Arrastando-se feito cobra pelo chão, a Procissão do Fogaréu voltou a iluminar a noite da quarta-feira de trevas na cidade de Goiás. Ruas e becos de pedra da antiga capital do Estado serviram de cenário para a manifestação cultural e religiosa que atraiu – de acordo com dados da Secretaria Municipal de Cultura – cerca de 3 mil pessoas, entre turistas e moradores. O primeiro registro da celebração que retrata a perseguição e a prisão de Jesus Cristo na Semana Santa na cidade é de 1745. Muito antes de a encenação começar, por volta das 19 horas, a Praça do Coreto, um dos mais belos cenários da cidade, já estava tomada por turistas das mais variadas partes do Estado e do Brasil. O clima quente e abafado favoreceu a degustação de um dos símbolos do lugar: o picolé de frutos do Cerrado vendido na sorveteria que funciona embaixo do Coreto. Uma minipraça de alimentação foi montada em uma das ruas laterais. Vendedores ambulantes também atraíam a atenção das crianças com marionetes em forma de farricocos, fiéis encapuzados que representam a guarda romana e os homens que abrem os cortejos de execução. Quem chegou antes aproveitou para comprar artesanato, lembrancinhas e doces de frutas cristalizadas no comércio em volta da praça que ficou aberto até a meia-noite, horário do início da encenação. Todos os leitos da rede hoteleira da cidade estavam ocupados. Momento de reencontro de famílias e amigos, o clima festivo que antecede a Procissão do Fogaréu é também uma das marcas registradas do evento. Este ano, o escândalo envolvendo o empresário Carlos Cachoeira, acusado de comandar uma máfia dos jogos ilegais, e sua relação com políticos goianos dominaram o assunto nas rodinhas de bate-papo. Encenação Faltavam 30 minutos para a meia-noite, quando as luzes dos lampiões que iluminam o Centro Histórico da cidade, declarada em 2001 como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, foram apagadas. O plenilúnio vilaboense – como definiu dom Tomás Balduíno, bispo-emérito de Goiás – (na verdade ainda a Lua em quarto crescente) era a única fonte de iluminação até a chegada na Igreja da Boa Morte dos 40 homens encapuzados e de túnicas coloridas, que como soldados romanos saíram em disparada pelas ruas na encenação da perseguição a Jesus Cristo. Seguidos por uma multidão de turistas e moradores, os farricocos caminharam de pés descalços e com passos firmes e acelerados em direção à Igreja do Rosário. Na primeira parada, uma grande mesa simbolizava a última ceia. Aqui um velho problema que acaba prejudicando o espetáculo, em especial para os turistas de primeira viagem: as tochas distribuídas para quem ainda não tem responsabilidade suficiente para lidar com o fogo. Adolescentes e até mesmo crianças seguiam com tochas à frente da procissão, colocando em risco a si e aos outros espectadores. Da Igreja do Rosário, a procissão seguiu no ritmo do tambor até a Igreja de São Francisco, que representa o Monte das Oliveiras, onde termina a perseguição. Ver ao vivo o reflexo das chamas dos farricocos nas águas do Rio Vermelho é recompensador para quem, a esta altura, transpira em plena madrugada vilaboense. O toque melancólico do clarim anuncia a prisão de Jesus Cristo, representado por um estandarte pintado pelo artista plástico Veiga Valle. Emocionado, o público acompanha em silêncio os minutos finais da procissão. Em seu sermão, dom Tomás Balduíno, bispo-emérito de Goiás, citou reportagem do POPULAR de 7 de agosto de 2011 que mostrou que de 1º de julho a 3 de agosto do mesmo ano cerca de 94 pessoas morreram em Goiás à espera de uma vaga em unidade de tratamento intensivo (UTI). Ele relacionou os problemas de saúde pública, tema da 49ª Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com a ação das empresas multinacionais que produzem agrotóxicos. Dom Tomás criticou ainda o corte no orçamento da Saúde de R$ 5,4 bilhões anunciado pelo governo federal e a iniciativa privada que, segundo ele, transformou o direito à saúde em uma fonte inesgotável de lucro. Na volta da procissão ao ponto inicial, a Igreja da Boa Morte, mais um problema que compromete a beleza da manifestação cultural e religiosa. Os bares em volta da praça não desligaram o som, em altíssimo volume, durante a passagem do cortejo. Mais do que um sinal de desrespeito, um verdadeiro tiro no pé porque é justamente aquele evento que eles atrapalhavam que atrai e encanta tanta gente que decidiu escolher Goiás como destino turístico na Semana Santa.-Imagem (1.139318)-Imagem (1.139317)