Ser campeão goiano por uma equipe do interior não é tarefa fácil. No Goianão, que chega a sua 80ª edição em 2023, apenas cinco clubes de fora da capital conquistaram títulos. Crac (único bicampeão), Anápolis, Goiatuba, Itumbiara e Grêmio Anápolis ergueram o troféu.Em comparação com o total de títulos da competição, as equipes do interior goiano só venceram o Estadual em seis ocasiões, o que representa 7,5% dos títulos das 79 edições da competição.Leia também+ Campeões do Goianão desfrutam de projeção e status+ Inhumas estreia contra o Anápolis, e Goianésia recebe o Crac+ Vila Nova x Goiânia: times iniciam Estadual de olho em fim de jejum+ Confira a tabela de jogos do Goianão 2023“Até hoje, quando vou para Catalão, sou reconhecido pelas pessoas, é legal. Conquistar um título por um time do interior é mais valorizado por ser mais difícil. O poder de investimento dos times da capital é muito maior, não tem comparação. Por isso, quem é campeão por time do interior fica na história. Não só no campeonato, mas nas cidades que costumam ter o futebol como principal entretenimento”, opinou o ex-meia Cacá, que integrou o elenco do Crac na campanha do título de 2004, o segundo do clube na história. O Leão do Sul também foi campeão em 1967 e é o único bicampeão goiano entre os times do interior.A primeira conquista de uma equipe do interior no Goianão ocorreu em 1965. O Anápolis foi campeão do Estadual disputado no formato de pontos corridos.Segundo a atual diretoria do clube, o meia Zezito é o único campeão pelo Galo da Comarca que está vivo. O ex-jogador, no entanto, sofreu um AVC e se recupera em um hospital.Ao POPULAR, em 2018, Zezito contou que um fator positivo para a conquista do título foi o envolvimento entre clube e a população de Anápolis.“O time, a comissão técnica, a nossa diretoria e a torcida se juntaram. Não ganhávamos dinheiro, mas jogávamos por amor e prazer”, contou, à época, Zezito, que era centroavante, mas atuou como ponta direita, pois o Galo da Comarca já tinha o goleador Nelson Parrilla. “Eu me lembro que o Caxambu (técnico) acreditava em mim e, aí, pediu para que eu mudasse de posição. Aceitei e deu certo”, falou o ex-jogador.O mais recente campeão pelo interior foi o Grêmio Anápolis. A Raposa, nos pênaltis, derrotou o Vila Nova, em pleno OBA, na temporada de 2021.“Ser campeão goiano por uma equipe do interior realmente é muito mais complicado porque a diferença de estrutura é gigantesca em relação às equipes da capital. E ainda temos a questão financeira, muito determinante no desempenho de cada equipe. Ter esse privilégio de ser campeão goiano por uma equipe do interior torna muito mais especial”, disse Igor Milioransa, que jogou 10 dos 16 jogos da campanha do Grêmio Anápolis.Todos os jogos dos títulos de clubes do interior foram conquistados diante dos principais times do Estado: Anápolis, Grêmio Anápolis e Crac (em 2004) venceram o Vila Nova, o Goiás foi superado por Goiatuba e Itumbiara, já o Atlético foi derrotado pelo Crac em 1967.“O Campeonato Goiano é extremamente competitivo. O que eu observo de diferente é que o futebol goiano absorve muitos atletas do futebol carioca e paulista, que elevam a qualidade do jogo. São jogos bem jogados, os clubes dão condições para desenvolver bons trabalhos. Futebol goiano é bem visto e é um dos principais campeonatos do País, não deixa nada a desejar em relação a outros estaduais”, afirmou o ex-atacante Pirata, campeão goiano pelo Goiatuba em 1992.LembrançasSer campeão é fazer e ter história para contar. No Goianão, carreatas, aposta e momento torcedor foram algumas das histórias que ficaram guardadas para campeões estaduais.O ex-zagueiro Henrique, que foi campeão goiano pelo Itumbiara em 2008, se recorda da aposta feita com o ex-prefeito Zé Gomes, que morreu em 2016. “Não esqueço a aposta que o elenco fez com o Zé Gomes. Ele disse que a gente não ia ganhar do Goiás e daria R$ 600 mil se a gente ganhasse. Pedimos R$ 1 milhão e ele teve de pagar”, contou, aos risos, o hoje diretor de futebol do Audax Rio.Titular em boa parte da campanha do título do Grêmio Anápolis, Igor Milioransa foi ausência nos jogos da semifinal, contra o Atlético-GO, e final, diante do Vila Nova, por lesão.“A principal lembrança são as penalidades na semifinal e final contra Atlético GO e Vila Nova. Eu, infelizmente, não pude participar por conta de uma lesão, então fui mais um torcedor ao apoiar e acreditar nos meus companheiros. Foram momentos de muita tensão, nervos à flor da pele, mas também de muita alegria, que nunca esquecerei”, lembrou o jogador, que atua, hoje, no Académico de Viseu, de Portugal.Campeão pelo Crac em 2004, Cacá lembra que só foi jogar no time de Catalão depois de uma conversa com o então treinador do clube, Vanderlei Paiva.“Eu tinha um pré-contrato com o Vila Nova. O Vanderlei Paiva foi meu treinador no Vila, Gama e Anapolina. Onde ele estava, me levava. Ele foi à minha casa, disse que não era para a eu ir para o Vila e me pediu para ajudar no Crac. Fui, cheguei no meio do campeonato e fui campeão em cima do Vila. Me declarei vilanovense na final. Se tivesse perdido, seria sacrificado em Catalão. Ainda bati um pênalti e marquei um gol na decisão”, contou o ex-jogador, que, com o elenco do Crac, saiu em carreata pela cidade de Catalão depois de vencer o Tigre nos pênaltis.Algo comum entre os campeões pelo interior é o respeito às equipes da capital, mas também as lembranças de confiança. Frases como “nós sabíamos que era possível vencer” são ditas. “Não era soberba. Nós acreditávamos que podíamos fazer história. Isso forjou o caráter daquele grupo. Quando a gente ia jogar, perguntávamos, sabendo contra quem íamos jogar: ‘Hoje o jogo era contra quem mesmo?’. Em tom de ironia. Podia ser contra Goiás, Vila, Atlético ou Goiânia. Era uma brincadeira que reforçava o que a gente teria de fazer. Éramos um time confiante”, declarou Pirata.Em 2023, oito equipes de fora da capital disputam o Goianão: Anápolis, Grêmio Anápolis, Aparecidense, Crac, Goianésia, Morrinhos, Inhumas e Iporá.