No dia 29 de setembro de 1987, quando surgiu a suspeita de contaminação e de que a fonte era um equipamento deixado na Vigilância Sanitária, o físico nuclear Flamarion Barbosa Goulart era a única pessoa com acesso em Goiânia a um medidor de radiação. Desde o primeiro momento, foi aos locais contaminados, isolando áreas, identificando pessoas que deveriam ser levadas para o Estádio Olímpico, onde ficaram acampadas em uma situação deprimente, como ele próprio define. Na primeira semana, após o acidente se tornar público, não conseguiu sequer dormir, mergulhado naquele turbilhão. Depois, o físico nuclear foi condenado pela Justiça como um dos responsáveis pelo acidente, junto com os médicos Criseide de Castro Dourado, Carlos Bezerril e Orlando Teixeira.Césio 137: acesse especial sobre os 30 anos do maior acidente radiológico do mundo ocorrido em GoiâniaTrês décadas depois, Flamarion recebeu a equipe do POPULAR no Hospital Araújo Jorge, onde é supervisor de radioproteção, e falou sobre impacto do acidente em sua vida.O que realmente aconteceu naquele 29 de setembro de 1987?Eu recebi o telefonema de um colega físico, o Walter Mendes, que trabalhava antes de mim na Associação de Combate ao Câncer de Goiás (ACCG), e ele me disse que havia um pessoal apresentando sintomas de contaminação radioativa. Ele perguntou se eu tinha um equipamento para fazer essa medição, porque havia um objeto na Vigilância Sanitária e o pessoal estava desconfiado de que fosse ele que estava emitindo radiação. Então, peguei o Geiger-Müller, monitor de área da Associação do Serviço de Radioterapia do Hospital Araújo Jorge, e confirmei que a peça emitia radiação.Havia muita radiação?Tinha radiação na peça, sim. Eu fui com o pessoal da Vigilância no local onde a peça estava e foi aberta para ver se tinha contaminação e realmente encontramos muito material, muito papel contaminado, chão contaminado, pessoas contaminadas com radiação. Aí decidimos levar todo mundo que estava contaminado para o Estádio Olímpico e assim fomos fazendo.Vocês refizeram o caminho da cápsula?Sim, o pessoal indicava: “Fulano que estava aqui mora em tal local” e então íamos àquele lugar para ver se tinha contaminação.Como foi o contato com a Leide das Neves?Eu estava caminhando para a casa do pai dela, o Ivo, porque tinham indicado que ele havia levado um pouco do material para lá. A gente ia conversando, pedindo informações e ia atrás. Quando eu desci do carro e estava indo para a casa do Ivo, o monitor estourou a escala e eu achei que fosse um pouco do material que estava no chão. Eu medi o chão e não havia nada. De repente, a escala estourou de novo. E eu fiquei intrigado, pensando no que estava acontecendo. Foi quando eu percebi que quando aquela menina passava perto de mim, a escala estourava. Eu medi a menina e ela realmente estava apresentando uma dose muito alta de radiação.Porque ela tinha ingerido o césio?Eu perguntei e me disseram que ela havia brincado com o material que o pai dela trouxe. Foi então que vimos que ela estava com um índice muito alto de contaminação, talvez a que estivesse com o maior índice. Aqui deu um desespero danado na gente, não sabíamos o que fazer. Já encaminhamos e pedimos auxílio médico.Por que o senhor diz que “deu um desespero”?Porque a gente não sabia o que fazer com aquela pessoa. Só sabíamos identificar onde tinha radiação, cercar a área e isolar o pessoal que estava contaminado. Porque há uma diferença muito grande entre as pessoas contaminadas e as que ficaram expostas. A exposição à radiação do césio não tem problema nenhum porque é uma radiação gama normal para tratamento e aquele equipamento, que era bem antigo, já emitia uma radiação baixa. Mas a contaminação, que era pelas radiações alfa e beta, essa sim, é muito perigosa. Por isso ficamos muito preocupados com o pessoal que estava contaminado. Eu mesmo fiquei exposto muitas vezes porque fiquei andando naquela área e não tive problema nenhum.Mas o senhor não temeu por sua vida, por sua segurança?Eu tinha pouco conhecimento porque não tínhamos experiência em acidentes nucleares e, de certa forma, somos treinados, quando fazemos Física Nuclear, a lidar com alguma coisa parecida. Mas não daquela forma, daquela forma foi inusitada. Mas o bom senso sempre me direcionava. Eu não podia tocar, não podia encostar meu equipamento em nada, e tinha de isolar uma certa distância do foco contaminado. Eu não podia tocar no pessoal contaminado, tinha de indicar que eles tinham de ir para o Estádio Olímpico, mas de uma forma que não assustasse esse pessoal. Porque a Leide realmente ficou muito assustada, tivemos de tratá-la com muito carinho, conversar direitinho com ela.Creio que os familiares dela também.Todo mundo ficava muito assustado com o que estava acontecendo, sem saber o que era. E nós não tínhamos nenhuma experiência em falar com esse pessoal. Eu tinha quatro anos de formado.E como era dar a notícia para essas pessoas de que elas teriam de deixar suas casas?Tivemos uma ajuda grande do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar. Com muito cuidado e conversando com as pessoas, íamos isolando as áreas. Isso foi bem no início, ainda não tínhamos apoio de ninguém da CNEN. Conseguimos manter uma calma. Não sei explicar por que conseguimos manter esse clima de calma entre os profissionais que estavam trabalhando e as pessoas em geral, que íamos selecionando. Não sei se o momento fez com que ficássemos daquela forma.O senhor acabou envolvido com essa situação durante vários dias?Fiquei no mínimo uma semana. Esperei o pessoal da CNEN chegar, passei tudo aquilo que eu já havia feito para eles, trabalhei com eles durante um bom período. Depois eu não aguentei mais continuar trabalhando. Já tinha uma semana que eu não dormia. Aí eu parei e deixei por conta deles. Já tinha muita gente.O senhor chegou a perder pneus de carro, sapatos...Sim. Nós andávamos por lugares que íamos monitorando e não sabíamos o que iríamos encontrar. Perdi uns três pares de sapato. Quando chegávamos ao nosso QG, fazíamos o monitoramento. Sapatos contaminados eram descartados. Perdi também quatro pneus porque eu rodava com meu carro. Eu não tinha ninguém, tinha de pegar o meu carro e ir.Como o senhor descreveria essa semana em que o senhor dedicou todo o seu tempo ao acidente?Experimentei uma coisa totalmente nova. Eu sabia que era grave e também sabia que eu tinha de fazer alguma coisa porque era o único que sabia alguma coisa naquele momento. Eu era o único que tinha uma ferramenta para medir aquela radiação. A radiação não tem cheiro, não é visível, não tem cor. Então as pessoas não sabiam o que eu estava lendo ali, o que eu estava fazendo com aquele aparelho. A primeira semana foi de muita apreensão para mim, tanto é que eu não conseguia dormir. Era dia e noite trabalhando com as pessoas. Eu acho que todos, tanto os policiais como os bombeiros, trabalharam muito nesses dias. Todo mundo ajudou. Depois foi chegando o pessoal da comissão (CNEN), muitos também não tinham experiência com isso, muitos técnicos não sabiam como lidar com aquela situação, eram técnicos mais teóricos, não eram de campo. Quando aconteceu tudo isso, aprendemos muita coisa juntos, na hora, no momento. A equipe do Donald (Binns, da CNEN), que chegou aqui, mais treinada. Fomos aprendendo e tocando o barco. Mas foi muito tenso. Não tínhamos tempo para mais nada. Quando sabíamos de qualquer coisa, íamos averiguar. E, mesmo nos locais lacrados, às vezes as pessoas achavam que não era nada e entravam. Como foi o caso do depósito de papel. Pedimos para não sair mais papel daquele local e o dono mandou material para fazer papel higiênico.Algum episódio foi mais marcante para o senhor?Marcou muito quando eu passei pela Leide das Neves e também quando eu estava voltando de Anápolis, onde fui verificar se havia papel contaminado, e havia. Voltando de lá, liguei o baby line e constatei que o caminhão (de papel) que pedimos para não sair estava na estrada. Fiquei muito desgostoso com a situação, porque estávamos pelejando precariamente e tinha gente que achava que não era nada, que era brincadeira. Também me marcou muito a situação no Estádio Olímpico, vendo aquele pessoal acampado lá dentro. Aquilo era deprimente.Que sentimento o senhor tem hoje em relação a isso?Eu tenho o sentimento de dever cumprido. Fiz o que eu pude, o máximo que eu pude, e cheguei a inovar em coisas que eu não sabia como resolver. E me saí bem.Por exemplo?Por exemplo: aprender a cercar as áreas, ver o limite que eu poderia deixar ali. Eu sabia os locais onde a radiação já não era mais problema, onde não havia material radioativo ou onde a radiação já era background, podia pôr uma cerca ali.Ou seja, aprendeu fazendo.Fui inovando ali, naquele momento. O que eu podia fazer eu fiz. E nunca, nunca tive nenhum sentimento de culpa porque nunca fui culpado por aquilo.Mas o senhor foi uma das pessoas responsabilizadas pela Justiça. Por que o senhor acredita que isso aconteceu?Primeiro eu vou dizer por que eu não tenho culpa. Eu não tenho culpa porque qualquer um que tiver acesso às diretrizes básicas de radioproteção que eram vigentes na CNEN naquela época vai ver que os responsáveis pelo equipamento são os donos e eu nunca fui dono. Segundo: eu nunca tive vínculo empregatício com o IGR; eu prestei serviços para aquela empresa. Sempre fui empregado do Hospital Araújo Jorge, desde 1984. Foi o único lugar onde eu trabalhei na minha vida. E eu nunca encostei um dedo naquele equipamento. Quando fui prestar serviço para o IGR, aquele equipamento (de césio) não estava sendo utilizado, era uma sucata que estava num canto. Eles tinham um equipamento de cobalto e foi nesse equipamento que eu prestei serviço. Naquela época não havia nenhuma norma da CNEN dizendo que o físico era o responsável por todo o equipamento da clínica.Isso mudou?Hoje é diferente. A primeira providência que a CNEN tomou depois do acidente foi criar outras normas. Entre elas, criou-se o cargo de supervisor de radioproteção e hoje toda clínica que trabalha com radiação ionizante tem de ter um supervisor de radioproteção contratado e ele é responsável por todo o material radioativo. Eu sou supervisor de radioproteção da primeira turma da CNEN, meu título é número 030. Hoje eu sou o responsável por todo equipamento que emite radiação dentro do Hospital Araújo Jorge. Tenho de prestar contas à Comissão Nacional de Energia Nuclear, não é nem para meu empregador.Por que o senhor acredita que foi colocado entre os responsáveis?Porque eu era o único físico que entendia de radiação ionizante naquela época atuando aqui em Goiânia e porque eu trabalhava com a equipe. A CNEN tinha de cobrar alguém. Houve displicência da CNEN? Não sei. Sei que o pessoal trabalhava sem nenhum físico contratado.E de quem era a responsabilidade de fiscalizar esse equipamento desativado?Quem fiscalizava naquela época era a Comissão Nacional de Energia Nuclear, que tinha um departamento próprio para fiscalização de todo o material e de todas as clínicas que trabalhavam com radioterapia no Brasil. Até onde eu sei, e pode pesquisar, esse departamento foi desativado.Antes do acidente?Antes do acidente esse departamento já estava desativado. O Donald (Binns) confirma isso. Depois que aconteceu o acidente, a CNEN passou o direito e a obrigação de fiscalização dessas clínicas para todas as Vigilâncias Sanitárias. Hoje o Serviço de Radioterapia do Hospital Araújo Jorge é fiscalizado pela Vigilância Sanitária Municipal, pela Vigilância Sanitária Estadual e pela própria Comissão Nacional de Energia Nuclear.No início do acidente o senhor foi uma das pessoas que mais ajudou, teve um papel fundamental, mas acabou sendo culpado pela Justiça. Que sentimento o senhor tem em relação a isso?Antes eu até fiquei muito revoltado porque eu nunca passei por nenhuma situação constrangedora de mexer com Justiça, nunca tive problema com a Justiça. Fui chamado à Câmara Municipal para prestar depoimento. Isso me assustou muito. O pior: eu nunca tive dinheiro para pagar um advogado para me acompanhar. Eu fui defendido pelo advogado do grupo (de médicos do IGR). Físico naquela época era um subempregado dos radioterapeutas. A CNEN obrigava a ter um físico, mas poucos serviços tinham um físico contratado.O físico não tinha as atribuições nem a remuneração que tem hoje?Não, de jeito nenhum. Hoje temos físicos especialistas, supervisores de radioproteção. Para ter uma ideia, hoje, aqui no Hospital Araújo Jorge, temos um curso formador de especialistas em Física Médica há mais de dez anos. Nesse aspecto, mudou muito, e para melhor. Antigamente não havia cursos em faculdade de Física Médica, hoje existem, inclusive na UFG e na UFU, de Uberlândia (MG). Hoje eu não posso ter nada no meu nome.Por causa de ações de indenização?Sim, ações de indenização. Estou cansado de escutar as pessoas dizerem que eu sou culpado por isso aí. Eu já estou com 60 anos e até hoje eu tenho de escutar isso? Principalmente eu, que nunca fui dono, nunca fui contratado, era um subempregado. Para aliviar a situação da Comissão Nacional de Energia Nuclear eu fui sacrificado. Eles queriam jogar toda a culpa sobre os proprietários, mas eles também não eram culpados por tudo. Cada um tem uma parcela de culpa. Menos eu. A CNEN porque não fiscalizou; os donos porque relaxaram de alguma forma; o Estado porque era dono do prédio (onde estava o equipamento) e não fiscalizou o local, não teve vigilância. Agora, um físico que prestava serviços lá, que nunca tinha mexido com aquele equipamento, tem de arcar com alguma coisa, tem alguma culpa mesmo sem ter tido nenhum contato com aquela máquina? Muitos colegas me questionam e eu falo que era muito jovem na época e tinha um senso de equipe diferente. Para mim, equipe tinha de estar reunida e eu fiz a minha parte. Quem pegou não teve culpa? Não acho e nunca achei que algum acidente de grande proporção acontece por um motivo só. É uma série de eventos, que acaba virando uma hecatombe. Só não aceito essa culpa.O senhor tem a consciência tranquila?Eu sinto que a minha parte eu fiz para ajudar as pessoas. E paguei caro sem dever, sem nunca ter devido.O senhor gostaria de acrescentar alguma informação?Acho muito importante deixar claro que a Associação de Combate ao Câncer e o Hospital Araújo Jorge nunca tiveram nada a ver com a clínica radiológica, mesmo com os profissionais trabalhando lá e aqui. O Hospital Araújo Jorge sempre nos tratou muito bem, respeitando-nos como profissionais. A Associação de Combate ao Câncer é íntegra.