Há 30 anos, em agosto de 1996, uma forte equipe do futebol amador de Goiânia atravessou o continente para fazer sucesso na Cidade do México. Admirado pelos mexicanos, o futebol brasileiro deixou um legado de respeito, paixão e saudosismo depois da conquista do Mundial de 1970 pela geração de Pelé, Rivellino, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo e companhia. Anos depois, o que se viu, no México, foi um time formado por trabalhadores da Arisco, empresa goiana (vendida depois). A equipe trouxe para Goiás o troféu de campeão, as medalhas, lembranças, brindes e muitas histórias divertidas.Antes do triunfo, houve a formação do elenco. A várzea goianiense era concorrida e tinha bons jogadores espalhados pela cidade. Alguns deles chegaram à empresa. Do chão da fábrica aos campos de futebol, a equipe da Arisco usou o entrosamento e a boa preparação como aliados na disputa e conquista do 10º Encontro Internacional de Desporto dos Trabalhadores, na Cidade do México.O time goiano representava o Brasil num torneio mundial. Tudo com a chancela do Sesi, responsável pela organização do torneio dos trabalhadores da indústria, em várias modalidades, e que também deu suporte à delegação da Arisco, tanto na preparação como na viagem ao México. Rivas Rezende, um dos diretores da empresa, é citado pelos atletas como incentivador na formação do time.O técnico era Hugo Eustáquio. A base campeã no México tinha trabalhadores da empresa e foi reforçada por alguns atletas de outras atividades e por uma dupla de jovens promissores da base do Goiás: o volante Alessandro e o atacante Fernandão, à época com 18 anos. Naquele ano, o Goiás chegou à semifinal do Brasileirão e foi eliminado pelo Grêmio. Coincidentemente, na preliminar do jogo Goiás 1 x 3 Grêmio, no dia 5 de dezembro de 1996, no Serra Dourada com cerca de 40 mil pessoas, o time da Arisco venceu a equipe sub-20 do Goiás por 2 a 1.O time da empresa foi campeão da fase estadual, da Centro-Oeste e, depois, da nacional (a 5ª Olimpíada Nacional do Sesi), disputada em São Paulo. Isso um ano antes, em 1995. A Arisco e o Sesi deram suporte à preparação antecipada. “Nos preparamos para ganhar. Após o título nacional, fizemos tratamento odontológico, exames médicos e treinamos cerca de quatro meses”, lembra o volante Amarildo Lobão.A empresa tinha um dos melhores campos de futebol da capital, inclusive utilizado para treinos por clubes da capital. Lobão se tornou o capitão da equipe.Lobão e o zagueiro Wilson Souza, que era bancário e foi inscrito na equipe, lembram que aquela formação passou invicta pelas etapas classificatórias em solo nacional, antes de desembarcar no México. Wilson calcula que a média de idade do elenco era de 26 anos. Segundo ele, a equipe se reforçou com Erasto e Cabral, de outras empresas, além da dupla de pratas da casa do Goiás. Na final nacional, a Arisco venceu por 1 a 0 a equipe das Carretas Randon-RS, apontada como difícil de ser batida nos torneios entre as empresas. O árbitro da final foi Romualdo Arppi Filho, o mesmo que, dez anos antes, apitou a final do Mundial de 1986 (Argentina 3 x 2 Alemanha), no México.Restava a etapa mundial, na qual os adversários eram os trabalhadores de Rússia, México, Costa Rica, Bélgica, Porto Rico, entre outros países. A equipe goiana chegou antes da estreia à Cidade do México, com tempo para três treinos e aclimatação, segundo Wilson. Mesmo com a altitude (2.240 metros acima do nível do mar) e a poluição da capital mexicana, os goianos estavam bem preparados.Nos relatos de Lobão e Wilson, uma das favoritas era a equipe costarriquenha. No meio dos boleiros, circulava a informação de que o time da Costa Rica contava com um jogador com passagem pela seleção do país. A estreia teve a goleada (7 a 0) sobre o representante russo. Na sequência, empate sem gols com a formação da Costa Rica. No embalo, os goianos golearam o Ferrocarriles (México) por 3 a 0. Na decisão, novamente os costarriquenhos no caminho da Arisco, mas a goleada foi impiedosa - 5 a 0.“Foi muito gratificante aquela experiência. Foi a minha primeira e única viagem internacional. Creio que da maioria dos jogadores do nosso time”, atesta Wilson Souza, “Eu levantei o troféu de campeão. Foi uma honra. O nosso time era muito bom e unido”, garante Lobão. “Tínhamos um toque de bola muito bom”, acrescenta Wilson Souza. Segundo ele, a formação básica tinha Marcinho; Marcelinho, Wilson, Barone e Erick; Lobão, Toquinho, Erasto e Toinzinho; Fernandão e Marcos Gambá.FernandãoNa base do Goiás, Fernandão mostrava talento e liderança, mas carregava a fama de rebelde. Porém, na passagem pelo time da Arisco, deu um toque de qualidade e foi artilheiro.Segundo o capitão Lobão, Fernandão fez sete gols no 10º Encontro Internacional de Desporto dos Trabalhadores. À época, a empresa goiana teve a marca associada ao esporte, como no futebol e no automobilismo. A camisa do Goiás teve estampada a marca da Arisco em 1997. Lobão e Wilson contam que o clube havia disponibilizado dois jogadores da base para reforçar a equipe da empresa no México.Hugo Eustáquio, o técnico da Arisco, teria acompanhado alguns treinos do alviverde e não teve dúvidas na escolha por Fernandão. Além dele, o volante Alessandro, que foi reserva no México. “Os dois (Fernandão e Alessandro) nos ajudaram muito. Eram de boa convivência, assumiram a responsabilidade no time”, conta Wilson. Um dos gols marcados por Fernandão foi de bicicleta, segundo Lobão.“Assim que ganhamos a decisão, chegamos ao bar do hotel onde a delegação estava hospedada. O Fernandão me convidou para tomar uma tequila (bebida tradicional no México). Tomamos três doses (risos) no balcão do bar do hotel”, revelou Lobão. Segundo ele, os jogadores eram responsáveis, mas também se divertiram naquela viagem.Certamente, Fernandão usou aquele torneio entre operários para ganhar um pouco mais de experiência. No ano seguinte (1997), disputou o Mundial Sub-20 pelo Brasil, na Malásia, ao lado de Roni (ex-Vila Nova) e Álvaro (ex-Goiás) - o time era um dos favoritos ao título, mas foi eliminado na semifinal pela Argentina. Passados dez anos do título da Arisco no México, Fernandão se consagrou como um dos líderes e capitão do Inter nas conquistas da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes (ambos em 2006).Fernandão morreu em um acidente de helicóptero em 7 de junho de 2014, em Aruanã.