Quando, há mais de 40 anos, se casou com Bernardo Élis, Maria Carmelita Fleury Curado abdicou de sua própria história para se dedicar integralmente ao marido. Mulher culta e destemida que até então tinha traçado um caminho pessoal nas esferas religiosa, educacional, artística e literária, decidiu canalizar sua energia para preservar o legado do escritor, o primeiro e, por enquanto, único goiano a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Prestes a completar 90 anos, ela tem revelado as pequenas vivências íntimas ao lado do homem que a escolheu para ser sua companheira até o final de seus dias.Quem tem ouvido as afeiçoadas narrações é Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, primo de Maria Carmelita, hoje presidente do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe). Em 2019, o historiador disse sim ao pedido de “socorro” feito por ela para conduzir o acervo de Bernardo Élis, passando a conviver mais de perto com a ex-professora e também escritora. Os relatos sobre a vida cotidiana com o marido, que Bento tem compartilhado com os integrantes do Icebe, revelam o lado humano do reconhecido escritor.Bento Fleury conta ao POPULAR que, embora seja parente de Maria Carmelita e a conhecesse desde a infância, nunca tinha sido próximo a ela. Servidor público estadual, conviveu com a prima a partir de 1994, quando Bernardo Élis assumiu a presidência da então Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel) e a levou para ser sua chefe de gabinete. Logo depois ele adoeceu e se desligou do cargo. Numa ação liderada por Maria Carmelita, o escritor ainda viu surgir em 1997 a Associação Cultural Bernardo Élis dos Povos do Cerrado (ACBEPC), poucos meses antes de morrer.“Quando a Associação foi fundada, eu estava estudando, cuidando dos meus mestrado e doutorado, e não estive lá. Fui rever Maria Carmelita em 2015, num evento em Corumbá de Goiás, comemorativo ao centenário de Bernardo Élis e de José J.Veiga. Ela me disse que gostaria de conversar comigo, mas, como morava numa chácara isolada, não nos vimos mais. Em 2019, num encontro casual com Izaura Franco, que presidiu a ACBEPC, soube que Maria Carmelita estava à minha procura. Nosso encontro, na sede da Associação, ocorreu em outubro daquele ano.”Com dificuldades financeiras, a ACBEPC estava se deteriorando. Maria Carmelita, que após a morte de Bernardo Élis passou a viver na chácara do casal na área rural de Pirenópolis, viu em Bento a chance de manter vivo o legado do marido. “Ela me pediu para transformar a Associação num Instituto. A questionei por que pessoas mais próximas a ela, como sobrinhos e afilhados, não assumiam a iniciativa, e ela respondeu que já tinha entrado em contato com muitos deles, sem sucesso, por isso me pedia socorro.”O apelo, vindo de uma mulher de 87 anos, sozinha, que ansiava em definir o que sonhara para preservar o patrimônio cultural do casal, calou o historiador. “Com certa relutância, aceitei o pedido, desde que ela fizesse o testamento destinando tudo ao Instituto que seria fundado para não correr o risco de não prosseguir após a sua morte. Ela procurou um advogado, um psiquiatra e um cartório e legalizou a situação. No início de 2020 fundamos o Icebe, do qual ela é a presidente de honra”, detalha Bento Fleury.CuidadosBento Fleury relata que, depois de assumir a presidência do Icebe, passou a visitar Maria Carmelita no Sítio da Terra Preta, em Pirenópolis, preocupado por ela ficar sozinha numa casa de oito quartos, no alto da Serra dos Pireneus. No final de 2020, ela sofreu um acidente doméstico, quebrou a perna e passou a noite no chão, sem conseguir pedir ajuda ao funcionário que morava a 2 quilômetros de distância. “A partir de então, assumi a responsabilidade com os cuidados dela, levando duas cuidadoras para a chácara, já que ela não podia mais se locomover.”Ainda no sítio, Maria Carmelita contraiu Covid-19 e precisou ficar internada numa Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) em Goiânia por uma semana. A doença a deixou mais debilitada, fazendo com que o historiador a transferisse para sua casa, em Goiânia, com os cuidados necessários. “É uma mulher extraordinária, com a qual estou tendo a oportunidade de caminhar até o fim. A conheço desde criança, mas nunca imaginei que ela fosse terminar comigo. São os caminhos guiados por Deus e é uma maravilha estar com ela. Agora entendo bem o sentido daquela palavra: ‘socorro’.”Bento Fleury, que conduz o Icebe ao lado do crítico literário Nilson Jaime (vice-presidente), enfatiza que o Instituto existe em razão da renúncia pessoal de Maria Carmelita, para que o nome do marido aparecesse. Em fevereiro de 2021, ela contou ao POPULAR que, sob a caraíba que sombreia o sobrado em estilo suíço, no Jardim América, onde o casal viveu, Bernardo Élis pediu que ela jamais desfizesse do local. “Respondi que ele viveria aqui para sempre”, disse na ocasião. “Pouca gente faz isso por amor. Ela se apaga, se dilui, e se pulveriza para que ele permaneça para sempre”, afirma Bento Fleury.O encontro dos primos na vida adultaBernardo Élis Fleury de Campos Curado e Maria Carmelita Fleury Curado são primos em primeiro grau, netos do casal João Fleury Curado Filho e Maria Catarina Godinho Curado, que se casaram na cidade de Goiás em 1891. Ele, filho de Marieta, que, após se unir ao comerciante e literato Érico José Curado, se mudou para Corumbá de Goiás, onde nasceu o primogênito Bernardo, em 1915. Ela, filha de Antonieta Augusta, irmã de Marieta, e José Augusto Curado, nasceu na antiga capital em 1932. O casal foi proprietário da conhecida Casa do Bispo, onde hoje fica a sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), na cidade de Goiás.Filhos de pais também primos, Bernardo e Maria Carmelita seguiram caminhos distintos. Em 1944, ano em que lançou Ermos e Gerais, obra que o consagrou em nível nacional, o escritor casou-se com a poetisa Violeta Metran, que nasceu em Morrinhos. Com ela teve os filhos Simeão, Silas e Ivo, mas a união terminou no final dos anos de 1970. Durante mais de dois anos sozinho e sem nunca ter demonstrado sinal de afeto e admiração, Bernardo Élis decidiu procurar a prima que, àquela altura, já tinha traçado uma trajetória própria. Maria Carmelita estudou no tradicional Colégio Santana, na antiga capital, é bacharel em História Universal e do Brasil e em Artes Visuais. Em meados dos anos de 1950 foi para Paris aprimorar o Francês e o Desenho, seguiu depois para Nova York para estudar Inglês. Entrou para a vida religiosa na congregação Dominicana, conciliando sua missão com novos conhecimentos. Fez centenas de cursos em diferentes áreas, como Antropologia, Filosofia e Relações Humanas. Atuou em obras de assistência social e religiosa no então Cepaigo, em Goiânia, e em Marabá (PA) e foi professora de Religião, Desenho, Português e História em cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraná.Depois de deixar a vida religiosa, trabalhou numa empresa privada na capital paulista, como funcionária bilíngue, e na área administrativa da então Universidade Católica de Goiás, hoje PUC. Em Goiânia foi pioneira, na década de 1960, ao montar a Amai, empresa voltada para hospedagem infantil (baby sitter), que ficou bastante conhecida na época. Com o fruto do seu trabalho construiu três grandes casas, uma em Aparecida de Goiânia; outra em Pirenópolis; e a terceira no Jardim América, em Goiânia, hoje sede do Icebe.Ela contou a Bento Fleury que, quando a procurou para propor o casamento, Bernardo Élis, tímido, se escondeu sob um poste: “Maria, você quer se casar comigo?”. Ele estava com 66 anos, ela com 49. A princípio assustada, não respondeu de pronto. Decidiu conversar com parentes em comum e estabelecer um mínimo de convivência antes de se unir ao autor de O Tronco, um homem solitário e deprimido. A partir do casamento, ela se tornou a companhia constante de Bernardo em atividades culturais e, como ele, também passou a produzir artigos para jornais. Seu comportamento não era aplaudido por parte do meio cultural goiano, que a via como uma pessoa que tentava cercear o escritor. Após a morte do marido, Maria Carmelita passou cerca de 20 anos na chácara de Pirenópolis. Morava sozinha, na companhia de animais de estimação, dedicada à literatura e às artes plásticas. Ali escreveu Patife e Seus Amores (infantil), O Pároco (romance), ambos publicados, e Amor, Sombra e Subtração (romance), ainda inédito. Toniquinho, o gato de 19 anos, ficou no sítio porque vinha causando alergia à sua dona, mas ainda aguarda pelo seu retorno.Legado sob cuidados do IcebeEm atividade desde o início de 2020, o Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe) preserva o que restou do acervo do escritor em Goiás, livros, documentos, registros fotográficos e objetos, mas essencialmente tem a missão de manter viva a obra bernardiana e fomentar a cultura em suas muitas nuances, a ciência e a sustentabilidade ambiental. Com mais de 200 membros, não parou durante a pandemia da Covid-19, realizando desde então vários colóquios online. Seus membros preparam o lançamento de uma Antologia Cultural, que será lançada em novembro próximo, na abertura da quinzena dedicada ao escritor.Em 1996, Bernardo Élis decidiu vender para o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio, da Universidade de Campinas (Unicamp), a maior parte do seu acervo pessoal. “Aqui nunca houve interesse em se preservar esses documentos, alguns com mais de 50 anos”, justificou ele na época. São 1.600 manuscritos/ datiloscritos de livros do autor e 1.526 impressos, um conjunto de correspondências trocado com familiares e escritores como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina e muitos outros. Quase 600 fotografias, cartazes e desenhos integram o conjunto. Quando assumiu o Icebe, no final de 2019, Bento Fleury passou três meses fazendo a limpeza do sobrado e catalogando o acervo herdado da ACBEPC. Havia pelo menos seis anos que o espaço estava fechado. Por causa da poeira, de infiltrações e do mofo, cerca de 100 volumes da biblioteca de 3 mil livros deixada por Bernardo Élis foram parar no lixo. Muitas obras guardam dedicatórias de escritores renomados, que se tornaram amigos do goiano, como Jorge Amado e Monteiro Lobato. “Goiano de velha cepa”Advogado, professor, poeta, contista e romancista, dono de uma obra amplamente premiada em nível nacional, Bernardo Élis foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em outubro de 1975, desbancando o ex-presidente Juscelino Kubistchek. Ele foi o quarto ocupante da Cadeira 1 na Casa de Machado de Assis. Ao ser recebido, em dezembro daquele ano, ouviu do colega Aurélio Buarque de Holanda Ferreira: “Goiano de velha cepa, amais vossa terra em tudo, até nos animais, frutas e costumes vernáculos. Goiás é presença permanente em vossa obra .”Entre os livros que escreveu estão Ermos e Gerais (contos - 1944), Primeira Chuva (poesia-1955), O Tronco (romance-1956), Caminhos e Descaminhos (contos-1965), Veranico de Janeiro (contos-1966), <FI10>Caminhos dos Gerais (contos-1975), André Louco (contos-1978), Jeca-Jica, Jica-Jeca (crônicas-1986), A Terra e as Carabinas (novela- 1987) e Chegou o Governador (romance-1987). Sua obra é objeto de uma infinidade de ensaios literários e estudos acadêmicos e de produções audiovisuais.Em 1999, João Batista de Andrade levou para o cinema <FI10>O Tronco; em 1982, Fábio Barreto fez o longa-metragem Índia, a Filha do Sol, baseado no conto Ontem, Como Hoje, Como Amanhã, do livro Caminhos e Descaminhos; em 1989, Rosa Berardo inaugurou a presença feminina goiana no cinema com o documentário André Louco. A TV Brasil Central e a TV Alego realizaram documentários sobre a obra de Bernardo Élis. O corpo do escritor está sepultado no mausoléu da ABL, no Rio de Janeiro. Nilson Jaime, vice-presidente do Icebe, visitou o local e passou a liderar um movimento para trasladar seus restos mortais para Goiás. “Lá ele não é ninguém, não tem visitas”, justifica. Maria Carmelita já autorizou oficialmente, mas Nilson Jaime quer obter o aval também dos filhos antes de oficiar formalmente a ABL. Leia também:- Goiânia ganha trilha Chica Machado que liga parques Macambira Anicuns e Bernardo Élis- Em comemoração ao aniversário de 84 anos, O POPULAR lança e-book com 84 personalidades