O trabalho dele entra na sua casa quase todos os dias na tela da televisão ou no rádio e provavelmente passa despercebido. Seja em comerciais, novelas ou programas, o produtor musical e publicitário Jônatas Duarte, de 52 anos, é o dono de mais de 300 trilhas sonoras espalhadas por vários cantos do Brasil e que dão vida e emoção a diferentes situações. Apesar do rosto desconhecido, ele tornou-se um dos profissionais mais requisitados do mercado e no momento tem uma nova missão: criar para a Globo os sons de vitória, derrota e superação dos Jogos Olímpicos do Japão, com abertura marcada para 23 de julho e competições até 8 de agosto.“Está sendo muito emocionante desenvolver esse trabalho. Estou trancado desde a semana passada no meu estúdio fazendo essas trilhas. Espero não morrer do coração quando elas aparecerem na Olímpiada”, brinca o produtor. A previsão é que ele faça de 20 a 40 canções para aberturas e fechamentos de programas de TV e também para os momentos de glórias, frustrações e de pódio. Natural de Belo Horizonte (MG), Jônatas Duarte mora em Goiânia desde os 2 anos de idade. “Sou goiano do pé rachado, comedor de pequi”, brinca.O convite para fazer as trilhas da Olimpíada aconteceu de forma natural. Há seis anos, ele embala canções em programas da Globo, como Mais Você, The Voice, Malhação: Viva a Diferença e no Vídeo Show. Em 2020, ele fez canções para o carnaval e o desafio agora é criar os temas para os jogos de Tóquio. Ele lembra que o convite foi feito por uma mensagem de telefone. “Fiquei feliz por ter sido escolhido e estou fazendo o meu melhor para poder emocionar o público porque música é tudo na imagem. Sempre digo que filme de terror sem música de medo não assusta ninguém”, diz o produtor.Quando recebeu o convite para fazer trilhas para atrações da Globo, Jônatas Duarte pensou que fosse um trote. “Eles me ligaram falando que queriam conhecer o meu trabalho, mas na hora não acreditei e pedi para retornar no outro dia. Quando entraram novamente em contato, percebi que o negócio era sério mesmo e fui para o Rio de Janeiro”, recorda-se. Na época, segundo o produtor, a gravadora Som Livre estava atrás de produtores de todo o Brasil para criar temas específicos de cada região, no caso dele, o sertanejo. “Mentiram para eles que eu era o melhor de Goiás e acreditaram”, conta aos risos.CriaçãoPara compor as trilhas da Olimpíada, a receita de trabalho é muito simples: café, silêncio e concentração. “Fiz uma do tema da vitória em que passei o dia inteiro pensando quietinho em casa. Não peguei o violão, só imaginando o que queria. Quando defini 100% na cabeça como seria, liguei o gravador de voz do telefone e fiz tudo. Comecei a tocar para dar vida ao que estava na minha cabeça”, ressalta. “Fiz outra de superação que quando você escuta imagina o atleta na hora do aquecimento, colocando a roupa, indo para a prova e no pódio. Pelo andamento da música, você percebe que ele ganhou”, completa.Jônatas Duarte conta que os mais de 30 anos de carreira facilitam bastante no processo de criação. Ele vem fazendo uma média de uma trilha a cada dois dias para os Jogos Olímpicos. No início da carreira, era no máximo três por ano. Para ele, o trabalho precisa ser muito mais na inspiração do que na transpiração. “Como vivo e respiro isso, estou conseguindo fazer bem. Quando estou sentado no sofá da minha casa, na minha frente tem um violão, do lado tem um teclado, no quarto tem uma guitarra e no outro, mais oito. Trabalho muito sob pressão. Muitas vezes já cheguei a fazer três ao mesmo tempo”, ressalta.InícioA música é a grande paixão de Jônatas Duarte, mas no início da carreira ele não queria nem tocar em conjuntos de baile, tão comum nos anos 1980 e 1990, nem em voz e violão em barzinhos. Na época, segundo ele, recusou uma proposta de fazer parte da formação da banda da dupla Leandro & Leonardo quando os sertanejos goianos estouraram com o sucesso Entre Tapas e Beijos. “Era um mercado muito difícil e com pouquíssimas opções”, lembra. Por conta disso, ele resolveu gravar os próprios discos – hoje, tem dez produzidos e o próximo seria gravado em maio com a Orquestra Sinfônica, mas foi adiado por conta do avanço da pandemia do coronavírus. Ele é cantor gospel, mas não vive de shows ou venda de álbuns. “É uma carreira à parte. Vivo mesmo é de publicidade”, diz o pai do Lucca, 17 anos, filho do primeiro casamento, e do recém-nascido Pedro Henrique, do relacionamento com a apresentadora Camyla Nogueira.Mais de mil jinglesFazer jingles também é a praia de Jônatas Duarte. O primeiro ele fez em 1998 e já são mais de mil na carreira. Campanhas para políticos, motéis, funerários ou empresas de material de construção fez aos montes. Em alguns casos, precisa apenas emprestar sua voz, como o da Fosquima, de 1990. Quem nunca acordou um domingo ao som de “Que gado é esse tão bonito que eu tô vendo. Que raça é essa com esse peso essa saúde. Ê bicho forte quanto leite que beleza. Que maravilha aquele gado ali de corte. Fosquima, o sal da Agroquima”.Em outros casos, Jônatas Duarte fez a produção, como a campanha do Supermercado Marcos que ficou famosa nas temporadas do Rio Araguaia, cantado por crianças no início dos anos 1990. “Chegou o mês, vai começar tudo outra vez. O bicho homem vem com sua traia. Voando pra sujar o nosso Araguaia. Não jogue lixo na nossa casa. Essa beleza é pra todo mundo. Oooo bicho homem. Vê se não arrasa”. “Muitas vezes, a agência traz a música pronta e pede apenas a voz e a produção. Por outro lado, tem algumas que faço tudo do zero”, conta.