Ambientada na São Paulo dos dias de hoje, Quem Ama Cuida, que estreia na segunda-feira (18), na Globo, constrói um conceito visual em que cidade, personagens e dramaturgia caminham juntos. Sob a direção artística de Amora Mautner, a novela aposta em uma estética menos naturalista e mais desenhada, na qual figurino, caracterização e cenografia atuam como elementos narrativos ativos. As escolhas visuais ajudam a revelar contrastes sociais, percursos urbanos e estados emocionais, compondo um retrato reconhecível da metrópole, filtrado por referências afetivas, códigos contemporâneos e um olhar que transforma roupas, corpos e gestos em extensões da história.A figurinista Flávia Costa, que assina a novela ao lado de Mari Sued, conta que a equipe buscou construir uma novela formalista, de personagens bem desenhados, com esse “cheiro” de anos 90, trabalhando com referências que o público reconhece, atualizadas. Esse desenho também se estende ao cotidiano. As chamadas “roupas de casa” de malhar, pedalar, descansar, ganham protagonismo como ferramenta narrativa. “Usamos muito isso para dar organicidade às cenas. A gente vê os personagens desmontados, em estados diferentes, não só prontos para o mundo. Isso aproxima o público e movimenta a cena. Na casa de Pilar (Isabel Teixeira), por exemplo, ela e os filhos andam de pijama, a filha Ingrid (Agatha Moreira) aparece com roupa de academia”, conta a figurinista. Adriana (Leticia Colin), assim como Arthur e Pilar, concentra códigos visuais particularmente expressivos. A protagonista tem no vermelho, e em suas variações que caminham para o vinho, o eixo principal de sua identidade visual. Trata-se de uma mulher prática, urbana, que circula pela cidade usando jeans, botas e sobreposições, em um figurino pensado para o deslocamento e para a ação. A cor funciona como um farol dramático e destaca a personagem no caos urbano, especialmente, em sequências de grande impacto, como a enchente. Mesmo quando Adriana perde tudo e passa a vestir roupas doadas no abrigo, maiores e mais desgastadas, o figurino preserva esse código cromático, e garante reconhecimento imediato e continuidade emocional. Pilar (Isabel Teixeira) é uma vilã declarada e veste o exagero com consciência estética. Animal print em múltiplas variações, volumes amplos, capas e sobreposições marcam sua primeira fase, evocando um imaginário oitocentista e kitsch, com referências diretas ao melodrama clássico. A novela cruza diferentes classes sociais e estilos de vida das famílias tradicionais e riquíssimas a personagens de rotina simples, o que permitiu ao figurino assumir cores, silhuetas e texturas como códigos de status, pertencimento e transformação. “Quando um personagem ganha dinheiro, esses signos aparecem. Nem sempre como bom gostorico antigo. Seu figurino aposta na sobriedade como código de status: alfaiataria precisa, cortes limpos e uma paleta contida, com referências a uma elegância de inspiração inglesa. O destaque simbólico do personagem é o anel com o brasão da família Brandão, criado especialmente para a novela e usado ao longo de toda a narrativa. Mais do que adorno, o objeto reafirma tradição, pertencimento e linhagem, funcionando como extensão material do poder silencioso que Arthur exerce”, conta Flávia. Já na caracterização a proposta era assumir uma atmosfera de “novelão” com base nos anos 1980 e 90, mas com acabamento contemporâneo e uma beleza popular que atravessa todos os núcleos, inclusive os mais sofisticados. Como a trama tem passagem curta de tempo logo no início, a caracterização recorreu a soluções técnicas reversíveis – postiços, laces, alongamentos – para garantir fluidez entre fases e preservar o ritmo intenso de gravações, segundo o caracterizador Marcelo Dias. O trabalho foi desenvolvido de forma integrada entre figurino, caracterização e direção, ajustando proporção, cor e textura para que os personagens se sustentem visualmente ao longo da novela. “Seis anos não mudam todo mundo. Alguns personagens seguem praticamente iguais. Em outros, a passagem aparece no detalhe: no comprimento do cabelo, numa barba diferente, num acabamento mais cuidado”, ressalta Marcelo. Na maquiagem, a novela também assume um desenho menos naturalista em determinados núcleos, usando luz e sombra para sugerir intervenções estéticas, vaidade ou dureza emocional, sempre com sutileza e sem caricatura, como na personagem Fábia (Flávia Alessandra), que vai ter um “bocão”. “É tudo feito no pincel, cena a cena. A novela é longa, o cuidado com o ator vem sempre em primeiro lugar. Mais do que marcar estilos, essas escolhas ajudam o público a perceber o tempo, o pertencimento e as transformações individuais”, reforça o caracterizador.