Ao cerrar os olhos, Paulo Honório ainda sente cheiros e ventos da Avenida Del Libertador. Foi só ali, cruzando uma das mais largas vias de uma cidade que se orgulha de impor esses sacrifícios aos pedestres, que recuperou a consciência. Entrara em transe quando, meio cambaleando, Júnior Santos fez o terceiro gol do Botafogo. O elegante bairro de Núñez via nascer um campeão da Libertadores, mas Paulo Honório, aquecido pelos abraços, levitando de incredulidade, não guardou memórias visuais. Os sentimentos daquele entardecer de 30 de novembro de 2024 latejam em outros sentidos. Aos 50 anos, 89 quilos, sobrancelhas cerradas e grisalhas e rosto vermelho, Paulo Honório desfruta hoje de muita consideração. Mas foi sofrido, quase brutal, criar meios para certos luxos – como, por exemplo, viajar a Buenos Aires para ver o Botafogo pelear como se estivesse indo a Quintino. Tudo sem contar moedas, bebendo quantidades industriais de Quilmes e comendo às largas nos bodegones.