Como estamos nos preparando para lidar com o desenvolvimento de modelos avançados de inteligência artificial generativa? A formação para o uso dessas inovações é analisada pelo psicanalista Jorge Forbes e pela diretora executiva e pelo coordenador científico do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Telma Woerle Soares e Anderson Soares, dentro do projeto IAí? – Um Olhar para a Inteligência Artificial, do Grupo Jaime Câmara (GJC), cuja proposta é ampliar as discussões sobre o tema ao longo dos próximos meses.Preparar para o uso de IA implica muitos desafios, indicam os pesquisadores. A inclusão digital começa por acesso a internet de qualidade e aos meios eletrônicos que permitem acesso às tecnologias de informação e comunicação, as chamadas TIC. No ano passado, 60 mil estudantes em Goiás não utilizaram a internet e 211 mil não possuíam telefone celular para uso pessoal, conforme Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, módulo Tecnologia da Informação e Comunicação, referente ao ano de 2022, divulgada nesta quinta-feira (9) pelo IBGE. Mas a pesquisa também revelou que Goiás tinha o quarto maior porcentual de utilização da internet nos domicílios do País, com 93,7%, atrás apenas do Distrito Federal (98,4%), de São Paulo (94,6%) e de Santa Catarina (94,4%).Além de infraestrutura, o uso de inteligência artificial exige aprender como explorar esse recurso e tem implicações éticas, como evidencia a propagação de fake news, o que alerta para a necessidade não apenas de domínio técnico, mas de conhecimento humanístico e senso crítico. IA demanda ainda envolvimento e criatividade.Desde o lançamento do ChatGPT, há um ano, a IA é apontada como a nova revolução tecnológica, aposta para melhorar a educação, elevar o padrão de vida e contribuir para a solução de problemas nos mais diversos campos, da saúde ao meio ambiente. Mas também surgem alertas sobre riscos que vão de ameaças à privacidade até ao domínio da humanidade. SubjetividadePara o psicanalista Jorge Forbes, um dos fundadores da Escola Brasileira de Psicanálise, presidente do Ipla (Instituto da Psicanálise Lacaniana) e diretor da Clínica de Psicanálise do Genoma Humano na USP, que participou do lançamento do projeto IAí?, no dia 4 de outubro, em Goiânia, há um descompasso entre o ensino e a época de transformações em que vivemos. “Eu faço uma paródia com uma frase que eu gosto muito do Hegel, que mais ou menos dizia que a arte é a representação sensível de uma ideia da época. A pergunta é: a educação representa essa nova época que a gente está vivendo? Não, do meu ponto de vista, não”, afirmou em entrevista coletiva a jornalistas do GJC. Isso porque, na sua visão, a educação está caminhando para o tecnicismo. “O que é o tecnicismo? É achar que é melhor para as pessoas a exclusão do subjetivo, a exclusão do erro, e transformar a comunicação humana em algo que, tirando o erro, fique asséptico. E aí eu tenho uma certeza, porque ela não é subjetiva, ela seria objetiva. Isso é o que a educação atual tenta, a meu ver, representar.”Trata-se, diz o psicanalista, de um “equívoco fundamental do que é a espécie humana, do que é o humano”, disseminado pelos Estados Unidos da década de 1990 ao ano 2000, quando se “entendeu que o avanço científico iria trazer a felicidade total ao homem, porque haveria remédio para tudo”. Forbes alerta que tentar resolver o problema humano na padronização, é “a morte do humano”. “O projeto da década do cérebro não deu certo. Agora, meus colegas que defendiam tanto essa ideia estão se vendo expelidos da própria medicina. Por quem? Pela inteligência artificial. Foram eles que propuseram. Foram eles que ensinaram aos seus clientes dizendo, não é a minha opinião, é o que a ciência diz aqui. É claro que era a opinião deles.”Ainda sofremos as consequências dessa aposta equivocada, constata o psicanalista, que apesar das ressalvas se confirma otimista com as inovações e com iniciativas como o projeto IAí?, porque “são prenúncios de uma mudança, de um alerta, dizendo, opa, não era por aí”.Jorge Forbes estuda, desde o advento da internet, mudanças na transição do ele chama de Terra Um para Terra Dois - de relações verticais, hierárquicas, de rígidos padrões, para outras horizontais, mais criativas e propícias ao subjetivo, o que pressupõe escolhas e responsabilidade.“Nós pegamos um mau caminho, pioramos a nossa situação. Então volta, reinclui a subjetividade, senão nós vamos ficar completamente por fora de Terra 2. Ora, o Brasil tem uma vantagem imensa, o brasileiro adora a variabilidade. Então eu tenho confiança nisso.”Para avançar nas possibilidades criativas de Terra Dois, Forbes vê dois caminhos. Um deles, o alerta racional de que “um cometa está caindo em nossas cabeças”, ou seja, as inovações, a IA, esse novo mundo é caminho sem volta e é preciso se inserir o quanto antes para não ser excluído das oportunidades. O outro, que como psicanalista diz preferir, é a via do desejo, com o convite a entrar na imensa rede de contatos e ser criativo. Uma questão de envolvimento. Estímulo à curiosidadeEnvolvimento é o que transparece em atividades de extensão para estimular o uso de tecnologias no ensino básico desenvolvidas pelo Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia) da Universidade Federal de Goiás (UFG). “As ações já realizadas provocaram nas crianças e adolescentes que participaram uma curiosidade maior sobre o que está por trás, por exemplo, de um smartphone, como os aplicativos são construídos, que ferramentas são necessárias, eles deixaram de ser apenas usuários”, comenta a diretora executiva do Ceia, Telma Woerle Soares.Uma das principais ações foi promover em Goiás a Olimpíada Brasileira de Robótica. Outra iniciativa é o treinamento de empreendedorismo para professores da rede estadual, para que eles levem isso para as escolas públicas, numa parceria com a Secretaria de Educação do Estado.Na Olimpíada, alunos do ensino fundamental e médio têm que desenvolver um robô e realizar uma missão no dia da competição, que é anual. “Isso ajuda as crianças a estimularem suas habilidades digitais, a criatividade, senso de equipe, por aí vai”, explica Anderson Soares, coordenador científico do Ceia. Em 2022, cerca de 40 estudantes participavam. Na edição de 2023, já chegavam a 400 participantes. No caso do treinamento de professores da rede estadual, os estudantes que tiveram aulas com esses professores participaram de um hackathon em duas edições da Campus Party. Nessa maratona de programação, eles têm que exercer exatamente as habilidades ensinadas de design thinking, que ajuda a pensar em ideias inovadoras para problemas conhecidos, e programar para fazer um protótipo da solução. “Os alunos vão lá, propõem uma ideia, fazem um protótipo básico e apresentam essa ideia, a gente faz uma competição”, descreve Anderson. Os vencedores nos três primeiros lugares recebem bolsa de iniciação científica. Também ganham bolsa os professores que orientaram aquelas equipes. “É uma forma de ajudar a disseminar no ensino básico as habilidades digitais, os produtos digitais, como pensar em resolver problemas”, diz ele.A diretora executiva do Ceia também aponta bons resultados, mas ressalta que o processo de inclusão digital precisa ser contínuo. “Ações em tempo determinado têm seu valor, mas se elas fossem de forma contínua nas escolas, teríamos um efeito maior na sociedade nesse processo inclusivo e de treinamento de habilidades de computação, digitais, cada vez mais necessárias no dia a dia”, propõe.Ponta da pirâmideEm relação a inteligência artificial, Telma menciona como competências mínimas fazer bom uso do computador, aprender a programar, a usar diferentes ferramentas, saber lógica, matemática, preparar-se para ser um bom usuário das ferramentas digitais que já existem.Anderson lembra que, apesar de se falar muito em inteligência artificial, isso é a ponta de uma pirâmide. “Existem várias camadas para ajudar isso a acontecer. Dentre elas, o próprio desenvolvimento das habilidades digitais, desde o ensino fundamental, nos cursos superiores de outros tipos de competências, como humanidades e biológicas, e por aí vai.”Ele observa ainda que hoje, ao acessar um vídeo em alguma plataforma online, vão aparecer lá diversas sugestões do que assistir. Ou seja, inteligência artificial tentando aumentar o engajamento.“A era digital já alterou muito a educação. Você não depende mais de ir numa biblioteca, pegar um livro e ver o conteúdo, ele está na palma da mão de quase todo mundo. Mas, ao mesmo tempo, faz com que a gente tenha que desenvolver um senso crítico acerca dessas informações que estão aí distribuídas no mundo digital”, discorre.Anderson ressalva que não é que todo mundo tenha que fazer tecnologia, mas afirma que serão exigidas habilidades digitais do jornalista do futuro, do advogado do futuro, do médico do futuro. Sem isso, serão profissionais pouco competitivos, comparados aos que dominam ferramentas digitais, completa. Fake newsUma grande implicação relacionada ao uso de inteligência artificial é o aumento da disseminação de fake news, alerta Telma. As ferramentas de IA permitem a geração de vídeos falsos, exemplifica ela, com inserção de pessoas em locais onde elas nunca estiveram, e isso faz com que as pessoas percam a percepção de realidade. “Cada um passa a construir a sua própria verdade e esse é um ponto que precisa ser trabalhado, as pessoas precisam buscar fontes de notícias que sejam confiáveis”, orienta Telma.Na mesma linha, Anderson discorre que, até pouco tempo, uma imagem, um vídeo, um áudio eram prova incontestável sobre algo que aconteceu. “Com o advento da IA generativa, isso não é mais verdade. Você consegue gerar um vídeo falso, você consegue gerar um áudio falso, você consegue gerar uma imagem falsa.”Embora fake news sempre tenham existido na história da humanidade - “basta a gente se lembrar da história do leite com manga, se comer, morre...” - agora, no mundo digital, ela se propaga rápido, compara ele. “Mas também acho que é uma oportunidade porque a informação e a correção da notícia falsa também podem se propagar rápido.”Para o diretor do Ceia, as crianças precisam ser ensinadas desde cedo a ter senso crítico e discernimento para ver que não é porque está escrito que é verdade. “É uma penetração muito mais profunda do que a gente imagina, não é só quem gosta de tecnologia, não é só quem quer seguir carreira tecnológica, mas vira um instrumento básico dentro da sociedade e a gente tem que se preparar para isso”, salienta.Exclusão digitalQuanto menor a renda familiar, mais difícil é a absorção de conteúdos digitais. Essa é a percepção do diretor do Ceia, a partir das ações feitas em escolas públicas. Segundo ele, uma criança que nasce em classe média baixa, ou classe C, classe D, às vezes ainda tem contato com o smartphone, com o computador, então a barreira é um pouco menor. Mas, à medida que se avança para classes de menor renda, a barreira é muito grande, constata. “Eventualmente, a gente encontra pessoas que não sabem sequer ligar um computador ou mesmo operar um smartphone, isso é uma grande dificuldade”, situa. “E são exatamente essas pessoas que mais precisariam de uma atualização para exercício de uma profissão, porque em todas elas hoje se precisa de certo nível de domínio de tecnologia.”Outra dificuldade é de infraestrutura, cita Anderson. “Houve uma distribuição de tablets durante a pandemia na rede estadual, mas isso precisa ser mais constante, porque eu sei que é caro fazer isso, mas é necessário, dado o mundo que está emergindo na sociedade. Toda escola precisaria ter um laboratório de informática com uma internet de boa qualidade, esse é o básico para a gente começar”, recomenda.Ensino superior A UFG foi a primeira universidade pública do país a oferecer o curso superior em inteligência artificial, um dos melhores do Brasil, o que contribui para que Goiás avance em educação nessa área e pode ter reflexos em outros níveis do ensino no estado. “Goiás vai colher frutos por muitas décadas dos resultados, até então, excepcionais dessa iniciativa em 2019, que basicamente envolveu o estabelecimento do Centro de Excelência em IA, a partir de outras iniciativas menores, e, ao mesmo tempo, a criação do Bacharelado em IA”, projeta Anderson.Apesar de ser de exatas, o curso apresenta baixa evasão, os alunos conseguem empregos valorizados e já saem bem inseridos no mercado de trabalho, informa o coordenador científico. Entre os 60 projetos desenvolvidos pelo Ceia, consta um protótipo de uma ferramenta para o Ministério da Educação para combate à evasão escolar, em que a inteligência artificial aponta, de forma antecipada, quais alunos vão evadir. Nessa plataforma, foi feito um piloto em seis universidades, dentre elas a UFG, que apontou que cerca de 25 % a 30 % da evasão pode ser evitada de uma forma bastante eficiente. A ferramenta ganhou prêmios internacionais e agora está na fase de se expandir para a rede federal de ensino.“Com isso, é possível fazer um trabalho de retenção antes que entre numa rota irreversível do abandono escolar pelo aluno. Claro que alguns casos são difíceis de reparar, têm questões emocionais envolvidas, não gostou da profissão, mas uma boa parte dos casos são reversíveis, sim.”