Quem viveu a época de ouro do rock independente brasileiro lembra bem do fenômeno Black Drawing Chalks. Formada há 20 anos, a banda teve tudo aquilo que jovens poderiam querer quando decidem formar uma banda, de dividir palcos com ídolos ao redor do mundo até videoclipes sendo indicados a prêmios na MTV. Os fãs ficaram órfãos de músicas inéditas por sete anos, mas ganharam motivo para comemorar neste mês de agosto: o Black Drawing Chalks está de volta.Na sexta-feira (29), o single Deep Tricks entrou em todas as plataformas de streaming, o segundo lançamento desse esperado retorno. No dia 1º de agosto, Date on a Grave entrou no ar, oficializando a nova etapa da banda. Os dois singles foram gravados e produzidos em Goiânia pelo produtor Braz Torres, que integra a formação atual do grupo. “A gente está chegando nos 40, né? Estamos muito mais maduros. Sem o mesmo vigor físico, mas com certeza mais maduros”, comenta o vocalista Victor Rocha. Quem já conferiu as novas músicas deve ter percebido algumas novidades na sonoridade. “Estamos fazendo músicas menos viscerais agora. Antigamente, a gente fazia música pensando nos shows, que precisavam ser enérgicos. Agora a gente quer fazer música para ouvir e curtir”, explica. “Acho que essa é a grande diferença do BDC de antes e o de agora. E, consequentemente, quando as pessoas gostarem das músicas, o show vai ser divertido também”, diz.Apesar do longo período sem lançar trabalhos inéditos, a banda continuou na ativa fazendo apresentações de forma esporádica. “A banda não chegou a acabar, mas muita coisa aconteceu. Eu tive minha filha, veio a pandemia, então a banda deixou de ser prioridade, mas eu sempre tive o hábito de compor músicas que vou engavetando. Vou salvando as ideias e de um tempo pra cá a gente resolveu pegar algumas e trabalhar nelas para ver o que virava”, conta Victor.Criada em 2005 em Goiânia, o Black Drawing Chalks foi um dos pioneiros da chamada cena stoner da capital goiana ao lado de bandas como MQN e Mechanics. É citada como influência na criação de bandas como Hellbenders, Overfuzz, Dry, Desert Crows e Goldfish Memories. Poucos anos mais tarde, já era destaque no cenário musical nacional e internacional, passando por palcos como Lollapalooza, SWU, South by Southwest (EUA) e Canadian Music Week (Canadá). Já tocou ao lado de nomes como Motörhead, Rage Against The Machine, Black Label Society e Eagles of Death Metal.Life is a Big Holiday for Us (2009) foi o álbum responsável pela grande virada de chave do grupo. O vídeo da música My Favorite Way foi responsável pelas três indicações ao VMB, premiação da MTV, no mesmo ano. O clipe foi feito em uma parceria do coletivo Bicicleta sem Freio com o estúdio Nitrocorpz. A base fiel de fãs que a banda conquistou ao longo dos anos está sempre na plateia dos shows, ainda que fossem bem esporádicos nos últimos anos.“Não temos muitos seguidores, mas tem uma galera que vai em todos os shows. A gente tocou agora em São Paulo e reencontrou muita gente que não víamos há anos. É muito bom ver que as pessoas fazem questão de comparecer até hoje”, comenta o vocalista. “Um dos shows que eu mais me diverti foi um que a gente fez no ano passado, que foi de dia, então foi muita criança, filhos dos nossos amigos e, inclusive, a minha filha foi. Eles se divertiram muito e foi uma novidade pra mim tocar para criança”, conta.No palcoDouglas de Castro na bateria, Denis de Castro no baixo e Victor Rocha no vocal e guitarra dão as boas vindas a Braz Torres na guitarra do Black Drawing Chalks. Eles estão ensaiando para o primeiro show do novo trabalho, previsto para sair também em vinil pela Monstro Discos. O palco do Martim Cererê recebe a banda no dia 6 de novembro dentro da programação do Goiânia Noise Festival, que celebra 30 anos de história.“A gente preparou um show diferente. Pelo menos metade do repertório é música que a gente nunca tocou ao vivo”, adianta Victor. “É um show mais ensaiadinho, menos visceral. Coisas que a idade traz, né? Estamos mais preocupados agora em nos divertir de forma natural do que mostrar que a gente tem energia e tal. Claro que consequentemente a energia vai vir e em alguns momentos vai parecer que temos 20 anos de novo”.Marcar esse retorno no Martim Cererê tem significado especial. É tipo tocar em casa. “Estou empolgado com esse show, porque o Martim é um lugar que geralmente a galera interage mais”, diz. Ele explica que tem duas classificações de shows: o “palcão” e o inferninho, que é num palco pequeno, próximo do público, em que rola uma troca de energia muito próxima. “O Martim Cererê é um meio termo ali. Ele permite a vibe mais inferninho, mas tem uma boa estrutura também. É o melhor dos dois mundos e um dos meus lugares preferidos para tocar. Acho que é, inclusive, um dos lugares que a gente mais tocou na vida e toda vez que a gente volta lá é muito bom”, conta.