É preciso ter disposição para aguentar horas afinco de dancinhas coreografadas, piruetas no ar, fantasias calorentas e muito sol na cabeça. Em média, a Carreta da Alegria, que ancorou em Goiânia em novembro, quando o Natal da Praça Tamandaré começou, faz dez giros diários pela cidade, em roteiro pré traçado: sai do Setor Oeste, vai para a Praça Cívica, desce a Avenida Anhanguera e sobe a República do Líbano.Música alta, buzina no 12 e paradas estrategicamente posicionadas: não há uma pessoa sequer que não pare para olhar, dançar ou filmar Chaves, Chiquinha, Patati e Fofão dando saltos mortais e rebolando ao som do funk pesadão. Atrás das máscaras fatigantes e das roupas já carcomidas pelo tempo, há jovens brasileiros simples. “É como uma família. Viajamos para vários lugares, de interior a capitais, passamos as festas, os aniversários, enfim, o dia a dia, juntos”, conta o produtor D’Leon Mota, de Goiânia, ex-servidor público que, há cinco anos, largou a repartição e foi investir em parquinho de diversões. Hoje, é ele quem organiza todos os brinquedos do Natal da Tamandaré e em festas de outras cidades do interior.A programação é anual, desde os festejos natalinos, as férias escolares de janeiro, passando pelo carnaval, Páscoa até chegar no Dia das Crianças, em outubro. “Trabalhamos com a alegria. Se não fossem os personagens, a Carreta seria só mais um trenzinho qualquer. Geralmente, as quermesses e festas de igrejas são melhores para nós do que os bailes e festas de pecuária, porque o povo só quer saber de beber, de enfiar o pé na jaca”, explica Mota.Nada é improviso. Cada personagem representa episódios da infância de diferentes gerações, desde a turma do Chaves, famoso seriado de televisão mexicano criado por Roberto Gómez Bolanõs e que está presente na memória de muitos. Dois dos personagens da série integram a Carreta da Alegria: Chaves, o fio condutor de todas as histórias da vila, e Chiquinha, a menina chata e atrevida. Como não amar?Há ainda na turma da Carreta o famoso Fofão, ícone mor dos anos 1980 e de todas as lendas mórbidas que pairavam sobre personagens infantis da década. Fofão ainda levanta discussões sobre o que é, de fato, aquele bicho estranho de bochechas proeminentes e flácidas: há quem diga que é um cachorro, outros, um extraterrestre. “Também fico na dúvida, mas é, com certeza, a roupa mais quente do time”, antecipa o paulista Gustavo Santos, que se transforma em Fofão todo santo dia.Por último, mas não menos importante, Patati, palhaço da turma com Patatá, encerra o time da Carreta da Alegria. Durante muitos anos, ficaram conhecidos como “os palhaços mais amados do Brasil”, se tornaram fenômenos na venda de LPs e foram parar em programas infantis da televisão. Durante a semana que passou, Patati havia sofrido um acidente enquanto dava piruetas e não pôde participar da reportagem. Ele passa bem.SaudadeA turma da Alegria fica em Goiânia até a primeira semana de janeiro, que é quando a decoração de Natal sai da Tamandaré - e isso inclui o famoso túnel das luzinhas. Depois, a trupe vai parar em Aragarças (GO) e Barra do Garças (MT), a 385 quilômetros de Goiânia, para aproveitar as férias e o carnaval da região, no Vale do Rio Araguaia.No Natal, todos vão se juntar para acompanhar os festejos juntos. “Geralmente, tiramos os dias 24 e 25 de folga, mas não dá para pegar o ônibus e ir parar no interior e voltar dois dias depois. É pouco tempo. A saudade fica no peito”, lamenta Robert Mendes, o Chaves, que morava em Coronel Fabriciano, localizada na região sudeste de Minas Gerais, antes de seguir com a Carreta da Alegria.Enquanto estão na capital goiana, os garotos aproveitam a cidade: já comeram pamonha, foram dar uma voltinha no Lago das Rosas, aproveitaram para conhecer a Praça Cívica. Quando a noite cai e a fileira de crianças começa a se juntar na Carreta da Alegria, os quatro mosqueteiros vestem as fantasias e se preparam para mais uma maratona de piruetas intermináveis e coreografias pouco ensaiadas. É Natal em Goiânia.Carreta FuracãoA Carreta Furacão, famosa por vídeos hilários na internet, é uma das impulsionadoras da popularização das carretas pelo País. A carreta é de Ribeirão Preto (SP) e tornou-se um viral da web depois que um segurança filmou os personagens Fofão, Mickey, Pato Donald e Capitão América nas ruas da cidade e postou no YouTube. Não deu outra. Publicado em 2010, o vídeo mais famoso da trupe, em que os dançarinos sacolejam ao som de Vem Dançar o Mestiço, de Leandro Lehart, já tem mais de 12 milhões de visualizações.Ribeirão Preto acabou se tornando a capital dos trenzinhos, e até a prefeitura de lá comprou a ideia: em 2013, foi aprovada uma lei para regulamentar a atuação dos trenzinhos. Pouco antes, em 2011, foi fundada a Associação de Trenzinhos de Ribeirão Preto, para defender os interesses de empresas do ramo.