Igor Thiago, atacante do Brentford, da Inglaterra, é a principal surpresa do futebol mundial na atual temporada, e orgulho para a família que batalhou para que o sonho dele de ser jogador se tornasse realidade. Distância, saudades, choro e medo fizeram parte de anos do atacante, que foi abastecido de carinho e tranquilidade para que seu foco fosse em conquistar sua meta de vida.Nascido no Gama, mas criado desde os primeiros dias de vida em Cidade Ocidental, em Goiás, ambas no entorno do Distrito Federal, Igor Thiago é um dos quatro filhos de Maria Diva, ou apenas Diva. Ela foi uma das principais responsáveis para que o garoto, que começou a jogar futebol aos 8 anos, se tornasse a sensação da Premier League 2025/2026.“Para mim, viver tudo isso que acontece agora é a realização de um sonho grande. A nossa situação no passado, de grandes lutas, foi recompensada com a conquista do Thiago. A minha felicidade, da nossa família, é ver ele crescer cada vez mais. É gratificante”, contou Diva, que tem 59 anos.Mudar a realidade da família era o sonho de Igor Thiago e se tornou promessa para a mãe, mas não foi fácil. O vice-artilheiro da Premier League, com 16 gols, começou a jogar futebol incentivado pelo irmão mais velho, Maycon Richard Júnior, que jogava futebol amador antes do atacante do Brentford iniciar no esporte.“Eu era muito envolvido com futebol nos anos 2000 e levava ele (Igor Thiago) para me acompanhar todos os domingos. Um dia, ele tinha 7 anos, começou a se interessar e me falou que queria ser jogador de futebol. A partir desse dia, eu falava pra ele que futebol não era diversão, que tinha que ter responsabilidade e que ele ficaria longe da nossa mãe”, lembrou Maycon Júnior, de 40 anos.Maycon Júnior levou o irmão para o projeto do Grêmio Ocidental, fundado e liderado pelo professor de Educação Física e treinador Sérgio Gonçalves Silva. O início de Igor Thiago foi no futsal, em Cidade Ocidental, aos 8 anos. Ele treinou na quadra até os 12 anos, quando iniciou a transição para o campo.“Foi nesse período que perdeu o pai. A partir desse momento, passei a ajudar na criação do Thiago. Um dia, vi ele discutindo com a mãe, chamei no canto e falei que teria que pedir perdão para a mãe. Que só voltaria a treinar quando ela me ligasse e contasse que estava tudo bem. Depois desse dia, me tornei o ‘pai’ do Thiago, ajudava com o que podia. Comprava chuteira, meião, pagava inscrição e educava. Trabalhamos muito, mas o Thiago lutou e se dedicou muito para crescer no futebol”, recordou Sérgio Gonçalves, que é chamado de pai por Igor Thiago.Nem tudo foi simples e fácil para que Igor Thiago realizasse seu sonho de vida. Ele ouviu alguns “nãos” e precisou se esforçar até com a distância. Da casa onde morava no bairro Dom Bosco até o campo onde treinava, eram cerca de 9km, que o atacante percorria caminhando ou correndo. Isso foi determinante para trabalhos físicos, que melhoraram o condicionamento do jogador.Ao mesmo tempo, sua mãe trabalhava como gari, profissão que manteve por quase 30 anos, e sustentava os quatro filhos.“Eu trabalhava das 8h às 14h. Um dia eu cheguei em casa e vi o Thiago quieto, cabisbaixo. Ele não tinha ido treinar e ficou no sofá. Perguntei se não ia treinar, ele respondeu: ‘não vou mais, mamãe.’ Lembro até hoje, até arrepia. Eu disse que ele ia, sim, porque tinha um sonho para ser realizado. Se ficasse deitado no sofá, não ia ter história nenhuma para contar, que tinha que levantar para construir a história dele”, lembra Diva.Deu resultado. “Ele se levantou e falou que ia treinar, pegou a mochila com a chuteira, meião e caneleira e foi. Treinou e nunca mais parou. Ele costuma dizer que esse foi o empurrão que precisava”, contou Diva.A primeira grande chance de Igor Thiago surgiu no Athletico-PR, após ajuda do ex-jogador Tico, que era olheiro da equipe rubro-negra na época e conhecido do professor Sérgio. O jovem, no entanto, foi reprovado em três testes no Furacão. Com a insistência de Sérgio, Tico conseguiu um teste no Verê FC, time da cidade de Verê, no interior do Paraná. Igor Thiago fez testes, foi aprovado e começou a jogar na equipe sub-17 em 2018. No mesmo ano, estreou no profissional.“Eu era gari na época e fiz um empréstimo para comprar dois celulares, de segunda mesmo, coisa simples. Ele levou o melhorzinho e eu colocava créditos para a gente sempre se falar. Vou te contar, a saudade era o mais difícil de superar. O Thiago sempre foi muito apegado a mim, e eu ficava muito preocupada de algo ruim acontecer com ele. Foi uma grande luta, eu nem dormia direito de preocupação, mas conseguimos superar tudo isso”, contou Diva, que passou a morar com o filho a partir de 2019, quando ele foi contratado pelo Cruzeiro.“Foi logo quando ele começou no Cruzeiro que me pediu para parar de trabalhar. Eu sentia dores na coluna, mas não queria parar de trabalhar. Ele falou um dia: ‘Mamãe, chega de trabalhar. É hora de descansar.’ Eu peguei uma licença, fui para BH e depois comecei a fazer tratamento. As dores não passaram totalmente, tenho escoliose, mas hoje vivo bem e só não faço nada que eu tenha que pegar peso”, explicou a mãe de Igor Thiago, que é a responsável por atender os mimos culinários do filho.“Ele me pede alguns pratos, dois que ama muito. Frango com arroz, ele ama o jeito que eu faço frango. A outra comida é bife acebolado, com arroz, feijão e batata frita. Sempre que estamos juntos, ele pede para eu fazer algumas vezes”, revelou dona Diva, que acompanhou o filho em Belo Horizonte, na Bulgária quando ele jogou pelo Ludogorets Razgrad e recentemente na Inglaterra, onde o atacante joga pelo Brentford.