O orçamento das famílias foi ficando cada vez mais pressionado por tantos aumentos generalizados de preços em 2020 e 2021. Para conseguir acomodar tantas despesas dentro de uma receita que praticamente não mudou, muita gente precisou rever hábitos e fazer readequações, como mudar de casa para ficar mais perto do trabalho e economizar combustível, trocar a escola dos filhos, optar por marcas mais baratas e reduzir passeios e idas ao restaurante. Isso resultou em verdadeiras mudanças de estilo de vida, mesmo que temporárias, até que haja um novo cenário mais favorável na economia.Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que calcula o impacto da inflação por faixa de renda, mostram que a alta no custo de vida foi maior sobre as classes média e média baixa. Segundo a pesquisa, as principais pressões para os grupos de renda mais elevada vieram do grupo transportes, por conta dos reajustes da gasolina e do etanol. Já para as famílias de baixa renda, a pressão maior veio do grupo habitação, puxado especialmente pelas altas da energia elétrica e do gás de botijão.A família da vendedora Valquíria Cardoso de Barros trocou o apartamento próprio por uma casa de aluguel em outro bairro para ficar mais perto do trabalho e reduzir o gasto com combustível para ir e voltar do trabalho diariamente. “Com o dinheiro do aluguel de lá, pago o daqui”, conta. Agora, ela e o irmão moram em duas casas num mesmo lote e, assim, passaram a compartilhar também a internet e até uma faxineira. Para reduzir o gasto com energia elétrica, que dobrou depois dos últimos reajustes, Valquíria conta que hoje evita ao máximo ligar o ar-condicionado e até bloqueou a temperatura do chuveiro na função ‘verão’. “Nos dias mais quentes, assistimos à TV na área para não precisar ligar o ar dentro de casa. A energia foi o que mais pesou”, diz ela, que também trocou a escola particular do filho pelo ensino público para se livrar do peso da mensalidade. A vendedora completa que também trocou marcas mais caras por outras mais baratas e passou a consumir apenas as frutas da estação, que estão em promoção nos supermercados. “Esta inflação fez a gente mudar de vida mesmo”, avalia. Com todas estas medidas, Valquíria estima que esteja conseguindo economizar cerca de R$ 1,5 mil mensais para manter o orçamento sob controle.PreçosO Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2021 com alta de 10,3% em Goiânia. Mas vale lembrar que o goianiense passou a pagar 56,5% mais pelo transporte por aplicativo, 54% mais pelo etanol e 46,7% mais pelo litro de gasolina. Além disso, o botijão de gás subiu quase 40% e a energia elétrica ficou 21,7% mais cara. Até o preço do cafezinho de todo dia subiu 47,4%. Isso depois que a carne também ficou bem mais escassa no prato.O economista e mestre em Finanças Marcos Antônio Teodoro lembra que o que mais tem afetado o orçamento das famílias são os gastos com moradia, alimentação e transporte. “São aumentos que corroeram o poder de compra porque a renda, tanto de autônomos, quanto de assalariados, não acompanhou tudo isso. Hoje, para encher o tanque do carro, a pessoa gasta 30% do salário mínimo”, destaca. Com isso, as classes média e baixa são as mais afetadas. “Mas até os mais ricos também tiveram que, pelo menos, rever projetos”, avalia.Para ele, os efeitos da pandemia apenas maximizaram muito uma situação que já estava difícil. Por isso, as readequações que estão sendo feitas hoje por muitas famílias são importantes. “As finanças envolvem três variáveis: organizar, planejar e controlar. Se a renda caiu e os preços subiram, é preciso rever hábitos para se ajustar a esta nova realidade”, alerta o economista. Entre as opções para cortar despesas, ele cita a maior busca por promoções em supermercados, redução do número de veículos na garagem, o corte dos pedidos de comida por aplicativo e a troca de planos de saúde ou de telefonia móvel.Mas, para que as readequações feitas tenham um bom resultado, é importante o envolvimento de toda a família no processo, como explica a psicóloga, com especialização em Neuropsicologia e Terapia Cognitiva Comportamental, Rosemeire Meza dos Santos Oliveira. Para ela, mudanças feitas pela vendedora Valquíria, por exemplo, exigem que a pessoa saia de sua zona de conforto para encarar uma nova realidade. “A pessoa tem duas opções: sentar e chorar ou criar estratégias para passar por este momento da melhor forma possível”, destaca.Por isso, as mudanças precisam envolver todos os membros da família, incluindo as crianças, sem poupar ninguém. “É preciso encarar esta nova fase como uma oportunidade de aprendizado, que pode resultar num bom crescimento pessoal para todos”, adverte Rosemeire. Ela sugere que as decisões sejam tomadas em grupo, onde todos possam dar sugestões de estratégias e dizer o que cada um pode fazer para ajudar neste projeto conjunto.Assim, todos se responsabilizam por fazer aquilo dar certo. “Quando apenas um determina o que deve ser feito, a possibilidade de problemas é maior”, alerta a psicóloga. Segundo ela, é muito importante que todos entendam que esta é uma situação transitória e que poderá passar bem mais rápido se houver o envolvimento conjunto na solução. “É encarar este novo momento de peito aberto a novas possibilidades, sem perder energia pensando só nas perdas.”Endividamento deve ser reduzido o quanto antesA inflação de dois dígitos que corroeu a renda e provocou grande aperto no bolso também levou muita gente de volta às listas de endividados em 2021. Muitos consumidores que tinham conseguido pagar as contas em atraso e sair das listas de proteção ao crédito voltaram a ficar inadimplentes. É o que mostrou uma pesquisa nacional da Boa Vista, empresa especializada em análise de crédito: 64,3% dos inadimplentes que haviam renegociado dívidas em 2020 voltaram a atrasar seus compromissos financeiros no ano passado. Foi o que aconteceu com a trabalhadora autônoma Tanea Aparecida Pereira de Queiroz.Ela lembra que havia conseguido controlar bem o orçamento e estava com todas as contas em dia no início de 2021. “Mas, ao longo do ano, tudo foi ficando cada vez mais caro e as coisas fugiram do controle, pois minha renda de R$ 2 mil permaneceu a mesma e até caiu em alguns meses”, destaca. Hoje, ela está com faturas de internet e de celular em atraso, além de estar inadimplente com parcelas de compras feitas numa loja de roupas ainda em outubro do ano passado. “O dinheiro está cada vez mais curto. Tive que deixar de usar marcas líderes de produtos como sabão em pó e arroz para gastar menos, estou sempre em busca de promoções e reduzi muito a compra de supérfluos, como sorvetes e chocolates”, conta.Depois de perderem uma bolsa que tinham num colégio particular, os dois filhos de Tanea também foram para a escola pública. “Ou estuda num colégio particular ou come. As duas coisas não dá”, diz.Para o economista Marcus Antônio Teodoro, não adianta cortar gastos e ficar com dívidas, que consomem muito o orçamento, como usar o cheque especial e deixar de pagar a fatura total do cartão de crédito, que têm juros abusivos. “Não significa passar necessidade, mas se reorganizar, ou seja, ajustar seus gastos a uma nova realidade de orçamento”, destaca.Ele alerta que um dos maiores erros do brasileiro é “comprar despesas e vender receita”. Isso acontece, por exemplo, quando a pessoa compra um celular de R$ 5 mil e, para isso, faz um parcelamento que compromete boa parte de sua renda mensal, ou seja, compra uma despesa a mais para a família. “Se ela investisse este gasto adicional a uma taxa anual de 10%, poderia comprar um aparelho novo ao final do período e ganharia nos juros, ou seja, geraria mais receita ao invés de apenas aumentar sua despesa mensal. Ela vai comprar ativos que vão se transformar em renda”, explica. Por isso, é sempre melhor comprar receita, ou seja, aquilo que vai ajudar a colocar mais dinheiro no bolso, e não aumentar despesas.