Do corte da cana-de-açúcar no Sítio Canastra, localizado próximo ao município de Cristianópolis, interior de Goiás, até a venda da rapadura na capital, a família de seu Benedito Ribeiro Dos Santos, 67 anos, é quem faz tudo. “É tudo manual. Meu pai conta que é tradição da família e está passando de geração em geração”, conta Edilaine dos Santos, filha de seu Benedito.Ela e o marido, Valdemir Pires dos Santos, auxiliam no processo de produção e fazem as entregas toda segunda-feira em Goiânia. É nesse dia que Luciana Antônia de Sousa, prima de Edilaine, e sua filha Gabryella Sousa de Araújo recebem as encomendas para vender na loja Coisas da Roça, no Setor Rodoviário. “Meu pai conta que aprendeu a produção quando era criança. Tinha uns 6 anos de idade quando meu avô levava ele para a roça de cana”, recorda-se Edilaine. Ela ainda se considera aprendiz, mas garante a intenção de dar seguimento à tradição da família.Depois de pegar a estrada, a rapadura de seu Benedito chega até o comércio da sobrinha que é um cantinho da roça na cidade. “A rapadura, o melado e a moça branca que eu vendo são todos de produção deles”, diz Luciana. Atualmente ela não fica mais na loja e quem recebe os clientes é a filha, que anota os pedidos especiais e cuida das vendas. Entre os doces citados derivados da cana citados, tem um que é o preferidinho: “A rapadura, com certeza”, garante Gabryella.A base da rapadura é a cana-de-açúcar cortada sem a queima, que passa pelo processo de moagem e fervura em tacho de cobre até virar um melado em ponto de “puxa”; com o ponto certo atingido, a massa é retirada com uma concha e vai para cochos de madeira, onde será batida com o auxílio de uma régua de mesmo material. Depois disso, passa pelo resfriamento, moldagem e secagem. As origens da rapadura remetem ao continente europeu no século 16, com registros nas Ilhas Canárias, território espanhol. Foi uma solução para transportar o açúcar em longas viagens, já que seu formato em barra era menos perecível e não umedecia facilmente.O fato é que a rapadura ainda hoje é muito consumida em mais de 30 países do mundo. Apesar de tão enraizada na nossa cultura, o Brasil está na sétima posição na produção dos tabletes derivados da cana, com a Índia em primeiro lugar. Muito popular em regiões com forte tradição rural, geralmente é produzida por familiares, comunidades rurais e pequenas cooperativas devido ao seu processo artesanal. É recomendada por nutricionistas pela grande riqueza nutricional: fonte de ferro, cálcio, minerais, vitaminas e pode ser um substituto do açúcar refinado — com moderação, é claro.Costume“A produção da rapadura é bem forte em Goiás, é costume que vem lá dos nossos avós”, afirma o produtor e instrutor do Senar Antônio Geraldo de Souza, de 72 anos. Já são 64 anos de produção artesanal de rapadura, tradição que já foi passada para o seu filho. A casa onde mora com a família fica a 94 quilômetros de Goiânia próxima ao município de Vianópolis e pertencia ao seu bisavô. “A casa tem 166 anos e papai mexeu com cana desde que começou a morar aqui”, conta.Em 2003, ele começou a ser procurado para ministrar cursos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural sobre o seu conhecimento com produção de cana-de-açúcar e derivados — além da rapadura, ensina a fazer melado, açúcar e cachaça. “Eu não queria não, ficava recusando. Mas aí eu falei que ia experimentar, sem garantir nada. Hoje já estou há 17 anos nessa”, recorda-se. Além de ensinar as próximas gerações da família, Antônio ministra cursos em Goiás e fora do Estado para agricultores familiares repassando os conhecimentos que aprendeu com seu avô e seu pai.Melado e moça brancaEntre as tendências dos últimos anos para as dietas, falou-se muito do melado. O substituto do açúcar é um adoçante natural e ganha pontos pelos nutrientes como ferro, magnésio e ferro. Se para muitos o melado é uma novidade, na cultura rural ele é protagonista há muito tempo. Também feito no tacho de cobre, Antônio diz que é preciso se atentar ao ponto ideal — antes do ponto de “puxa”, buscado para a rapadura.Gabryella Sousa de Araújo mostra o ponto ideal do melado atingido pelo avô Benedito e pela tia Luciana, produto grosso e escuro. Já a moça branca, que também faz sucesso na procura dos doces da roça, passa por um outro processo depois do melado. “É como se a rapadura e a moça branca fossem da mesma família”, diz. Com o melado separado, é hora de bater, na mão mesmo e com uma colher, até ir clareando e dar o ponto do doce. “Tem que saber o ponto exato, esse é o difícil. Tem que estar na temperatura certa para bater e em quantidade pequena”, explica a produtora Edilaine dos Santos.-Imagem (Image_1.2114438)-Imagem (Image_1.2114444)