Na comunicação humana, nada é fácil e tudo vira facilmente um imbróglio, uma pequena confusão ou um grande mal-entendido. Até mesmo elogiar é uma arte que requer uma escolha sábia das palavras. Eu tinha então 27 anos, acabara de voltar à selva insalubre da solteirice, fui a uma boate e um rapaz, depois de perguntar a minha idade, comentou, galante: “Nossa, você está tão conservada!”. Respondi de chofre: “Que comentário infeliz, você perdeu sua noite”. Mais ou menos na mesma época fui a uma loja onde costumava comprar roupas e a vendedora, muito amável, me disse: “Cássia, tinha uma blusa linda aqui que era a sua cara, mas passou uma drag queen e a comprou”. Ela não perdeu a cliente, não me ofendi e agradeci sorrindo, mas confesso que refleti sobre meu guarda-roupa: eu não havia percebido que ele era tão alegre e, digamos, exuberante, quase uma exacerbação do feminino.