O aumento do desemprego, provocado pela pandemia, fez crescer o número de pessoas que atuam na coleta de material para reciclagem. Em algumas cooperativas do ramo na capital, o número de famílias atendidas cresceu até 50% de março de 2020 para cá, mas elas conseguiram absorver só uma pequena parte desta maior demanda por renda. Isso porque apenas 5,5% dos mais de 28% de recicláveis que são produzidos nas residências são separados adequadamente e entregues para a coleta seletiva, segundo estudo da Prefeitura de Goiânia. Se mais famílias separassem seu lixo, haveria mais material para geração de trabalho e renda.A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) estima que o Brasil perde R$ 14 bilhões por ano com a falta de reciclagem adequada. Isso porque 12 milhões de toneladas de resíduos sólidos, acabam descartados no meio ambiente e aterros sanitários. Enquanto um aterro sanitário gera 1 emprego para cada 10 mil toneladas de lixo, a triagem manual de resíduos gera 350 empregos a cada 10 mil toneladas, ao invés de gerarem emprego e renda.Na Cooperativa de trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis (Cooper Rama), que existe desde de 2008, o número de família atendidas cresceu 20% após a pandemia, chegando a 38. “Mas só conseguimos atender metade dos que nos procuraram. Não temos condições de colocar mais gente. Se tivéssemos uma maior quantidade de material, poderíamos dobrar o número de beneficiados”, garante a presidente da Cooperativa, Dulce Helena do Vale. Segundo ela, hoje os catadores recolhem cerca de 80 toneladas mensais e recebem mais 20 toneladas da Coleta Seletiva da Comurg.Eles fazem a triagem, enfardam e vendem os recicláveis, como papéis, latas, plástico e sucata, para empresas que remetem o material para reciclagem nas regiões Sul e Sudeste. Segundo Dulce, o problema é que o preço dos materiais oscila muito. Nos primeiros meses da pandemia, o quilo do papelão passou de R$ 0,68 para R$ 1,50, o que chegou a proporcionar uma renda mensal de até R$ 2.200 por família. Agora, o preço recuou para R$ 0,70 e a renda média para R$ 1,2 mil. “As pessoas precisam se conscientizar de que a separação ajuda o meio ambiente e as famílias a sobreviver”, alerta.Júlio César Batista é um dos catadores da cooperativa. Ele recolhe material reciclável em condomínios, órgãos públicos e empresas. Atualmente, a renda de cerca de um salário mínimo que consegue é o único sustento da família. “É a quantidade de material que define nossa renda. Mas pouca gente separa o lixo e alguns ainda deixam material orgânico que contamina o que poderia ser reciclado”, diz.A presidente da cooperativa Carrossel, Lorena Zemir de Souza, conta que 30 famílias são atendidas hoje, um incremento de 50% em relação ao período pré-pandemia, com uma renda média de R$ 1,5 mil a R$ 1,8 mil mensais. “Mas só conseguimos atender 20% dos que nos procuraram pela falta de material”, informa. Até 80 toneladas são coletadas em condomínios e outras 60 são entregues pela Comurg. Depois de separado, o material vai para empresas da capital e até de São Paulo. “Com mais pessoas trabalhando, conseguimos até aumentar o volume de material recolhido”, garante.A cooperativa Seleta atende 15 famílias, que recebem cerca de 35 toneladas de resíduos por mês. “Antes, eram 80 toneladas. Com a queda no consumo, hoje está chegando menos material”, diz o responsável, Anivaldo Rodrigues de Sousa. Segundo ele, depois de cobertas todas as despesas da cooperativa, sobra menos de um salário mínimo para cada cooperado. “As pessoas precisam separar mais o lixo. Mas ainda temos a concorrência de pessoas que coletam para completar renda. Já teve gente querendo nos vender latinhas para pagar o IPVA de caminhonete, enquanto nós sobrevivemos disso”, conta.A assessora técnica da Diretoria Operacional da Comurg, Renata Gonçalves Moura, informa que 15 cooperativas recebem as cerca de 2 mil toneladas mensais de recicláveis recolhidas pelos 16 caminhões que fazem a coleta seletiva em toda cidade. Segundo ela, o volume recolhido pelo programa, que começou com projeto piloto atendendo apenas alguns bairros, cresceu muito nos primeiros anos, mas acabou estacionando depois. O custo do serviço é alto: o recolhimento é feito por caminhões locados pela Prefeitura, que tem como objetivo reduzir o impacto do lixo sobre os aterros sanitários. Renata garante que aumentar o material recolhido depende muito mais da mobilização social que da estrutura operacional do programa, que tem viés ambiental, econômico e social.“O recolhimento de materiais recicláveis é fundamental para a sustentabilidade da capital. São 25 mil toneladas de resíduos ao ano que são desviadas do aterro sanitário e da natureza e recebem a destinação adequada”, avalia do presidente da Agência Municipal de Meio Ambiente (AMMA), Luan Alves. EcoBarreira ajuda a limpar o Meia Ponte e gerar rendaO projeto de uma EcoBarreira, criado pelo geógrafo e ambientalista Márcio Manoel Ferreira para barrar a grande quantidade de lixo que corre pelo rio Meia Ponte, também ajuda a aumentar a renda dos catadores. Garrafas plásticas, latas de alumínio, recipientes de vidro e outros resíduos são presos numa espécie de rede para não descerem o rio. O professor explica que este lixo barrado pela EcoBarreira fica flutuando num único local e o material reciclável pode ser recolhido.A barreira é formada por galões de 50 litros (bambonas) que foram entrelaçados por redes de pesca recolhidas pela fiscalização contra pesca ilegal e doadas pelo Batalhão Florestal. “Pedimos o apoio da Agência Municipal de Meio Ambiente (AMMA) para instalarmos novas EcoBarreiras em outros rios da capital e também o fornecimento de equipamentos de proteção para que os catadores possam fazer o recolhimento com mais segurança, já que o rio é poluído”, informa. Como a EcoBarreira também está num local de difícil acesso para os catadores, Márcio Manoel também pediu à Saneago a liberação de uma área às margens do rio.O catador Francisco Laurentino dos Santos, que tem uma renda de cerca de R$ 800 mensais com o recolhimento de recicláveis, acredita que seja possível recolher entre 100 e 150 quilos por mês na EcoBarreira. “Se ela estivesse num local de mais fácil acesso, poderíamos recolher sempre o lixo e aumentar nossa renda”, acredita. O professor informa que as pessoas jogam até móveis e eletrodomésticos no Meia Ponte.A AMMA informou que está analisando a implantação de EcoBarreiras, que encontra-se em tramitação na Gerência de Educação e Políticas Públicas. “A matéria ainda será avaliada pelas áreas de gestão de resíduos sólidos, monitoramento ambiental e unidades de conservação”, disse a Agência. Em nota, a Saneago informou que a solicitação do professor Márcio está sob análise de viabilidade pela Superintendência de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Caso seja autorizada a instalação da EcoBarreira, ele será, imediatamente, comunicado.