Há personagens que exigem do ator uma mudança de visual, um sotaque ou uma nova maneira de falar. Para Ana Hikari, interpretar Duda em Emergência 53 (a série estreou dia 19 no Globoplay) significou ir bem além disso: ela precisou aprender a dirigir veículos de grande porte, entender de mecânica e até encarar uma prova prática para conseguir a habilitação necessária para conduzir uma ambulância.A atriz é responsável por dar vida à condutora e mecânica da Unidade 53, equipe que atende ocorrências de emergência pelas ruas. Para chegar ao set preparada para as cenas de ação, ela fez 20 aulas de autoescola dirigindo um ônibus e passou pelo processo para obter a carteira de categoria D, que permite conduzir veículos como ônibus, micro-ônibus, vans e caminhões.“Tive de fazer a aula e a prova, e foi um nervosismo enorme, porque a prova aconteceu dois dias antes de eu me mudar para o Rio”, conta ela “Se eu perdesse, já era, porque teria de me mudar e só conseguiria fazer a prova novamente dois meses depois.”O elenco passou por um período de treinamento para reproduzir com mais precisão os procedimentos e as funções dos profissionais retratados na série. “É uma personagem muito complexa que me fez dirigir ambulância, aprender a dirigir carro de grande porte e me enfiar embaixo de ambulância também porque tive de aprender coisa de mecânica”, destaca.O treinamento acabou criando uma espécie de rotina paralela para os atores. Enquanto alguns aprendiam procedimentos médicos, Ana se dedicava à parte mecânica e à condução do veículo usado nas cenas.“Às vezes, eu estava no nosso galpão, na nossa base, e olhava para o lado: a Raquel (Villar, que vive a enfermeira Vanessa na série) costurando uma banana, sabe? Depois, olhava para o outro lado e estava o Emílio (Dantas, intérprete do médico Pedro) treinando um PCR. Cada um estava aprendendo uma habilidade nova.”“Quando eles olhavam para o lado, estava eu embaixo de uma ambulância, mexendo nas coisas do óleo”, brinca a atriz. “Então, cada um de nós está preparado para o fim do mundo depois dessa série (risos).”Para Ana, a experiência prática ajudou a reproduzir a sensação de urgência dos atendimentos realizados fora de um hospital. Em vez de interpretar a movimentação de uma ambulância apenas com o veículo parado ou por meio de recursos de filmagem, parte do elenco precisou lidar com a dinâmica real da condução.“Tem muitos diálogos que acontecem enquanto a gente está dirigindo e eu acho que o fato da gente ter dirigido de fato em algumas cenas trouxe um ritmo assim muito bacana, que deixou todo mundo num estado interessante pra série”, avalia.“Tanto eu quanto nossos colegas estávamos lá dentro da ambulância, confiando no nosso taco”, lembra. “Acho que isso conseguiu deixar a gente numa adrenalina necessária para que... é isso que é o ritmo dos atendimentos de emergência na rua.”Ao falar sobre Duda, Ana destaca que a personagem também representa uma oportunidade de mostrar o trabalho dos condutores de ambulância. Além de levar a equipe até o local das ocorrências, esses profissionais são responsáveis pela segurança durante o deslocamento e fazem parte da engrenagem dos atendimentos de emergência.“Os condutores e os enfermeiros sempre foram subvalorizados e invisibilizados, né, dentro do audiovisual”, afirma. “A gente é responsável pela segurança da equipe, a gente é responsável pela condução em segurança até o local dos atendimentos, né? E é uma categoria assim que, pô, é pouco falada.”A atriz também chama atenção para a presença feminina na profissão. Para ela, mostrar mulheres no comando de ambulâncias de emergência ajuda a ampliar a representação de uma atividade que ainda é pouco retratada dessa maneira.“Tem muitas mulheres condutoras, isso também é pouco falado”, diz. “E é muito importante assim poder mostrar, dar visibilidade para esses profissionais, porque eles existem e eles não são vistos e eles são, cara, muito dedicados, muito apaixonados.”O contato com profissionais que atuam no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) acabou ultrapassando o período de preparação. Ana conta que criou uma relação de proximidade com algumas condutoras que a ajudaram a entender a rotina da profissão. Uma delas, Tiane, chegou a mandar uma mensagem para a atriz falando sobre a expectativa de acompanhar a série.“Bom dia, meu amor. Olha, tô doida para ver essa série aí, hein, da minha condutora aí, hein”, diz a profissional no áudio recebido por Ana. A mensagem virou uma espécie de confirmação para a atriz de que o trabalho feito pelo elenco também poderia ter significado para quem exerce aquela função na vida real.“Outro dia, vi uma ocorrência e passei pelo condutor. A gente se olhou e ficou aquela sensação de ‘amigo, eu sei como é’. Quando vejo uma ambulância do Samu na rua, penso: Eu sei como vocês estão, sei o que estão vivendo. Estamos juntos, gente.”