O acordo Mercosul-União Europeia, que demorou 25 anos para se concretizar e que será assinado, oficialmente, neste sábado (17) pelos dois blocos, no Banco Central do Paraguai, deve impactar diretamente a economia goiana. A expectativa é que o estado possa incrementar suas exportações de produtos agrícolas, como soja, carnes e açúcar, e também comprar mais produtos que poderão ser importados com tarifa reduzida ou zerada, beneficiando o consumidor. Mas o maior benefício é a redução da dependência de outros mercados, como Estados Unidos e China.Um estudo feito pelo Insper Agro Global estima que, com a queda gradual das tarifas, os efeitos plenos do acordo sejam sentidos em até dez anos. A estimativa é de um aumento de até 7% nas exportações do Brasil para a União Europeia, enquanto as importações devem subir 10% depois deste período. Em Goiás, a Secretaria de Indústria e Comércio (SIC) prevê um incremento de até 30% nas vendas para o bloco. Um dos tratados assinados neste sábado já prevê a redução de tarifas.Atualmente, cerca de 90% dos produtos intercambiados entre os blocos estão sujeitos a tarifas de importação. Além de ampliar as exportações, a estimativa é que as importações com menos barreiras ampliem a oferta interna, estimulem a concorrência e reduzam os preços de produtos como vinhos, azeites, chocolates, queijos e outros industrializados, como cosméticos e automóveis. Para Anna Bastos, presidente da Câmara de Comércio Exterior da Associação Comercial e Industrial do Estado (Acieg), o acordo chega num cenário de maior importância da América do Sul no contexto geopolítico, com os EUA querendo mais influência na América Latina, e fortalece a União Europeia. Para ela, essa oportunidade de diversificar mercados é interessante para todos os segmentos, focando em produtos em que não há concorrência nos países europeus, para evitar nichos que motivam protestos por lá.“Podemos nos fortalecer por todos os lados, diante de desafios enfrentados nos mercados americano e chinês, como cotas estipuladas para a nossa carne”, aponta. Por isso, a nova abertura econômica é bem-vinda diante de um cenário onde países mais protecionistas se fecham com mais barreiras comerciais. Para Anna Bastos, são oportunidades de aumento de exportações brasileiras e de realização de investimentos. “Podemos exportar mais vários tipos de produtos, como frutas, castanhas e cachaça, que eles não têm lá. Não focar só em soja ou milho”, adverte. CompetitividadeEla ressalta que as empresas também precisam pensar na competitividade. “É preciso ter produto bom, com preço bom, para ter aceitação no mercado quando surgem estas oportunidades, e buscar certificações em busca de maior valor agregado em outros mercados”, orienta. E lembra que alguns produtos também terão cotas neste primeiro momento. “Também podemos pensar em joint ventures, que são parcerias comerciais que podem ser estabelecidas para investimentos por aqui. Empresas devem estar preparadas, com boa governança e regularizadas nas partes societária e tributária”, observa.O advogado doutor em Direito Constitucional e mestre em Administração de Empresas, Wellington Romanhol, tem escritórios no Brasil e em Portugal que trabalham com contratos internacionais, importação e exportação junto a empresas, produtores rurais e cooperativas. Para ele, Goiás será um dos estados mais beneficiados com o acordo. Entre os principais produtos impactados, estão a carne bovina, com aumento da cota de 10 mil para mais de 90 mil toneladas anuais. Outra vantagem, segundo o advogado, é que o acordo já prevê a regionalização de questões sanitárias. “Antes, se tivesse aftosa em algum lugar do País, todos os estados eram penalizados. Agora, só o estado que apresentar o foco terá restrições.”Outro ponto positivo é que, se a empresa ou produtor rural tiver toda a regularização sanitária no Brasil, já poderá se habilitar para exportação. “As instituições sanitárias daqui já serão qualificadas por lá e as instituições europeias reconhecerão essa creditação feita aqui”, destaca Romanhol. Ele prevê que a produção goiana de biodiesel também seja beneficiada pelo acordo, além de açúcar normal, açúcar orgânico e carne. “Vários produtos terão imposto de importação reduzido ou até zerado, com vantagem para café, soja e alguns produtos industrializados. Os limites serão liberados aos poucos à medida que os estados membros forem ratificando os acordos”, explica. A expectativa é de um aumento de US$ 35 bilhões de exportações do Brasil para União Europeia já a partir deste ano.Para o secretário de Indústria e Comércio de Goiás, Joel Braga, o mais importante para Goiás é aumentar exportações do agro, que foram impactadas pelo tarifaço americano, que permanece em alguns produtos. “Teremos um novo mercado de milhões de habitantes, que poderá comprar mais óleo de soja, carnes e produtos acabados nossos, como do setor de confecções”, prevê. Segundo ele, o aumento das exportações pode chegar a 30%.Por outro lado, há o benefício da abertura de fronteira para alguns produtos que podem ter o custo reduzido, como vinhos e queijos, onde não há tanta concorrência aqui. MedicamentosBraga acredita que o setor de medicamentos não deve ser prejudicado com a abertura maior das importações porque já tem uma indústria do genéricos consolidada para que seus produtos mantenham a competitividade, pois os importados ainda chegarão com alto custo. “Já somos um grande hub de distribuição de grandes laboratórios. Só em Aparecida são quase R$ 4 bilhões em medicamentos que vêm de outros locais”, destaca.Ele prevê que o ramo da mineração também pode ser ampliado com o acordo, com aumento da exportação de minerais com maior potencial de competitividade, como ouro, nióbio, níquel e bauxita, que ganham cada vez mais importância com a transição energética. O secretário enfatiza que produtos goianos como óleo de soja e carnes aumentarão sua competitividade com a abertura do Mercosul. Nesse contexto, ele ressalta o objetivo de ajudar pequenas e médias empresas a acessarem estes mercados.