O goiano Wéber de Paula viveu recentemente uma experiência que exige superação física e mental, cuidados com alimentação e muita estratégia para completar a “Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB)”, uma prova de 174 km realizada na França, Itália e Suíça. O corredor de 44 anos foi um dos 14 brasileiros selecionados e completou a prova com tempo de 44 horas e 59 minutos.Wéber começou a correr em 2015, em meio a um período de muitas mudanças pessoais e profissionais. Os principais motivos para iniciar a nova atividade foram para cuidar da saúde física e psicológica. A princípio, a corrida era uma forma de se reorganizar, aliviar a pressão e encontrar equilíbrio, mas com o tempo foi evoluindo para uma coisa maior.Em 2016, nasceu o projeto Pé na Trilha, com o propósito de apresentar o esporte para outras pessoas e levá-las a conhecer o trail running e as montanhas. O projeto cresceu, vieram os eventos, mais pessoas se envolveram e, posteriormente, ele se tornou uma associação e também uma empresa.“Eu costumo dizer que a corrida começou como uma necessidade pessoal e acabou se transformando em um propósito de vida. Ela me ajudou a cuidar de mim, mas também me mostrou que eu poderia ajudar outras pessoas a descobrirem, através do esporte e da natureza, uma nova forma de viver”, comentou Wéber.Natural de Morrinhos, o policial penal não corre apenas pela performance. A corrida, para ele, sempre esteve ligada à superação, saúde, natureza e capacidade de inspirar outras pessoas. Com o tempo, a prática esportiva alcançou um dos maiores patamares da modalidade: a UTMB Mont Blanc.A prova da UTMB é uma ultramaratona de aproximadamente 176 km, com cerca de 10 mil metros de ganho de elevação - mais alto do que o Monte Everest -, realizada nas montanhas ao redor do Mont Blanc, passando por França, Itália e Suíça.“É uma prova extremamente exigente, com tempo-limite de 46 horas, em que o atleta precisa administrar muito mais do que velocidade: precisa saber lidar com o sono, a alimentação, o desgaste físico, as condições climáticas e, principalmente, com a própria mente”, descreveu Wéber.Em 2024, o morrinhense foi selecionado para estar nas finais da UTMB. Contudo, ao chegar em Milão, ele teve as malas extraviadas, que continham os itens obrigatórios da prova e suplementos específicos. Wéber conseguiu se virar com a ajuda de outros brasileiros que estavam por lá, mas, como o estômago não estava adaptado a suplementações diferentes, ele “só” aguentou 110 km antes de abandonar a prova.Após essa frustração, ele começou nova jornada para conseguir a vaga novamente. Em 2025, fez os 153 km da prova “Sur les Traces des Ducs de Savoie (TDS)”, na Itália e na França, e também participou da “Valholl”, em Ushuaia, na Argentina, com 130 km. Em 2026, no mês de junho, ele correu a “Lavaredo Ultra Trail”, na Itália, com 50 km.“A UTMB não é simplesmente uma prova para a qual você faz uma inscrição. Existe todo um sistema de qualificação, com desempenho, índice e ‘running stones’, além de provas importantes que fazem parte dessa trajetória. Mesmo cumprindo os requisitos, isso não significa que o atleta estará automaticamente selecionado”, explicou Wéber.A edição 2026 da UTMB ocorreu entre os dias 24 e 30 de agosto, com a prova principal começando em 28 de agosto, com largada e chegada em Chamonix, na França. Wéber foi um dos 14 brasileiros selecionados, em um total de 2.700 participantes, sendo o único atleta nascido em Goiás. O paranaense Fernando Andrade, que mora em Goiânia há mais de duas décadas, também foi um dos representantes nacionais.“Para mim, representar Goiás em uma prova desta dimensão tem um significado enorme. É levar o nome do nosso estado para a maior prova de ultramaratona do mundo. E a concorrência é enorme. Isso mostra a dimensão da disputa para chegar até ali: milhares de corredores no mundo inteiro buscando índices e resultados para conquistar uma oportunidade”, disse o policial penal.De acordo com Wéber, a preparação para uma prova como a UTMB começa muito antes da largada. No dia a dia, ele treina o corpo, mas também treina o estômago para conseguir consumir alimentos e carboidratos durante muitas horas. Também são trabalhadas a hidratação, a suplementação, o sono e, principalmente, a questão mental.“As 45 horas de prova são, na verdade, o resultado de todo um processo de preparação física, mental, nutricional e estratégica. Em uma prova de quase dois dias, chega um momento em que o corpo está extremamente desgastado e é a cabeça que precisa continuar comandando”, contou.Quando finalmente conseguiu estar na linha de largada em Chamonix pela segunda vez, após a frustração de 2024, Wéber sabia que não estava ali apenas por causa dos últimos meses de treinamento, mas sim devido aos anos de dedicação à corrida.“Concluir os 176 quilômetros, com 10 mil metros de ganho de elevação, em 44 horas e 59 minutos, foi a materialização de todo esse processo. A prova durou quase dois dias, mas a preparação para aqueles dois dias levou anos”, pontuou.E teve outro fator que deixou tudo ainda mais especial. Dois meses depois de fazer os 153 km da TDS em 2025, Wéber rompeu o tendão de aquiles e precisou passar por uma cirurgia. Naquele momento, ficou claro que o caminho de volta seria bastante difícil, e que voltar a correr já era uma dúvida. Voltar a correr longas distâncias, então, era algo que parecia impossível.Foram meses de recuperação, fisioterapia, fortalecimento, reconstrução do condicionamento físico e muita disciplina e paciência. Segundo Wéber, houve dias árduos, dor, insegurança e muitas dúvidas, mas também houve muita determinação e trabalho.“Para mim, essa conquista é a prova de que limites existem, mas muitas vezes eles não são definitivos. Com fé, trabalho, disciplina e determinação, é possível reconstruir o caminho mesmo quando ele parece ter chegado ao fim”, concluiu.