A “Copa da Diáspora” é a forma como o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México tem sido chamado. Isso ocorre por causa da presença de cerca de 25% de jogadores que não nasceram nos países que defendem.Na Copa do Mundo em que fronteiras foram derrubadas, alguns casos de atletas que atuaram no Brasil no Mundial sub-17 em 2019 ajudam a explicar o que acontece.Dos 22 jogadores que atuaram no Brasil há quase sete anos, quatro atletas não jogam mais pelas seleções que defendiamm na fase juvenil. São dois casos na Holanda e dois na França.Um caso que chama atenção é do lateral esquerdo Anass Salah-Eddine. No Mundial sub-17, em 2019, ele foi titular em todos os sete jogos da Holanda, sendo duas partidas em Goiânia. A seleção europeia terminou em 4º lugar.Anass Salah-Eddine nasceu em Amsterdã e fez carreira na Holanda. A única vez que jogou fora do seu país de origem foi quando passou pela Roma, da Itália, em 2025. Ele defende atualmente o PSV, clube do seu país de nascimento. O lateral é descendente de marroquinos. Em outubro do ano passado, Anass Salah-Eddine solicitou à Fifa para defender Marrocos. Após aprovação, ele passou a ser convocado pela seleção africana e está entre os atletas disponíveis na atual edição do Mundial.Curiosamente, Marrocos vai enfrentar a Holanda no jogo eliminatório da 2ª fase. Anass Salah-Eddine não é titular absoluto, mas jogou duas partidas na Copa do Mundo, inclusive a contra o Brasil, e pode ter de enfrentar seu país de origem na próxima segunda-feira (29).Para o advogado e professor de Direito da Universidade Federal de Goiás, Wladimyr Camargos, a ressignificação dos laços familiares e de identidade nacional no futebol passa por alguns aspectos: diáspora, crescimento no número de seleções na Copa do Mundo e projetos esportivos.“Essa diáspora também é sobre volta dos filhos que migraram, nasceram na europa, mas migram para onde pais e avós nasceram. É uma volta à origem”, comentou o professor goiano. “Outro ponto é o recente aumento de seleções (na Copa do Mundo). Isso possibilitou que alguns casos de seleções que dificilmente estariam na disputa por vagas agora alcancem. Cabo Verde tem esse fenômeno, Curaçao, (RD) Congo, Argélia, todos têm essa configuração com jogadores que nasceram em outros países, mas estão retornando para os países de origens familiares”, acrescentou Wladimyr Camargos.O advogado acredita que projetos esportivos podem atrair jogadores a trocarem de seleções, mas não é o motivo central. “Nem todas as seleções oferecem a mesma condição. Marrocos é um incentivo além, mas outros casos, não. São países com dificuldades de manter seleções, federações pequenas que dependem de auxílio da Fifa. É um motivo, mas não parece ser o aspecto principal”, opinou.Para mudar de seleção não basta apenas a vontade. A Fifa tem uma lista de exigências que os atletas precisam cumprir para trocarem de seleções. Pai, mãe ou avós precisam ter nascido no país que o atleta deseja defender. Outra alternativa é o próprio jogador morar no país pelo qual pretende atuar por cinco anos depois dos 18 anos. Dois exemplos destes casos são o zagueiro Pepe e o atacante Diego Costa, que são brasileiros, mas jogaram por Portugal e Espanha, respectivamente.Em 2020, a Fifa fez uma alteração nas exigências. Até então, o jogador não poderia ter sido convocado para defender a seleção principal do país de origem. A alteração permite que um atleta tenha jogado no máximo três partidas oficiais no nível profissional antes de completar 21 anos, mas desde que não tenha sido em uma competição como Copa do Mundo ou torneios continentais, como Copa América ou Eurocopa.Além do lateral Anass Salah-Eddine, o atacante Sontje Hansen jogou o Mundial sub-17 em 2019 pela Holanda. Hoje, o jogador defende e jogou por Curaçao na Copa do Mundo. Ele solicitou a mudança em setembro do ano passado.Curaçao tem a curiosidade de ser um país que constitui o Reino dos Países Baixos (Holanda, como popularmente é conhecido no Brasil). O país do Caribe tem próprios governo e leis. Por isso, para a Fifa, é considerado um território autônomo e, por isso, pode participar da Copa do Mundo, além de competições como a Copa Ouro e torneios da Concacaf.Outros dois atletas passaram por Goiânia na Copa do Mundo Sub-17 e hoje defendem outras seleções. Haissem Hassan e Nathanaël Mbuku defenderam a França no torneio juvenil em 2019. Eles também trocaram de seleções quando chegaram ao nível profissional.Haissem Hassan pediu à Fifa para trocar de seleção em março deste ano. O atacante jogou pela última vez pela base da França em 2020 e, depois disso, nunca mais foi convocado por qualquer categoria da equipe francesa. Hoje, defende o Egito, país de nascimento do seu pai.Já Nathanaël Mbuku é o atleta que mais atuou na base por seu país de origem, a França. Além do Mundial Sub-17, o atacante disputou as Olimpíadas de 2021, por exemplo, e somou quase 50 partidas pela base francesa.A mãe de Nathanaël Mbuku nasceu na República Democrática do Congo. Em 2024, o atacante solicitou à Fifa mudança de seleção e, neste ano, ele defendeu o país africano na Copa do Mundo.“Esses movimentos de trocas de seleções podem se tornar cada vez mais naturais caso o número de seleções aumente no futuro nas próximas edições da Copa do Mundo. Por issom é importante ter certa rigidez da Fifa e do Comitê Olímpico, já que ocorre também em outros esportes, em não fazer esse movimento ser algo artificial. É preciso proteger regulamentos e manter rigidez para não ser algo tão livre de ser feito”, concluiu Wladimyr Camargos.