Uma dor intensa no peito que durou 5 segundos. O incômodo não chegou a mudar os planos do chefe operacional Josué Rodrigues dos Santos, de 39 anos, de comer pastel na feira com a namorada. A dor aguda passou, mas deixou certo mal estar. “Isso aconteceu na noite de uma sexta-feira. Achei que era um problema muscular ou de má digestão”, conta Josué, que na época tinha 36 anos. O fim de semana foi à base de analgésico, mas nada fazia a dorzinha chata passar.Na segunda-feira, ele foi trabalhar normalmente. O que o rapaz não imaginava era que o coração jovem, que teoricamente pulsa com força e vitalidade, andava batendo fora de compasso. Na terça, ele finalmente procurou um serviço de saúde. “Tomei um susto quando ouvi a palavra enfarte. Eu estava enfartando. Saí do consultório direto para a internação. O médico me disse que escapei da morte por muito pouco”, conta. Após o cateterismo, exame para diagnosticar lesão nas artérias coronárias, foram colocados seis stents, espécie de tubo que abre a artéria e permite a passagem de sangue, em Josué. Em uma das artérias, a obstrução era superior a 90%.O susto que Josué tomou tem se repetido com mais frequência em pessoas com menos de 39 anos no Brasil. Dados do Ministério da Saúde indicam que entre 2010 e 2019 houve aumento de 59% nas internações de pessoas nessa faixa etária por enfarte e de 9% nas mortes. A principal causa do problema é a aterosclerose, doença caracterizada pelo acúmulo de gordura, colesterol e outras substâncias no vaso sanguíneo.Com o passar do tempo, pode haver entupimento da artéria e interrupção do fluxo sanguíneo para o coração, o que leva ao enfarte. “Esses dados são alarmantes. É preciso reforçar a necessidade de check-up cardiológico regular para os pacientes mais jovens. Essa crença errada de que não estariam no grupo de risco para doença prejudica, pois muitos pacientes pensam que não precisam ir ao cardiologista, não se preocupam em se exercitar ou em ter uma dieta mais balanceada e, muitas vezes, abusam do consumo de bebidas alcoólicas e cigarro”, explica o cardiologista Flávio Borges.Metade dos enfartes pode ser prevenida apenas com alterações no estilo de vida. Parar de fumar, qualquer tipo de cigarro, por exemplo, é considerado um dos mais decisivos. Grande estresse emocional também é considerado gatilho para doenças do coração. Não por acaso é comum notícias de atletas, como jogadores de futebol, que mesmo com pouca idade e hábitos de vida saudáveis sofram com ataques cardíacos. Devido ao crescente número de pacientes com quadro de enfarte abaixo dos 40 anos, a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que todos devem fazer check-up anual a partir dos 35 anos.“Pacientes portadores de hipertensão e diabetes ou com forte história familiar para doença coronariana, devem procurar o médico a partir dos 20 anos”, aconselha Flávio Borges. O aumento do sedentarismo, estresse e má alimentação são alguns fatores que podem explicar o porquê tantos jovens brasileiros se tornaram vítimas das doenças do coração. A desinformação aumenta o risco. “Nessa faixa etária, a população ainda não iniciou o acompanhamento de rotina. Sendo assim, são pegos de surpresa por algum evento cardiológico”, explica o cardiologista Arthur Pipolo.Sintomas mascaradosUm dos grandes problemas do enfarte é que nem sempre é possível reconhecer os sintomas com precisão. Essa dificuldade aumenta em quem é jovem e acredita estar imune ao problema. Dor no peito, que pode irradiar para o braço esquerdo, abdome ou pescoço, falta de ar, mal-estar, sudorese, fadiga e náusea são fortes indicações de enfarte. O problema é que cerca de um terço das pessoas que sofre enfarte não sente a dor característica.“Quanto antes o paciente for avaliado, maior a chance de sucesso no tratamento. Dor torácica é sinônimo de procura urgente ao pronto atendimento hospitalar”, explica o cardiologista Arthur Pipolo. Nos casos de enfarte, existe uma máxima que diz que “tempo é músculo“. “Isso porque, quanto antes o paciente for atendido e tiver o fluxo sanguíneo normalizado nas artérias, menor a lesão muscular será causada ao seu coração. Isso diminuiu a chance de morte e de sequelas cardíacas graves como a insuficiência cardíaca”, ressalta o cardiologista Flávio Borges.“De forma resumida, nos últimos anos, os jovens se tornaram mais sedentários, com alimentações irregulares, aumento do consumo de álcool e tabaco, além do aumento do nível de estresse evidenciado durante a pandemia do coronavírus. Esses fatores associados podem ter influenciado o aumento do número de casos de enfarte em jovens”, explica a cardiologista Juliana Coragem.A médica lembra que um estudo realizado nos Estados Unidos com pacientes abaixo de 45 anos com enfarte agudo do miocárdio demonstrou que 80% desses jovens eram do sexo masculino e a grande maioria (83%) tinha pelo menos um fator de risco cardiovascular como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, dislipidemia e história familiar. “Sendo que a dislipidemia - colesterol ou gorduras anormalmente elevados no sangue - foi o fator de risco mais comum (55%)”, destaca.Como evitar um enfarte- Controle a hipertensão e o diabetes.- Controle os níveis de colesterol e evite o exagero de bebidas alcoólicas.- Evite o estresse e mantenha uma dieta equilibrada.- Faça exercícios e tente manter o peso ideal.- Não fume.