Ao conviver com a primavera, penso na centelha de felicidade que essa estação nos traz, advinda das flores e de certas espécies vegetais que pareciam hibernar e que acordam para a vida, provendo um quê de despertar interior nos seres humanos. Talvez por isso, os antigos não contavam em anos o tempo de vida dos seus parentes, mas quantas primaveras haviam vivido. Em Goiás, a florada dos ipês é um sopro de alegria antecipada, quando as flores se abrem em sequência: rosadas, amarelas e por último as brancas, que anunciam a temporada das águas. No quadro A Primavera, Sandro Botticelli abre as portas de um jardim eterno: entre flores e frutos, deuses e ninfas atravessam a estação como se o mundo tivesse se livrado do frio do inverno nos países do Hemisfério Norte. Quando vi pela vez primeira esse quadro, na minha mente de adolescente Botticelli parecia ter copiado na sua Primavera o rosto de minha irmã adotiva Eleusa, a pessoa mais bela que eu havia conhecido em meus 15 anos.