A culpa pela pesada chuva extemporânea que caiu no dia 14 de junho sobre Goiânia é do mar, quero dizer, da falta de mar. E minha também. Dirão, claro, os meteorologistas, climatologistas, engenheiros ambientais, oceanógrafos, biólogos, e outros especialistas em mudanças climáticas e clima de fim de mundo que não, claro que não. A chuva se deve ao choque de ar seco com massas frias, ao aquecimento global, às mudanças climáticas....Insisto: a culpa é do mar e de sua ausência, minha responsabilidade e talvez sua também. Ou melhor: a chuva foi a expressão das saudades, talvez ancestrais, e às vezes tempestuosamente agudas, que nós, gentes do Cerrado, temos do mar.Vou tentar explicar essa minha absurda teoria pessoal de que os cientistas não têm ciência, porque se baseiam em evidências obtidas por meio de testes e não podem se entregar como os poetas, as crianças e os loucos às deturpações da sensibilidade, às invencionices da imaginação e aos exageros das figuras de linguagem. Para nos consolar da distância que nos encontramos do oceano, nós, habitantes do Planalto Central, inventamos uma bonita metáfora: o céu é o mar do Cerrado. Não fomos nós exatamente que a criamos. Conta-se que foi Lúcio Costa, o arquiteto responsável pelo plano urbanístico de Brasília, que, ao contemplar a imensidão de um horizonte na maior parte do tempo azul, percebeu nele a semelhança com a vastidão do oceano. E para não poluir tais belas e claras águas aéreas, limitou a altura dos prédios a serem construídos nas superquadras.Pois não só os moradores da capital federal, mas, creio, todos os goianos que algum dia tiveram a fortuna de ver o mar – e mesmo aqueles que desafortunadamente ainda não o viram – tanto se identificaram com a comparação do urbanista, quanto já pelo menos uma vez se apropriaram e adaptaram a frase para dizer e se consolar de suas saudades.Enquanto contemplava o céu, no nascer e no pôr do sol, qual goiano um dia não pensou: ah, marzão, você está aí!? E não só pensou como até sentiu aquele cheiro de maresia, julgou perceber no vento de agosto o toque da brisa marinha e nos ouvidos os ruídos das ondas.Comigo ao menos acontece frequentemente, nos momentos e nos lugares mais diversos e inesperados. Estou na varanda de minha casa, e sinto de repente aquele olor de ar salgado e de alga. No meio do trânsito, trafegando pela Avenida T-63, vejo o vento sacudir as folhas das palmeiras e, por segundos, acredito estar na praia. Piso descalça a cerâmica fria do quarto e a sola dos meus pés se recorda do contato com a areia quente, como se ora afundassem, ora fossem molhados pela espuma das vagas.Porém, exatamente no dia 14, o consolo do céu-mar se mostrou inútil e ilusório. Eu dirigia pela Avenida T-9, ouvindo uma lista de músicas antigas. Era datada do tempo em que me mudei para o litoral. “Quem vem para a beira do mar, ai, nunca mais quer voltar, ai”, cantava Dorival Caymmi.Ai, eu também “andei, por andar andei, e todo caminho deu no mar”. Não queria voltar, mas voltei. Por ter voltado, chorei ao ouvir a canção. E chorei tão copiosamente, que as muitas águas que de mim desceram devem ter sido registradas pelos pluviômetros perplexos da cidade. E essas águas devem ter evaporado, formando em seguida as gordas nuvens da forte tempestade que à noite desabou sobre a cidade.Não duvido também que, assim como eu, você ou outros saudosos do mar também tenham dado a contribuição de suas lágrimas para o aguaceiro e vão se identificar com minha estranha teoria metafórica.