É possível ser, ao mesmo tempo, ídolo e fã de um clube. Harlei é a prova disso. No Goiás, o goleiro faz parte de um recorte de quase 12 anos na história de conquistas e fracassos do clube ? está lá desde 1999 ? e sente pelo alviverde uma gratidão incomum nos tempos de vida cigana no futebol. O período vivido como esmeraldino faz com que ele alcance, quarta-feira, quando entrar em campo contra a Anapolina, na Serrinha, pelo Goianão, a marca de 700 jogos com a camisa do Goiás. "É a minha primeira pele, e não segunda. Em 80% do tempo, se você olhar para a minha roupa, pelo menos uma peça que tem o emblema do Goiás", resume Harlei, que fará 39 anos no dia 30.Harlei é um símbolo alviverde, no mínimo, controverso. Uma mistura de ídolo e anti-herói. Em 699 jogos, conquistou nove títulos e ajudou o clube a alcançar feitos internacionais importantes, como a vaga (em 2005) e a disputa (em 2006) na Libertadores e o vice-campeonato da Copa do Sul-Americana (2010). E também já cumpriu suspensão por doping, foi taxado de paneleiro, se indispôs com colega de equipe e com treinador, e já jogou no arquirrival (e foi polêmico lá também). "Sorri, chorei, conquistei, perdi", diz, quase entoando uma canção.No front das críticas num momento em que o Goiás luta para retomar a hegemonia do Goianão e se prepara para disputar a duríssima Série B, Harlei demorou um pouco para aceitar conversar com a reportagem do POPULAR sobre o jogo 700. Não estava animado com a marca, se sentia alvo de desrespeito e parecia impaciente para falar sobre o número histórico. Mas baixou a guarda. E deu entrevista de duas horas, na área externa de sua casa, num condomínio fechado de Goiânia, bem em frente ao banner que a mulher, Ana Carolina, mandou fazer para a comemoração do recorde.Carol, como Harlei chama a mulher com quem se casou há quase 15 anos, organizou uma festa reservada, "para não passar em branco", há uma semana, logo após a vitória no clássico sobre o Vila Nova, por 2 a 1, no Serra Dourada. Foi um tiro no escuro. "Arrisquei. Não tem como dizer que não há abatimento se houver derrota num clássico, né? Mas marquei a festa mesmo assim", comentou ela, que tem dois filhos com o goleiro: Leandro, de 11 anos, e Ana Clara, de 5. Do Goiás, só o goleiro reserva Pedro Henrique e o zagueiro Marcão foram à festa.Com data certa para se aposentar, o que ocorrerá no final de 2012, Harlei diz que quer passar a camisa 1 para Pedro Henrique. "Ele é batalhador, técnico, tem equilíbrio psicológico, é referência, inteligente, faz faculdade. Espero que ele faça o dobro de jogos que eu fiz com a camisa do Goiás", esbalda-se Harlei em elogios. Logo em seguida, conta sobre o relacionamento conturbado com Rodrigo Calaça, por muito tempo seu reserva e hoje emprestado ao Sport.Harlei ainda não sabe se, contra a Anapolina, vestirá a camisa 700 ou se receberá uma placa como as relativas às outras centenas de jogos que guarda num miniescritório.GratidãoQuestionado se, três meses depois, se arrependeu de ter renovado contrato com o Goiás por mais dois anos, Harlei nega. E diz a palavra que resume seu sentimento pelo clube: gratidão. Em dezembro, após a derrota na final da Sul-Americana, para o Independiente (ARG), que diz ter sido o mais duro revés da carreira, o goleiro tinha proposta dos Estados Unidos e já havia agendado exame médico. Mas recusou.Quando foi sondado pelo alviverde, em 1999, o goleiro estava em Belo Horizonte, decidido a não voltar para Goiânia. Ele havia tido um ano turbulento no Vila Nova, depois de um período também desgastante no Comercial, de Ribeirão Preto (SP). "Eu estava humilhado como homem e como atleta. Precisava resgatar minha moral. Agora, fiquei para retribuir o que o Goiás fez por mim", comenta Harlei. O goleiro afirma ter ficado seis meses sem receber no Vila Nova, no qual chegou acima do peso em 1998.Para se transferir para o Goiás, pediu 170 mil de luvas para reconstruir a vida. O primeiro salário era de R$ 8 mil. Hoje, ele não diz quanto recebe, mas o valor é maior cerca de dez vezes. Para renovar, em dezembro de 2010, Harlei diz ter mantido o salário.DINHEIRO"Jogadores muito menos expressivos do que eu ganharam muito mais dinheiro no Goiás. Nunca fiquei no Goiás por dinheiro."EMPRÉSTIMO"Em 2006, o Raimundo (Queiroz) precisava pagar a folha salarial dos funcionários. Era coisa de R$ 100 mil. Emprestei meu nome. Ele fez um empréstimo no meu nome. Em 2007, tudo foi quitado."CRÍTICAS"Hoje, todo mundo quer um goleiro mais alto. Eu tenho 1,79m, 39 anos, e tenho que conviver com isso. Dizem que meus reflexos não são mais os mesmos. Mas ainda são capazes de levar o Goiás à final de Sul-Americana."VILA NOVA"Tive discussões feias com o Ricardo Namen (presidente do Vila em 1999) por causa de atraso no salário. Ele me acusou de ter vendido um clássico para o Goiás e queria que eu assinasse contrato de prioridade. Entrei na justiça."RODRIGO CALAÇA"A convivência com Rodrigo Calaça era horrível. No começo, foi maravilhoso. Mas de 2003 para cá, tivemos problemas familiares. Não dá nem para externar isso. Mas tenho uma ressalva. Ele é um bom profissional, um atleta que pode fazer muito sucesso. Perdeu um pouco o tempo, mas é capacitado"Do timaço ao doping: melhor e pior fasesSem a empolgação de quando atingiu outras marcas centenárias no Goiás, Harlei agora se volta para o passado. Do melhor ao pior momento vivido no alviverde até agora, foram quatro anos. E as situações serviram para reforçar o vínculo com um treinador e azedar de vez as coisas com outro técnico.A melhor fase foi o começo, época do timaço que o clube montou nos anos de 1999 e 2000, com Danilo, Araújo, Fernandão, Josué, Marabá, Dill, Sílvio Criciúma, entre outros. O Goiás foi campeão da Série B em 1999 e fez boa campanha na 1ª fase da Copa João Havelange (2000). "Não é possível repetir um time como aquele. Era de dar inveja e éramos muito bem treinados."Harlei chegou em 1999, na Série B, e não era o cara de confiança do técnico Hélio dos Anjos "por causa do temperamento e tamanho". "Eu era polêmico. Sempre fui explosivo, brigão. O casamento ajudou, mas foram os meus filhos que me mudaram. Fiquei um cara mais calmo, de melhor convivência", reconhece o camisa 1.Foi após a insatisfação de Hélio dos Anjos com Márcio Angonese que Harlei fez sua estreia, no dia 17 de outubro de 1999, na vitória por 3 a 0 sobre o Santa Cruz. "Começamos uma relação de amizade. Passei a ser o homem de confiança dele", diz Harlei sobre Hélio, hoje no Sport.Em 2003, veio a pior fase: a punição por doping que o afastou por quatro meses. A substância furosemida foi encontrada na urina de Harlei, algo que ele afirma não ter explicação até hoje, numa época em que ele vivia bom momento e chegou a atuar com a mão fraturada. "Quando soube, achei que pudesse ser por conta da medicação forte que tomava. Mas o Raimundo (Queiroz) avisou que não era isso. Era furosemida", lembra.Harlei conta que esperava um pouco mais de confiança de Cuca, então técnico do Goiás. "Eu ainda ia ser julgado. Mas ele contratou o Gilmar. Quando precisei, ele não me bancou", comenta o goleiro, que aproveitou a suspensão para passar por cirurgia na mão esquerda. "Nunca mais vou trabalhar com ele na minha vida. Mas é um bom profissional." (PP)Mulher é apoio. Harlei realiza sonhos de consumoCapitão do Goiás há pelo menos três anos, Harlei não é quem comanda as coisas em casa. Lá, a chefia tem nome de mulher: Ana Carolina Menezes, de 36 anos. É ela quem toma conta dos filhos, da casa e dos negócios. O goleiro conheceu a mulher em 1995, na casa de uma prima. Três dias depois, ficaram noivos. Dez meses depois, se casaram.Leandro, o primogênito, hoje com 11 anos, nasceu uma semana antes da estreia de Harlei pelo Goiás e, hoje, é mais fanático pelo alviverde do que o pai. Tem o nome por conta do cantor da dupla com Leonardo ? Harlei gosta de música sertaneja ? e joga na escolinha do Goiás desde os 4 anos. Ana Clara, de 5 anos, adora bichos e é a responsável por Harlei protagonizar momentos triviais, como fazer carinho na tartaruga Doli e chamar Lilica, a cachorrinha da filha, de "meu amor".Ao mesmo tempo, Harlei esclarece que sua vida profissional sempre foi prioridade. Ele nunca foi a reuniões nas escolas dos filhos e raramente vai às comemorações, como festa junina e Dia dos Pais. Quando está em casa, prepara o café da manhã de Leandro antes de o filho sair para o colégio. Harlei é viciado em café ? toma quase uma garrafa em duas horas de conversa com a reportagem ? e tem uma memória invejável.O dinheiro que ganhou, Harlei investe em imóveis em Goiânia, onde continuará após parar de jogar. "Somos goianos de coração", afirma o mineiro de Belo Horizonte. Ele gosta de viver bem e se define como "gastador". Realizou todos os sonhos de consumo. "Tudo o que sonhei, eu comprei. Sonhei com Mercedes e BMW. E tive. Sonhei em ter relógio Rolex e joias. Experimentei não ter nada e, depois, ter tudo. Experimentei morar mal e morar bem." Dois xodós, atualmente, são carros antigos: dois Fuscas 1969 e uma Mercedes, importada, da década de 70. Todos foram restaurados. (PP)