Perto de completar 77 anos, na quarta-feira (29), em meio à paralisação do futebol por causa da pandemia do coronavírus e à espera do início da Série C, em agosto, o Vila Nova vai relembrar a conquista do tetracampeonato do Campeonato Goiano (1977 a 1980), a principal sequência de títulos do clube, superando o tri do Estadual (1961 a 1963). No dia 29 de novembro, o título da última edição da saga do tetra (1980) completará 40 anos. Num clube carente de conquistas recentes, as do passado criam, cada vez mais, laços de afetividade e saudosismo entre os torcedores.Tão marcante é o tetra, na história do Vila Nova, que os jogadores daquela geração até hoje são ídolos. Em 2013, quando o clube fez 70 anos, uma votação aberta, do POPULAR, elegeu a seleção vilanovense de todos os tempos. Do tetra, entraram oito nomes: Serginho (goleiro), Zé Luiz e Timoura (zagueiros), Cândido (lateral), Roberto Oliveira, Luiz Dário (volantes), Danival (meia) e Fernandinho (atacante).Roberto Oliveira relembra um dos significados das conquistas. Para o ex-jogador, titular nas quatro edições do tetra, além de ter conquistado os títulos de 1982 e 1984, o tetra é a primeira sequência forte de time goiano na fase do futebol profissional – até então, havia o tri do próprio Vila Nova e o penta do Goiano do Goiânia, mas na chamada fase do amadorismo. Só mais tarde, de 1996 a 2000, o Goiás chegou ao penta do Estadual e superou a marca vilanovense.Por causa do momento vitorioso, Roberto Oliveira acabou fincando as raízes em Goiás, a partir de 1977, quando chegou ao clube. “Jogava no Barretos-SP. Uma noite, um dirigente chegou e disse: ‘Roberto, arruma tuas coisas. Você foi negociado com o Vila Nova’”, lembrou o ex-jogador, que tinha algumas informações sobre Goiânia e o clube. Era acadêmico de Educação Física, em Jaboticabal-SP. Veio para a capital goiana e passou a encarar desafios. “O Vila não era campeão (goiano) desde 1973. Nunca havia jogado o Campeonato Brasileiro. Tínhamos de resgatar isso”, detalhou o ex-jogador que, na mudança de clube, chegou ao Vila ao lado do então lateral Sérgio Donizete.Restava bater as metas. Em 1977, o Vila formou elenco com jogadores experientes e de fora do Estado, como Jorge Vitório (goleiro), Toninho Almeida e Humberto Ramos (meias), além de trazer nomes como Almir (meia), Carlinhos e Rangel (atacantes) e outros atletas. Eles se juntaram a um nome de peso – Fernandinho, que morreu em junho deste ano e era ídolo do time – e a base composta por Gabriel (goleiro), Zé Luiz e Cândido (defensores), Luisinho e Zé Henrique (irmãos e atacantes) e Miguelzinho (meia).“O Vila era forte na base. Subimos para o profissional e encontramos jogadores que eram experientes, com bagagem no futebol, além de excelente nível técnico. Nesse período, o clube sabia contratar e, também, repor peças”, citou Zé Luiz, promovido como zagueiro mas que, no decorrer da temporada de 1977, foi utilizado na lateral direita.A primeira meta foi batida no dia 13 de julho de 1977 – a conquista do Torneio Seletivo, com gol polêmico de Nivaldo Lancuna sobre o Itumbiara. Foi o passaporte para o clube, mais à frente, estrear no Brasileirão com empate (0 a 0) com o Botafogo-RJ, no Serra Dourada lotado, uma das constantes marcas do futebol goiano naquele período. Embalado, o Tigrão chegou forte ao quadrangular final do Estadual, contra o favorito Goiás, Rio Verde e Goiânia. Foram três jogos e 100% de aproveitamento sob comando do jovem João Francisco, que chegou ao clube oriundo do futebol brasiliense.“Viramos o primeiro jogo (3 a 2). Perdíamos do Goiás por 2 a 1. Contra Rio Verde e Goiânia (ambos com vitória de 1 a 0), foram jogos difíceis, mas ganhamos confiança e vencemos”, recorda Roberto Oliveira. No último jogo, o clássico com o Goiânia foi de festa no Serra Dourada. Duas taças, em pouco mais de dois meses, fizeram a torcida explodir.“Naquela época, tínhamos público de jogo nos treinos no OBA. Certa vez, fizemos uma pré-temporada na Cidade de Goiás. Quando voltamos, a sede do clube estava lotada. A torcida estava com saudades”, afirmou Roberto Oliveira. “Quando eu e Modesto (zagueiro) fomos contratados, chegamos a Goiânia e fomos treinar. Olhei para os lados e só via torcedores. Disse para o Modesto que aquilo não era normal e que estávamos num clube diferente”, comentou Danival, que chegou ao clube em janeiro de 1979. Os dois eram oriundos do Atlético-MG e passaram pela seleção brasileira.Danival e Modesto chegaram com o Goianão de 1978 em andamento. Outro ex-jogador do Galo Mineiro também já estava no OBA – o então ponta esquerda Paulinho, que mais tarde virou técnico da base e, com um time de jovens, conquistou o Goianão de 1995. “O Vila tinha uma diretoria que sabia repor as peças. Como se diz hoje, era num outro patamar”, apontou Zé Luiz, que se fixou na zaga e é considerado um dos melhores da posição na história do clube.Zé Luiz cita exemplos de acerto na troca de peças, como na remontagem do elenco de 1978 e 1979. Saíram nomes como Toninho Almeida, Humberto Ramos e chegaram Danival, Sérgio Luiz, Zé Ronaldo. No ataque, Tulica ocupou vaga de Carlinhos. Luiz Dário, que voltou ao clube em 1978, virou símbolo da raça colorada, ao lado de Roberto Oliveira. No lugar de Jorge Vitório, o substituto foi outra lenda – Serginho, goleiro oriundo do futebol paulista que havia se destacado no Rio Verde, adversário do Vila Nova, em 1977.Roberto Oliveira analisa que o time se tornou forte a partir da força da diretoria, formada por nomes como Cleômenes Reis, João Carneiro, João França, Urildo Campos, Walter Massi e outros, desde 1977, quando ele foi contratado. “Quando cheguei, havia um elenco muito bem montado. Os dirigentes sabiam trabalhar. Tinha jogadores experientes e os meninos da base eram muito bons”, acrescenta Danival, que está aposentado e mora em Belo Horizonte-MG. Sobre a base, Zé Luiz relembra que, em alguns jogos, a defesa teve Gabriel, Valdo, Zé Luiz, Timoura e Cândido, todos formados no clube.Os títulos de 1978, 1979 e 1980 tiveram componentes de dramaticidade. O Vila Nova, quando era necessário, tinha repertório para vencer os rivais. Sabia se defender muito bem, sofria pouco gols, não marcava muitos, mas era letal. Na conquista de 1978, Danival fez o gol após chute de Paulinho, que tocou no travessão. Logo depois, o empate sem gols com o Atlético-GO foi mais do que suficiente para garantir o tri.Além das quatro edições do Goianão, o Vila ganhou o Seletivo (1977), Copa Leonino Caiado (1979) e o Torneio Quadrangular Adjair Lima (1980), com vitória sobre o Santos-SP na decisão do título.“Eu ganhei um par de chuteiras novo, da Adidas, numa viagem que fiz ainda pelo Atlético-MG ao futebol árabe. Aqui, após uma daquelas finais, houve invasão de campo, muita festa. Fiquei sem camisa, calção e um dos pés da chuteira”, lembrou Danival. “Na nossa reapresentação, um menino chegou ao nosso treino com a chuteira que faltava, pedindo um autógrafo meu na chuteira. Aquilo me sensibilizou. Acabei dando o outro pé ao garoto”, detalhou Danival.Dois títulos no mesmo ano e reforços “café com leite”Entre fatos e lendas, o tetra colorado tem uma curiosidade: a de conquistar, duas vezes no mesmo ano, o título do Goianão. Não há nenhuma jogada de bastidores nisso. Na verdade, o Tigrão emendou sequência dupla porque o Estadual de 1978 teve tabela e fórmula longas. A competição começou em abril de 1978, com classificatórias. Foi na virada do ano seguinte que chegaram Danival e Modesto. “Foi muito bom. Fiz 12 gols na minha primeira temporada. Eu tinha um parceiro fantástico na frente, que era o Tulica. Os outros jogadores eram muito bons. Era fácil jogar”, analisou Danival, que usava a camisa 8.Após praticamente um ano de disputa, o Vila Nova superou o Goiás – 1 a 0, gol de Danival – e garantiu o bi no dia 22 de abril de 1979. Dono de campanha sólida, de poucos tropeços, a segunda conquista de estadual do ano (e tri da sequência) veio menos de quatro meses depois, no dia 12 de agosto, após empate com o Atlético. Em 1980, veio o tetra.“Nós brigávamos para ser campeões. Falavam muita coisa do comportamento dos jogadores do Vila, que eram cachaceiros. Mas, em campo, cada um deixava o suor, lutava pelo time. No Vila, era assim: o jogador chegava e, se caísse nas graças da torcida, ninguém segurava”, citou Zé Luiz que, além do tetra, ainda foi campeão do Goianão 1982.Naquele período, o elenco tinha o tempero caseiro – jogadores da base – aliado aos que eram contratados em São Paulo, Rio e, principalmente, Minas Gerais. Da primeira geração, estavam atletas de renome, como Toninho Almeida (ex-Cruzeiro-MG), Humberto Ramos (ex-Atlético-MG), Jorge Vitório (ex-Fluminense). Roberto Oliveira e Sérgio Donizete, que vieram juntos do futebol paulista, se juntaram aos mais experientes.A safra seguinte teve Danival, Modesto e Paulinho (ex-Atlético-MG), o goiano Zé Ronaldo (ex-América-MG). “Na minha carreira, tive dois clubes marcantes. Um é o Atlético-MG. O outro é o Vila Nova. Não posso esquecer disso. Tudo de bom aconteceu aí”, frisou o ex-meia, que saiu em maio de 1980, negociado com a Portuguesa, antes da conquista do tetra, no dia 29 de novembro de 1980. Assim que ele saiu, quem chegou foi Erivelto, que tinha no currículo passagens por Fluminense e Cruzeiro.“Tive a honra de fazer dois gols no quadrangular final. Foram duas vitórias sobre o Anápolis, por 1 a 0. Na primeira, foi um gol de cabeça, no (Estádio) Jonas Duarte. Na outra, no Serra Dourada, foi um chute rasteiro, no canto e que ainda bateu na trave”, descreveu Roberto Oliveira. “Eu vim para jogar em 1977. Fui ficando e estou aqui, até hoje. Não há nada mais gratificante do que ser reconhecido pela torcida”, comenta o ex-jogador, que foi volante, quarto zagueiro e até lateral direito num jogo decisivo do Vila. As histórias de Roberto Oliveira e do Vila Nova nunca mais foram as mesmas depois do tetracampeonato. -Imagem (1.2091354)