Mais de 1.200 obras catalogadas fazem do Museu de Arte de Goiânia (MAG) um importante retrato da produção visual do Brasil Central, sobretudo de Goiás. A coleção, formada majoritariamente por doações, reúne nomes como Antônio Poteiro, Siron Franco, Ana Maria Pacheco, Paulo Fogaça, Frei Confaloni, Gustav Ritter, entre outros. A riqueza do conjunto, porém, contrasta com problemas estruturais, como a falta de climatização adequada, de profissionais especializados e de espaço físico.Nas últimas semanas, informações sobre o futuro do museu pegaram de surpresa parte da classe artística e levantaram dúvidas sobre o destino da coleção e os planos da Prefeitura para a instituição. Em meio às especulações sobre uma possível doação à iniciativa privada, permanece uma questão central: como garantir que um conjunto dessa dimensão continue sendo preservado, estudado e acessível ao público?Secretário municipal de Cultura, Uugton Batista afirma que não existe qualquer negociação para transferência do acervo. “Não existe essa conversa”, diz. Segundo ele, o caminho planejado pela Prefeitura é outro: a requalificação do museu. “O MAG é muito importante para Goiânia. Estamos trabalhando para fazer uma renovação, uma atualização”, completa. A proposta faz parte de um projeto mais amplo de recuperação dos equipamentos culturais mantidos pela Secretaria Municipal de Cultura.Nos bastidores, a informação de que o arquiteto e designer Léo Romano estaria envolvido na revitalização do MAG também procede. Procurado pelo POPULAR, ele confirmou que já desenvolve um estudo preliminar. “Estou fazendo já um primeiro estudo de uma proposta do que a gente pode fazer para revitalizar e transformar aquele espaço”, afirmou. Segundo ele, ainda não há um projeto definido, mas a expectativa é avançar para o desenvolvimento da proposta em breve.O POPULAR visitou o museu na tarde desta terça-feira (15) e encontrou uma instituição em pleno funcionamento, mas convivendo com problemas que vão da estrutura física às ferramentas de comunicação com o público. Um dos pontos mais delicados é a climatização. O controle adequado de temperatura e umidade é fundamental para a conservação de obras que, em alguns casos, atravessam décadas. O Diretor do MAG, Antônio da Mata, chama atenção para a necessidade de garantir condições apropriadas para guardar a coleção.A falta de profissionais especializados também aparece entre as principais necessidades. O MAG conta com servidores que acumularam conhecimento ao longo dos anos, mas a estrutura de um museu exige equipes dedicadas a diferentes áreas, como conservação e restauração, história da arte e arquivologia. “A realização de concurso público é uma das maiores urgências. É necessária uma equipe especializada”, reitera Da Mata.O espaço físico é outro problema. A coleção cresceu ao longo dos anos e hoje exige uma área maior para armazenamento, conservação e exposição. A reserva técnica possui mobiliário específico para diferentes materiais, incluindo obras em papel, documentos, livros e trabalhos tridimensionais. Cerca de 85% a 90% da documentação, segundo Da Mata, já foi digitalizada. “O próximo desafio é fazer com que esse conteúdo também chegue ao público”, comenta.Para o artista e crítico Enauro de Castro, que publicou artigo no POPULAR falando que a prefeitura pretende se desfazer do equipamento e doar seu acervo ao Sesc, o valor de uma coleção pública não pode ser reduzido ao mercado. “O museu não é galeria, não está direcionado ao mercado”, afirma. Segundo ele, a função de uma instituição como o MAG é justamente preservar uma produção cultural que poderia não sobreviver se dependesse apenas do interesse privado. “O acervo de um museu acolhe a expressão cultural de um povo ou de uma comunidade da forma mais abrangente possível”, diz.Enauro também chama atenção para a dimensão histórica do conjunto reunido pelo MAG. Ele cita trabalhos de Yashira, Heleno Godoy, Gustav Ritter, Confaloni, Tancredo Araújo, Paulo Humberto, Ludovico de Almeida, Liselotte Magalhães, Cleber Gouveia e Selma Parreira como parte de uma produção que ajuda a compreender a formação das artes visuais em Goiás. “É uma coleção que precisa ser reconhecida, estudada e preservada. O MAG é tão jovem quanto Goiânia e já construiu uma história importante. Já é mais do que hora de o MAG ter uma sede à altura do seu acervo”, afirma.O próprio prédio ajuda a entender parte desse descompasso. A construção que abriga atualmente o MAG não foi concebida para funcionar como museu. O edifício havia sido projetado originalmente para abrigar um hospital e só posteriormente passou a sediar a instituição, cuja configuração atual se consolidou nos anos 1990. Com o crescimento da coleção, o espaço passou a lidar com necessidades que não estavam previstas.Apesar das limitações, o museu passou por uma intervenção recente, com uma reforma pontual realizada no início deste ano. A melhoria atendeu a algumas necessidades imediatas, mas não solucionou questões estruturais mais amplas. Da Mata reconhece a importância da intervenção, mas aponta que ainda há demandas que exigem uma ação de maior alcance para adequar o equipamento às necessidades da coleção.É nesse intervalo entre o que já foi feito e o que ainda precisa ser realizado que surge a nova promessa de revitalização. A Prefeitura afirma que o museu está incluído em um projeto de renovação dos equipamentos culturais do município, ao lado do Centro Livre de Artes. Segundo Uugton Batista, a proposta está em fase de projeto e orçamento e deve avançar ainda neste ano. “É uma preocupação nossa melhorar todos os equipamentos da Cultura”, afirma o secretário. Ele diz que projetos de restauro e revitalização dos equipamentos culturais já estão em andamento.Atualmente, 22 servidores trabalham no MAG, segundo a Secult Goiânia. A pasta não detalhou quantos atuam diretamente na preservação e documentação da coleção. A Secretaria também não informou qual é o custo mensal total do museu para os cofres municipais. Procurado pelo POPULAR sobre os rumores de uma possível aquisição da coleção pela iniciativa privada, o Sesc afirmou não ter sido comunicado sobre qualquer doação ou negociação nesse sentido.Enquanto a discussão sobre estrutura e futuro segue em aberto, o MAG não está parado. Nesta quarta-feira (16), o museu abre à visitação pública a mostra Memórias de Dona Lourdes: Ver Para Não Esquecer, que revisita o acidente com o césio 137 em Goiânia. O espaço também recebe o 3º Encontro Nacional de Artistas Naïfs no Centro-Oeste (Enanco). É uma demonstração de que, apesar das dificuldades, a instituição continua recebendo estudantes, artistas, pesquisadores e visitantes. “O museu é público e tem que continuar público. Nós precisamos cuidar dele e dar dignidade a esse acervo”, ressalta Da Mata.