laboratoriais.A secretaria apontou que um total de 3,4 mil denúncias realizadas pelo telefone e aplicativo Goiânia Contra o Aedes/Ouvidoria foram atendidas e que 5,6 mil visitas fiscais, visando a coibir a manutenção de materiais propícios a proliferação de vetores, foram feitas. Conforme a pasta, 333 armadilhas foram instaladas em 23 bairros para coleta de ovos de mosquitos e 103 remoções feitas com a equipe da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg).Já a SMS de Aparecida de Goiânia esclareceu que atua de forma ininterrupta no combate ao mosquito transmissor de doenças como dengue, chicungunha e zika, sendo que neste ano as ações foram intensificadas e foram realizados mutirões de combate aos criadouros do mosquito com ações como visitas domiciliares, bloqueios costais, atividades educativas e de orientação da população, recolhimentos de carcaças de pneus e participações em mutirões. A pasta destacou ainda que durante as visitas, a população é alertada sobre a importância de se denunciar possíveis focos da doença e enfatizou a importância dos moradores da cidade não se descuidarem dos cuidados preventivos contra a proliferação do inseto. 2023 pode ter situação piorO aumento de casos de dengue em Goiás fora do período endêmico da doença é motivo de preocupação, pois pode contribuir para o crescimento de notificações em 2023. A infectologista Marianna Tassara afirma que se o número de casos se mantiver alto e os focos não forem eliminados agora, quando o período chuvoso começar, haverá uma explosão de notificações. “É natural que na chuva os criadouros e focos da doença aumentem. Por isso, é preciso que fora dessa época, a situação esteja controlada.”Ela aponta que esse cenário gera um risco para o sistema de saúde, já que existem outras doenças que também demandam atenção primária como, por exemplo, a Covid-19 e a influenza. “Não sabemos como estará, por exemplo, a situação da monkeypox no início do ano que vem. Quanto mais pressionado o sistema de saúde fica, mais precário acaba se tornando o atendimento.Por isso, ela aponta a necessidade de o poder público desenvolver um trabalho de prevenção durante a estiagem. “A hora é agora de aumentar o número de visitas e fazer o uso de, por exemplo, fumacê. A população também deve fazer a parte dela cuidando dos quintais e fazendo denúncias de situações irregulares. O uso de repelente para evitar a contaminação também é indicado.”-Imagem (1.2527646)