“A meu ver, a vida consiste em três partes: o presente, absorvente e quase sempre agradável, que avança minuto a minuto em velocidade fatal; o futuro, obscuro e incerto, para o qual são feitos os inúmeros planos interessantes, quanto mais ousados e improváveis melhor, já que – como nada será conforme o esperado – teremos, ao menos, nos divertido enquanto planejamos; e a terceira parte, o passado, as recordações e as vivências que são os alicerces da vida e que nos surgem de repente, trazidas pelo perfume, pelo recorte de uma colina, uma canção antiga, trivialidades que nos fazem murmurar subitamente: ‘Eu me lembro que…’, com um prazer peculiar e quase inexplicável.” Foi assim que Agatha Christie definiu o que entendia da vida em sua Autobiografia. O trecho acima está no prólogo do volume de memórias e confissões da escritora que mais vendeu livros em toda a história. Estima-se que seus 66 romances policiais, seus mais de 150 contos e suas 30 peças de teatro tenham, até hoje, comercializado algo em torno de 2 bilhões de exemplares desde que lançou O Misterioso Caso de Styles, em 1920, sua estreia na literatura. Nos 55 anos seguintes, ela redefiniu o gênero das histórias de mistério e de detetives, lançando os parâmetros de uma revolução no gênero, que nunca mais seria o mesmo. Ainda que ela tenha boa companhia nesse nicho literário – Dashiel Hammet, Simenon, James Ellroy, entre tantos –, e que tenha surgido após o pioneiro de tudo – Edgar Allan Poe –, seu impacto é inigualável. Basta mencionar seus dois personagens principais.