Com a retomada da safra de filmes religiosos no cinema nacional, entra em cartaz hoje o drama Aparecida, O Milagre, dirigido por Tizuka Yamazaki. Com Murilo Rosa, Maria Fernanda Candido e Bete Mendes no elenco, o longa-metragem chega ao mercado com a expectativa de grandes bilheterias, caso dos recentes Chico Xavier, O Filme e Nosso Lar, produções de temática espírita. A trama intercala a trajetória de um empresário que passa a questionar sua fé religiosa com a história da devoção à santa católica no Brasil.O ator global Murilo Rosa interpreta Marcos, um homem que perdeu a fé em Nossa Senhora Aparecida quando sofreu uma tragédia, ainda na infância. Já adulto, uma segunda tragédia acontece em sua vida. Com uma ótima situação financeira, Marcos vive infeliz por causa dos conflitos com o filho Lucas, que não que ser empresário como o pai, e sim um artista.Quando o rapaz sofre um grave acidente, o protagonista revive o trauma que experimentou quando era menino. Paralelamente, a narrativa destaca o fenômeno que tornou Nossa Senhora Aparecida a Padroeira do Brasil: uma imagem de barro encontrada em 1717 no fundo do Rio Paraíba do Sul e seu primeiro milagre, ao encher de peixes as redes.EcumênicoProjeto dos produtores Gláucia Camargos e Paulo Thiago (também diretor), o filme começou a ser pensado em 2006, em parceria com a Paramount. A entrada de Tizuka Yamasaki no projeto só aconteceu em meados de 2008, no período de finalização de Xuxa em o Mistério da Feiurinha.Apesar de Aparecida estar sendo tratado como uma espécie de resposta ao êxito dos filmes espíritas, o produtor Paulo Thiago prefere falar do longa em um tom mais ecumênico. "O povo brasileiro é muito místico. O catolicismo, a umbanda, o espiritismo, as religiões evangélicas, o sincretismo religioso fazem parte do cotidiano. Embora nosso projeto seja muito anterior e diferente de produções recentes sobre o tema religioso, ele não é um filme histórico ou de doutrinação. É um filme contemporâneo", defende.Tizuka Yamasaki ressalta que nunca tinha feito um filme sobre religião até então, mas destaca a importância da fé em qualquer projeto em sua vida. "Quando você dirige um filme, a primeira coisa é acreditar no que está fazendo, sobretudo quando o tema é a fé religiosa. Não tenho religião, mas depois de uma certa idade você começa a cultivar um lado espiritual", revela.Para a diretora, durante as filmagens, uma das principais motores que a levaram adiante foi a curiosidade sobre as grandes mobilizações em torno de questões religiosas. "O tema principal de Aparecida, o Milagre é justamente a questão da fé, da conversão. Esse era o maior desafio. Sempre gostei de fazer filmes sobre temas que não abordei ? e muita coisa é descoberta durante a realização. Nesse processo, eu me perguntei inúmeras vezes sobre as causas de fenômenos como o de Nossa Senhora Aparecida, ou do Círio de Nazaré - por que tanta gente compactua profundamente desta fé? Este mistério me interessa, e o filme foi uma forma não de decifrar o mistério, mas de chegar mais perto", observa.ANÁLISESem substânciaVazio de ideias e com excesso de clichês, Aparecida vulgariza a féCertos filmes vêm junto com um ato de fé. Chico Xavier, caso recente, está nessa categoria: toda sua evolução conduz à reafirmação da crença segundo a qual existe um além da vida e de que até é possível travar contato com essa esfera.Aparecida, O Milagre, sendo um filme da mesma categoria, começa por produzir algumas questões enigmáticas: a quem se dirige? Quem é seu público alvo? Os crentes católicos que abandonaram a fé? Os que trocaram de religião levados pela inflação de milagres da TV? Ou a nova classe C (suposta inocente em termos de fé e estética, mas emergente para o consumo)?Seja lá o que for, existe algo estranho nisso tudo. Hoje, as referências do filme popular vêm quase sempre da TV. Chico Xavier nos remete à Globo; Nosso Lar, às novelas da velha TV Tupi. Aparecida parece associar dramaturgia circense ao "cinema profissional brasileiro"".O resultado é o seguinte: Marcos perde o pai, operário que cai de um andaime durante a construção da basílica de Aparecida do Norte. O garoto perde a fé e revolta-se contra a santa. Anos e anos depois, ressurge como empresário do ano, porém homem amargurado, separado da mulher (não divorciado, atenção), pai incapaz de se relacionar com o filho etc.Para resumir, Marcos (Murilo Rosa) torna-se uma clicheria ambulante. Ou alguém "sem espaço interior", para usar a definição da amante. Em troca, sobra-lhe espaço exterior: vive numa casa enorme e vazia, como convém aos materialistas bem-sucedidos. Só o mobilizam afetivamente as fotos tiradas ao lado do pai.Os demais personagens são muito mais atraentes: a mulher, sufocada, deixa Marcos para seguir a carreira de pianista; o filho, ex-drogado, quer ser ator, mas o pai o quer industrial. Não haverá pecado em antecipar que esses ralos traços de caráter existem para preparar uma desgraça e o milagre que virá resgatá-lo.Aceitemos que o cinema seja, em certos casos, um vulgarizador da fé. Mas dentro de certos limites. Se pretende competir com os neopentecostais em matéria de milagre, não vai dar pé: eles produzem pilhas desses, ou até melhores.Se pretende enviar uma mensagem que fale ao tempo presente em vez de tapear fiéis incautos, seria desejável ao menos propor um roteiro em que os diálogos não se repitam de forma tão ostensiva, em que o vazio de ideias não se manifeste tanto em suas imagens. O catolicismo parece apenas uma religião atrasada, a julgar por Aparecida, O Milagre. Ao não ser, claro, pela inovação teológica que consiste na introdução da figura da boa amante, na pessoa de Maria Fernanda Cândido. (Inácio Araujo, São Paulo/Folhapress)FICHA TÉCNICAAparecida, o Milagre: Brasil/2010Direção: Tizuka YamazakiElenco: Murilo Rosa, Maria Fernanda Candido, Jonatas FaroCines: Cinemark 2, SR Goiânia 3, Buriti 4, Multiplex Banana 5, Lumière Araguaia 3, Lumière Bougainville 3, Lumière Portal Norte 3 e Lumière Portal Sul 4DEVOÇÃO NA TELONAConfira outras produções nacionais de temática religiosa:Maria, Mãe do Filho de Deus (2003)Direção: Moacyr Góes. No começo dos anos 2000, quando o padre Marcelo Rossi revelou-se um fenômeno das massas com grande empatia na mídia do entretenimento, o filme religioso começou a se projetar. Maria, Mãe do Filho de Deus mistura personagens da Bíblia com tipos contemporâneos. A trama se passa num povoado miserável, nos dias de hoje, no interior do Brasil, onde vive uma menina vítima de uma grande enfermidade. Sem recursos econômicos, mas com muita fé, a mãe da garota parte numa viagem em busca de um milagre para curar sua filha.Irmãos de Fé (2004)Direção: Moacyr Góes. O padre Marcelo Rossi retorna à tela resgatando o surgimento da Igreja Católica, e elege como tema a história de Paulo, que de perseguidor de cristãos torna-se um dos principais pilares na conquista de novos adeptos em várias partes do Oriente Médio e da Europa. Numa narrativa paralela, acompanhamos o processo de redenção de um menino delinquente que está internado na Febem. O estilo dos filmes, que ainda inclui elenco global, não se parece por acaso: o diretor é o mesmo, Moacyr Góes, que dirigiu vários longas de sucesso de Xuxa, assim como Tizuka Yamasaki.Chico Xavier, O Filme (2009)Direção: Daniel Filho. Apesar de muito católico, o povo brasileiro é apontado como um dos principais nichos do espiritismo no mundo. Em 2007, uma produção nordestina de baixo orçamento, Bezerra de Menezes, fez sucesso inesperado com uma ficção baseada na vida de um dos pioneiros do espiritismo. Daniel Filho, com o padrão Globo de qualidade e dramaturgia, contou trechos da vida do médium mineiro Chico Xavier utilizando com maestria um excelente material de arquivo (uma longa entrevista do médium para a TV) e ficção.Nosso Lar (2010)Direção: Wagner de Assis. O filme é baseado num dos principais títulos da literatura espírita, obra homônima escrita por André Luiz e psicografada pelo médium Chico Xavier. Em foco, a história de um médico que passa por várias etapas da vida após a morte. O mundo espiritual descrito no livro se transforma em imagens numa estética cibernética apoiada em efeitos especiais digitais. Como Chico Xavier, o longa foi um estrondo nas bilheterias, com cerca de 3,5 milhões de espectadores.OUTRAS ESTREIAS28 anos depois, "Tron" ganha sequênciaVinte e oito anos após o filme que originou a franquia da Disney, chega aos cinemas a continuação Tron ? o Legado. Assim como Tron ? Uma Odisseia Eletrônica (1982), o longa é estrelado por Jeff Bridges, que parece não ter envelhecido. Acontece que sua imagem sofreu um incrível tratamento digital que deixou o ator de 61 anos com cara de 30 e poucos.Bridges interpreta Kevin Flynn, um criador de softwares, que, com o game Tron, transformou sua empresa, chamada Encom, em um império. Ele desaparece misteriosamente, deixando para trás o filho de sete anos, Sam (Garrett Hedlund).Passam-se 20 anos, e o jovem tem indícios de que o pai ainda estaria vivo. Ao investigar, reencontra Flynn, não no mundo real, mas no interior de um jogo de videogame chamado The Grid ("a grade""). Mais do que brincadeira, os dois se unem para vencer obstáculos e inimigos na esfera virtual.O ritmo da história é lento, e o seu conteúdo é fraco. Não faltam referências ao filme original e até mesmo a Blade Runner (1982), porém não se equipara a eles. A continuação vale mesmo pelos deslumbrantes efeitos visuais que a compõem. Disponível em 3D (ainda que muitas cenas sejam apenas em 2D), pode ser considerado o novo Avatar. Isso sem falar na monumental trilha sonora da dupla de música eletrônica Daft Punk, que faz ponta em uma cena que poderia muito bem ser um dos seus videoclipes. (Carlos Messias, São Paulo/Folhapress)FICHA TÉCNICATron ? O Legado: EUA, 2010Direção: Joseph KosinskiElenco: Jeff Bridges, Garrett Hedlund e Olivia WildeSalas: Cinemark 1, Cinemark 8, SR Goiânia 5, Buriti 2, Buriti 5, Ritz 1, Multiplex Banana 1, Lumière Araguaia 1, Lumière Bougainville, Lumière Portal Norte 3, Lumière Portal Sul 1ANÁLISEFilme tem efeitos de primeira e atuações de segundaNa época de seu lançamento, Tron (1982) foi visto não como um grande filme, mas como uma pequena revolução tecnológica, porque nunca se havia usado a computação gráfica no cinema de forma tão ampla. Pouco tempo depois, estava datado.Tron ? O Legado, sua sequência, deve ter destino semelhante ? mas provavelmente irá se tornar ultrapassado de forma mais rápida. A novidade, aqui, é a recriação digital do rosto do jovem Jeff Bridges (protagonista do original) e sua "colagem"" no corpo de outro ator.Na tela, o resultado ainda parece artificial. Mas a técnica pode abrir caminho para um (temido ou desejado) futuro em que outros atores ? Brando, por exemplo ? sejam ressuscitados digitalmente para novos filmes.De resto, como seu original, Tron ? O Legado é um filme que se sai melhor na superfície do que na substância: efeitos e trilha sonora de primeira, atuações de segunda, roteiro de quinta.Se no visual Tron ? O Legado aponta para o futuro, sua trama está atrelada ao passado. No primeiro, o engenheiro Kevin Flynn vai parar em uma realidade virtual. Na sequência, seu filho tenta resgatá-lo, mas tem de enfrentar o avatar do pai. Não apenas na trama se sente o peso do passado, mas também na mistura desajeitada de referências a Star Wars, Matrix e sobretudo Blade Runner. Em dado momento, o filme nos remete a um velho clipe do Daft Punk. Em outro, se parece com uma festa Trash 80"s, por sua revisão condescendente daquela década.No reino da fantasiaDo mesmo diretor de Metropolis (2001), Rin Taro, entra em cartaz mais uma atração para o público infanto-juvenil: a animação O Mundo Encantado de Gigi, sobre uma garotinha que sonha em poder voar. A menina do título dá asas literalmente à sua imaginação fértil quando ganha de presente uma fantasia de pinguim. O filme é uma coprodução Japão e França.A protagonista é ridicularizada por suas amiguinhas e, apesar dos avisos de que pinguim não voa, Gigi ainda acredita que poderá realizar seu desejo. Numa noite, ela recebe um convite muito estranho para viajar para um mundo mágico, onde vivem pinguins e várias criaturas muito diferentes e alegres como Gigi.O problema é que os habitantes deste universo fantástico precisam de alguém para salvá-los de uma vilão muito poderoso e acham que a atrevida Gigi será sua salvadora. (Ricardo Calil, São Paulo/Folhapress)FICHA TÉCNICAO Mundo Encantado de Gigi: França/Japão, 2009Direção: Rin TaroCines: Lumière Araguaia 5 e Lumière Bougainville 5